Moçambique prepara-se para o perigoso ciclone Giovanna

MAPUTO, 02/03/2012 – Mais de 100.000 pessoas em Moçambique estão ainda a recuperar da perda das suas casas e colheitas, e de terem deixado de ter acesso a escolas e lojas depois de uma tempestade tropical e um ciclone terem atingido este país da África Austral em Janeiro. Mas o pior ainda está para vir porque se prevê que outro ciclone perigoso atinja o país sexta-feira à tarde, ao mesmo tempo que os stocks de emergência diminuem.

O ciclone Giovanna, equivalente a um furacão de categoria quatro -a mesma intensidade do furacão Katrina que devastou os Estados Unidos em 2005 "“ chegou a Madagáscar no fim-de-semana, tendo causado 65 mortos e deixado mais de 11.000 pessoas sem casa. Prevê-se que atinja o sul de Moçambique no dia 17 de Fevereiro a uma velocidade máxima de 100 a 150 quilómetros por hora. "Quando o ciclone tropical se aproximar de Nyumbani, prevemos um elevado risco de prejuízos nalguns distritos perto da aldeia de Nyumbani," afirmou Sergio Buque, principal meteorologista do Instituto Nacional de Meteorologia de Moçambique. A tempestade irá também afectar diversas outras áreas, incluindo Zavala, Morrumbene e Massinga, na província de Nyumbani. O país ainda está a recuperar da morte de 40 pessoas após as duas tempestades terem assolado o território uma a seguir à outra em meados de Janeiro. O número de vítimas mortais já é superior às 30 do ano passado. "108.048 pessoas foram afectadas pela tempestade tropical Dando e pelo ciclone Funso," disse a Equipa Nacional Humanitária das Nações Unidas (HCT). Lola Castro, directora da HCT, afirmou que os preparativos para a época dos ciclones tinham começado em Outubro do ano passado mas que os stocks já estavam a escassear devido às tempestades de Janeiro. "Infelizmente, neste preciso momento os stocks que temos no país, incluíndo diferentes artigos, estão a diminuir porque tivemos de (prestar ajuda) às províncias do Sul e à Zambézia," explicou. São precisos artigos básicos como coberturas de plástico para habitações. "Também é necessário equipamento para água e saneamento porque as latrinas foram destruídas e portanto as pessoas precisam de usar cloro para terem a certeza que a água não contém doenças transmitidas pela água. "Estamos igualmente à procura de sementes…. de arroz, feijão ou milho," disse Castro. Este ano quase 98.000 hectares de colheitas foram destruídos em Janeiro. Prevê-se que o Giovanna chegue ao país na mesma altura em que o Programa Alimentar Mundial planeia distribuir alimentos de emergência a 83.424 pessoas afectadas pelas tempestades de Janeiro, metade das quais já receberam alguns alimentos. "A distribuição já terminou em Nicoadala e Manganja da Costa e continua a ter lugar em Chinde e Pebane (na província central da Zambézia) e na província de Maputo," disse a HCT à IPS numa resposta escrita a perguntas colocadas anteriormente. "Cada família recebeu ou vai receber 50 quilogramas de milho durante um mês." Em Janeiro, a intensidade do ciclone Funso atingiu a categoria 4; no entanto, desviou-se do continente e avançou para o Canal de Moçambique, a sudeste da cidade da Beira, no centro do país. Ao mesmo tempo, chuvas torrenciais obrigaram os residentes da cidade de Maputo a ficarem dentro de casa enquanto que as zonas à beira mar ficaram alagadas devido às dificuldades do sistema de drenagem em canalizar a água para o mar. As chuvas contínuas nos países vizinhos também fizeram aumentar o nível dos rios que passam por Moçambique. O rio Komati transbordou, arrastando 50 metros da principal auto-estrada moçambicana Norte-Sul, a EN1, 100 quilómetros a norte de Maputo. Durante alguns dias, o país ficou sem acesso à capital por estrada, tendo os Estados Unidos emitido um aviso aos viajantes americanos que se manteve até que a estrada foi reaberta no dia 24 de Janeiro. Apesar das duas tempestades terem afectado milhares de pessoas, a situação não foi tão devastadora como em 2009, quando duas tempestades tropicais atingiram a costa central do país e deixaram mais de 520.000 pessoas dependentes de ajuda alimentar. No ano passado, durante as conversações das Nações Unidas sobre alterações climáticas que tiveram lugar em Durban, na África do Sul, foi divulgado que Moçambique era o único país africano perigosamente vulnerável a catástrofes naturais. Os delegados foram informados que, nas duas últimas duas décadas, Moçambique sofreu 50 condições meteorológicas extremas que custaram 1.745 vidas e um total de 96 milhões de dólares. De acordo com o Índice de Risco Climático Global (GCRI), uma organização-não governamental sediada na Alemanha, este país da África Austral ficou em 19° lugar em termos de mortes e prejuízos relativamente ao tamanho da população e ao PIB, em resultado de cheias, secas, ondas de calor e tempestades violentas entre 1991 e 2010. Contudo, os Moçambicanos, a maior parte dos quais são agricultores de subsistência em campos de terras baixas, estão completamente à mercê das forças da natureza. "As pessoas em Moçambique serão sempre afectadas devido às catástrofes naturais, visto que é um país sujeito a catástrofes, mas se forem avisadas atempadamente, é possível minimizar-se o nível da crise," afirmou a HCT. "O número das populações afectadas tem diminuído nos últimos 12 anos. As catástrofes podem aumentar devido às alterações climáticas mas Moçambique está a ficar cada vez mais preparado para evitar e responder a estes incidentes". O fórum Plataforma Global para Redução do Risco de Catástrofes, gerido pelas Nações Unidas, afirmou no ano passado que o Instituto Nacional de Gestão de Catástrofes do país era a melhor instituição nacional de gestão de catástrofes. "Agora, 12 anos volvidos desde as cheias de 2000/2001, a escala dos estragos em infraestruturas e componentes civis foi drasticamente reduzida em resultado do planeamento de emergência, das actividades de preparação e do investimento em sistemas de alerta precoce," disse Castro à IPS. Buque afirmou que as pessoas já tinham sido alertadas para a tempestade iminente de sexta-feira. "Estamos a disseminar informação às pessoas acerca das áreas de risco e o que devem fazer. Devem seguir as actualizações de informação divulgadas pela autoridade de gestão de catástrofes, pela autoridade competente no domínio das águas e até pela comunidade e pelo governo local," relatou. As autoridades centrais e provinciais formaram grupos comunitários de preparação contra as catóstrofes que têm como objectivo ajudar a evacuação de pessoas das suas casas em caso de cheias ou tempestades. Castro afirmou que, embora Moçambique esteja mais bem preparado para a época dos furacões, podia fazer-se muito mais para assegurar menos destruição. "As autoridades descentralizadas precisam de mais equipamento e formação. Também precisam de barcos que as ajudem a evacuar as populações se estas ficarem isoladas. A utilização da rádio para disseminar informação recorrendo a línguas locais pode traduzir-se num menor número de pessoas afectadas," acrescentou. A época das tempestades tropicais deve durar até Março e Buque disse que o Instituto Nacional de Meteorologia estava em estado de alerta em caso de tempestades adicionais. "Ainda estamos à espera de mais tempestades tropicais mas não temos a certeza se vão chegar aqui ou não," disse Buque. *Reportagem adicional de Zukiswa Zimela, em Joanesburgo

Johannes Myburgh

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