Grupos armados no norte do Mali estão a violar mulheres

NIAMEY, 17/05/2012 – Um crescente número de mulheres no Mali está a ser violado por rebeldes tuaregues e por grupos armados que têm atravessado o norte do Mali desde o início do ano, depois de terem expulsado todos as tropas governamentais da região. De acordo com Corrine Dufka, investigadora senior da África Ocidental que trabalha para a organização Human Rights Watch e que está actualmente ocupada numa missão no Mali, tem havido notícias de violações e violência sexual em cidades e aldeias em toda a região.

"Estamos muito preocupados com aquilo que parece ser um drástico aumento de ataques e abusos sexuais de mulheres e raparigas por grupos armados no norte," disse Dufka à IPS.

"Desde que os grupos rebeldes consolidaram o seu controlo no território do norte, que apelidam de Azawad, a Human Rights Watch registou diversos casos de violação e muitos outros em que raparigas e mulheres têm sido raptadas de suas casas, cidades e aldeias e muito provavelmente abusadas sexualmente."

Dufka refere que a maior parte dos abusos tem sido "cometida pelos rebeldes do MNLA e, em menor medida, pelas milícias árabes a eles aliadas."

O Movimento Nacional para a Libertação de Azawad (MNLA) é um termo geral para os grupos armados de tuaregues que se juntaram com o objectivo assumido de administrar um estado independente, o Azawad.

Desde que, na época colonial, os franceses deixaram a região em 1960, têm-se registado diversas rebeliões tuaregues contra o governo do Mali. As revoltas anteriores acabaram em negociações e na nomeação de líderes rebeldes para cargos públicos.

No entanto, os rebeldes afirmam que o governo do Mali não cumpriu as promessas feitas durante as negociações e continuam a exigir um estado independente.

Desta vez, armados com um pesado arsenal de armas acumuladas de revoltas anteriores e de armamento adicional proveniente da Líbia nos últimos anos, o MNLA fez avanços sem precedentes. Esta situação foi facilitada pelo golpe de estado em Bamako e subsequente retirada dos militares no norte.

Ao comentar as alegações feitas pelo Human Rights Watch, o porta-voz do MNLA, Moussa ag Assarid, actualmente na cidade de Gao, no Mali, rejeitou a acusação que os homens do MNLA estivessem envolvidos em violência sexual. "Esses homens não pertencem ao MNLA, trata-se de outros homens que se encontram no local," afirmou Ag Assarid, falando por via telefónica de Gao. Admitiu, contudo, que "não podemos controlar todas as pessoas em Azawad."

Apesar do MNLA ter declarado um estado independente no dia 6 de Abril, os residentes na região afirmam que o movimento rebelde não parece controlar verdadeiramente a situação. "Um dia um grupo armado entra na cidade, no dia seguinte é outro grupo e, por isso, sentimo-nos muito inseguros," disse um residente em Gao, que preferiu o anonimato quando falou com à IPS por telefone.

Desde que o conflito começou, diversos grupos islâmicos armados surgiram na região, aumentando a preocupação sobre o futuro dos direitos das mulheres.

Um dos grupos, Ansar Dine, liderado por Iyad Ag Ghali, um importante líder de revoltas tuaregues anteriores, está a tentar impor a lei sharia no norte. Pouco depois de ter entrado em Timbuktu, Ag Ghali anunciou as convicções do seu grupo no rádio.

"A infelicidade deve-se à falta de fé em Deus, e ao facto de termos abandonado a prática da sharia, porque alterámos o nosso modo de vida devido à influência dos brancos," disse.

Embora que as estimativas indiquem que Ag Ghali só controla perto de 300 homens, a sua influência é largamente reconhecida. Muitos comandantes do MNLA continuam leais a Ag Ghali devido ao seu papel em revoltas anteriores, e o mesmo se passa com os traficantes de drogas e outros grupos islamistas na região.

Desde que o Ansar Dine anunciou a lei sharia tem havido notícias não confirmadas que Ag Ghai viaja acompanhado de líderes do AQIM, o grupo regional da Al Qaeda. Consta igualmente que o grupo extremista nigeriano Boko Haram e o Movimento para a Unidade e Jihad da África Ocidental têm estado a actuar na região.

Numa altura em que os residentes denunciam cada vez mais a presença de estrangeiros nas fileriras dos islamistas, crescem os receios que o objectivo de Ag Ghali de criar um estado islâmico seja alcançado mais cedo do que o esperado. Muitas mulheres do Mali, que gozam de liberdade e igualdade relativas por comparação às mulheres noutros países na região, estão preocupadas que esta liberdade tenha os dias contados.

"Desde que estes grupos chegaram, mal vamos à rua, estamos aterrorizadas com o que pode acontecer se nos esquecermos de fazer algo que eles exigirem" disse à IPS uma comerciante de 40 anos no mercado de Timbuktu, que também quis manter o anonimato.

"Trabalhei no mercado toda a minha vida, é dessa forma que alimento os meus filhos, como é que posso parar agora? Mesmo se me derem autorização para trabalhar, não estou habituada a estar sentada todo o dia debaixo de um sol abrasador coberta da cabeça aos pés."

Foi noticiado que o Ansar Dine e outros grupos islamistas têm ido de porta em porta ordenando às mulheres que usem véus e respeitem a lei islâmica. Visitaram cabeleireiras e destruíram fotografias de mulheres sem véus, encerraram bordéis e proibiram a venda de bebidas alcoólicas.

Embora não tenha havido notícias de mulheres castigadas pelo Ansar Dine por não aderirem à lei sharia, as mulheres na região têm cada vez mais receio da possibilidade de começarem a sê-lo se o grupo islamista conquistar mais controlo.

Os alimentos, electricidade e infra-estruturas também foram severamente afectados pelo conflito. Em muitas cidades, escasseiam os alimentos e a água, sendo difícil para os civis receber ajuda humanitária.

"A vulnerabilidade das mulheres no norte está a aumentar devido à falta de cuidados médicos, à não existência de instuições ligadas ao estado de direito e à reduzida assistência humanitária que poderia atenuar o seu sofrimento e impedir abusos adicionais," referiu Dufka.

William Lloyd-George

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