“A crise ambiental é a crise da democracia”

Uxbridge, Canadá, 09/02/2012 – Para enfrentar os desafios do Século 21, entre eles os da mudança climática, alimentação mundial e eliminação da pobreza, é preciso se livrar das "armadilhas do pensamento" que nos impedem de ver o mundo como ele é, declarou a ambientalista norte-americana Frances Moore Lappé.

Frances Moore Lappé. - Cortesia da entrevistada

Frances Moore Lappé. - Cortesia da entrevistada

"Não há maneira de abordar a mudança climática ou a pobreza sem uma democracia real", afirmou a autora de EcoMind: Changing the Way We Think to Create the World We Want (Mente ecológica: Mudar o modo como pensamos para criar o mundo que queremos), publicado pela Nation Books. Lappé escreveu 18 livros, entre eles o muito influente Diet for a Small Planet (Dieta para um pequeno planeta).

A IPS conversou com a ativista sobre seu novo livro.

IPS "“ A que se refere com "armadilhas do pensamento"?

Francês Moore Lappé "“ Não vemos o mundo como ele realmente é, mas através de um filtro ou mapa mental. As pesquisas em neurociência mostram que interpretamos o mundo com base em nossas experiências passadas. Em outras palavras, vemos o que esperamos ver. Uma das ideias dominantes em nossa sociedade tem a ver com a escassez ou a carência. Não há suficientes recursos ou alimentos para todos nós. Então, "vemos" ou interpretamos tudo a partir desse filtro ou marco de referência.

IPS "“ Como nos afeta essa ideia da "escassez"?

FML "“ Acreditar que não há o suficiente nos coloca na defensiva e nos leva a competir entre nós mesmos. Pensamos que é melhor conseguir o nosso antes que alguém mais o faça. A maioria das pessoas com as quais falo insistem em que nossa realidade atual e futura é que há sete bilhões de pessoas na escassez do planeta. Estão cegas por esta mentalidade.

IPS "“ Não é verdade que estamos ficando sem recursos como água, energia e alimentos?

FML "“ Quando jovem estudante descobri que a produção alimentar dos Estados Unidos era extraordinariamente de desperdício e ineficiente. Sete quilos de milho e soja alimentavam o gado para obter meio quilo de carne. Esse meio quilo exigia 45,4 litros de água. Quase metade de todos os alimentos colhidos nunca é consumida. Este desperdício surpreendente é a regra, não a exceção, e não só na produção de alimentos. O setor da energia nos Estados Unidos gasta entre 55% e 87% do que gera. Mas não é só nos Estados Unidos. Estudos da Organização das Nações Unidas (ONU) mostram que três mil das maiores corporações do mundo causaram danos ambientais no valor de US$ 2 trilhões apenas em 2008.

IPS "“ Por que somos tão destrutivos e desperdiçadores?

FML "“ É o resultado da atual economia de mercado, que se centra unicamente em gerar os retornos mais rápidos e mais altos para uma pequena minoria que ostenta a riqueza. Nossa economia cria escassez sendo extraordinariamente desperdiçadora e destrutiva. O termo "economia de livre mercado" é completamente errado. O que temos é uma economia de mercado corporativo-monopólica de desperdício e destruição. Temos que ser mais cuidadosos e mais precisos em nossa linguagem.

IPS "“ Cada vez mais ambientalistas e alguns economistas destacam a necessidade de passar de uma economia centrada no crescimento para uma focada no crescimento, mas você diz que isto é uma armadilha do pensamento.

FML "“ Sim, leva a um debate que distrai, sobre os méritos do crescimento versus o não crescimento. O crescimento soa como algo bom, por isso a maioria das pessoas resistirá à ideia de não realizá-lo. Contudo, é melhor apontar para um sistema que potencialize saúde, felicidade, vitalidade ecológica e poder social.

IPS "“ Em seu livro também propõe que todos se centrem em "viver a democracia".

FML "“ Os Estados Unidos se converteram no que se chama uma "plutonomia", onde o 1% de cima controla mais riqueza do que os 99% de baixo. A desigualdade é maior agora nesse país do que no Paquistão ou no Egito, segundo o Banco Mundial. O resultado é que as corporações e os muito ricos influem nas decisões públicas por meio de contribuições políticas e exercendo pressão. Atualmente há cerca de 20 lobistas para cada integrante do Congresso norte-americano. Para contrapor a este governo de privados, precisamos recriar uma cultura de responsabilidade mútua, de transparência, de participação da cidadania e de financiamento público das eleições. A democracia não é simplesmente votar uma vez por ano, mas uma cultura, um modo de vida. A "mãe de todos os problemas", na maioria dos países, está tirando o poder da riqueza concentrada da tomada de decisões públicas e reforçando as vozes dos cidadãos. A crise ambiental é, de fato, uma crise da democracia.

IPS "“ Muitas pessoas com consciência ambiental sentem que já é muito tarde e que há muito a ser superado.

FML "“ Pensar que é muito tarde é outra armadilha do pensamento. Pode ser muito tarde para evitar impactos significativos que poderiam ter sido evitados se há duas décadas se tivesse agido. Não é para a vida. Meu livro está cheio de exemplos de pessoas que assumem cargos e mudam as coisas. O que faz as pessoas pensarem que é muito tarde é que se sentem sozinhas e indefesas. E se sentem assim pelas armadilhas do pensamento, pelas falsas crenças sobre a escassez e sobre a natureza humana como invejosa e egoísta. Estas crenças e um governo de privados conduziram a um sentimento de indefesa.

IPS "“ Este ano marca o 20º aniversário da histórica Cúpula da Terra, e a Conferência Rio+20 a colocará em destaque em junho. O que pensa a respeito?

FML "“ Participei da Conferência Rio+10 e retrocedemos nesses dez anos. A Rio+20 pode ser a oportunidade de reverter o curso e nos alinharmos com a natureza para criar o mundo que realmente queremos. Envolverde/IPS

Stephen Leahy

Stephen Leahy is the lead international science and environment correspondent at IPS, where he writes about climate change, energy, water, biodiversity, development and native peoples. Based in Uxbridge, Canada, near Toronto, Steve has covered environmental issues for nearly two decades for publications around the world. He is a professional member of the International Federation of Journalists, the Society of Environmental Journalists and the International League of Conservation Writers. He also pioneered Community Supported Environmental Journalism to ensure important environmental issues continue to be covered.

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