ZIMBABUÉ: Falta de preparação para as cheias perante previsões metereológicas contraditórias

BULAWAYO, 02/03/2012 – Sibongile Dube conhece a devastação que as fortes chuvas podem deixar por onde passam. Uma aldeã que vive nas zonas baixas da região de Mberengwa, na província zimbabueana de Midland, a casa de Dube é uma das muitas que foram arrastadas pelas cheias repentinas no ano passado. "Ainda estou a reconstruir a minha casa," disse Dube à IPS, apontando para onde construíu uma cubata que, segundo ela, funciona como quarto.

Do outro lado do pequeno pátio está uma caixa de armazenagem de cereais danificada que se tornou um símbolo da devastação que arrastou milhares de toneladas de cereais durante as cheias do ano passado.

Centenas de escolas e aldeias foram destruídas pela água entre críticas sobre o nível de preparação do Zimbabué perante catástrofes e a eficácia dos sistemas de alerta precoce. Isto apesar dos avisos anteriores de que as cheias, que já tinham deixado um rasto de destruição por onde passaram, em países situados ao longo do rio Zambezi, na África Austral, iriam eventualmente atingir certas partes do país.

"Nunca nos disseram que a água seria tão destruidora. Perdemos o gado e os cereais que tinhamos colhido," explicou Dube, chamando a atenção para a situação difícil de milhares de aldeões que são vítimas não só das catástrofes naturais mas também dos ineficientes sistemas de gestão de catástrofes e alertas precoces do país.

Embora as chuvas só agora tenham começado a cair nalgumas partes do país, os Serviços de Meteorologia do Zimbabué emitiram relatórios contraditórios sobre a altura prevista do pico de pluviosidade. Inicialmente os Serviços apontaram Dezembro de 2011 mas depois alteraram esta data para o início de Janeiro e novamente para o final de Janeiro.

O Director dos Serviços de Meteorologia do Zimbabué, Tich Zinyemba, alterou a previsão negativa feita no mês passado que lançava um aviso sobre as cheias iminentes. No fim de Janeiro Zinyemba disse que o ciclone, que se previra chegasse ao Zimbabué no mês passado, tinha entretanto regressado a Moçambique.

A última previsão de Zinyemba foi feita apesar de um aviso emitido pela Autoridade Responsável pelo Rio Zambezi que indicava que partes do rio Zambezi, que atravessa o Zimbabué, iriam ser afectadas por cheias e que aconselhava os aldeões a prepararem-se para serem evacuados para terras mais altas.

Esta semana, especialistas dos Serviços Meteorológicos do governo anunciaram que o ciclone proveniente do país vizinho, Moçambique, já não se estava a dirigir para o Zimbabué. Embora se tenha deixado de preparar os aldeões para a possibilidade de chuvas fortes, para Dube e muitos outros, a ameaça da chuva destruir as suas casas continua a representar um perigo real.

Estes boletins meteorológicos contraditórios expuseram a falta de preparação para possíveis cheias.

"Já não sabemos quando é que as chuvas vão cair e qual vai ser a sua intensidade," disse Dube à IPS, exprimindo também um sentimento popular porque muitas pessoas perderam a confiança na fiabilidade das previsões meteorológicas emitidas pelos serviços meteorológicos.

A Unidade de Protecção Civil, um departamento do estado responsável pela evacuação das comunidades nas áreas afectadas pelas cheias, entre outras tarefas, também emitiu um alerta sobre as cheias no mês passado. A Unidade tem sido fortemente criticada por não ter dado resposta atempada ao desespero de aldeões como Dube no ano passado.

"Há falta de conhecimentos adequados e ainda a habitual falta de recursos, e é por isso que não conseguimos ter meios como helicópteros para ajudar a população durante as cheias," explicou à IPS Tymon Ruzende, especialista no campo da preparação para as catástrofes, que trabalhou igualmente com a Cruz Vermelha durante as cheias do ano passado,

"Mas penso também que existe pouca acção em termos de preparar as comunidades para lidar com a possibilidade de cheias. Por exemplo, quando já se sabe que as águas vão subir, as comunidades têm de ser informadas da necessidade de se deslocarem para terras mais elevadas, embora haja algumas pessoas que resistem sempre a estes apelos," disse Ruzende à IPS.

Este ano, as comunidades que se encontram ao longo da bacia do Zimbabué estão mais uma vez estão no centro da subida das águas.

Isso acontece aqui, na bacia do Zambezi, em áreas como Binga, um distrito remoto e inacessível no norte do Zimbabué, onde as comunidades já foram vítimas das cheias, apesar de sinais claros que as margens do rio iriam transbordar.

Jairos Lubimbi, um vereador local, referiu que não se está a fazer muito no sentido de preparar os aldeões para a eventualidade de cheias.

"As pessoas aqui sempre viveram com cheias, que são vistas pelas autoridades como algo de natural, e não podem fazer nada para salvar vidas, gado e cereais," disse Lubimbi à IPS.

No mês passado, a Autoridade Responsável pelo Rio Zambezi disse aos aldeões que vivem a jusante do rio Zambezi que deviam deixar as suas casas, mas os aldeões que falaram com a IPS afirmaram que ainda estavam nos seus lares porque "não tinham outro lugar para onde ir."

"Eles dizem-nos que temos de ir para terrenos mais elevados, mas não oferecem nenhumas habitações alternativas," queixou-se Taboka Sibanda, um aldeão angustiado.

As cheias já se deslocaram de Moçambique para a África do Sul e, de acordo com algumas notícias divulgadas pela comunicação social, o aumento do nível de água já causou 20 mortos. Persistem preocupações quanto às possíveis cheias localizadas no Zimbabué.

Os especialistas afirmam que os padrões de alterações climáticas no Zimbabué adiaram a época das chuvas para o Ano Novo. Acrescentam também que isso dificulta as preparações para possíveis cheias visto que o país tem falta de sistemas de vigilância meteorológica mais avançados. Isto acontece numa altura em que as Nações Unidas têm feito apelos para que todos os sistemas de alertas precoces estejam centrados nas comunidades.

Ignatius Banda

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