Agricultura é Fundamental Para o Desafio do Desemprego Juvenil na Libéria

MONRÓVIA, 17/07/2012 – Com a sua corrente de ouro, boné de baseball, e calções de ganga folgados, Junior Toe veste a farda da juventude urbana da Libéria. Se passarmos algum tempo com este jovem, torna-se evidente que ele possui a astúcia de rua que condiz com o seu visual. No entanto, a área de especialidade de Toe encontra-se fora da cidade, numa exploração agrícola.

"Olhem para esta semente de pimenta aqui," diz quando visita uma exploração agrícola comunitária não muito longe do centro de Monróvia. "Metam-na na terra, reguem-na algumas vezes, e vão fazer algum dinheiro."

Toe é o fundador e director executivo do Programa Comunitário Rede Jovem (PCRJ), que oferece formação aos jovens na agricultura e na criação de gado.

"Naquele lado temos uma estufa para couves," explica. "Se agora experimentarem plantar as couves, terão prooblemas com a chuva. É este o tipo de conhecimento que partilhamos."

A segurança alimentar e um trabalho que proporcione satisfação pessoal à juventude da Libéria há muito que constituem importantes desafios para este país da África Ocidental. Agora, vários programas comunitários e iniciativas governamentais estão a actuar no sentido de se resolver estas questões. As autoridades têm esperança que este seja o início de uma grande mudança na forma como os jovens liberianos participam no sector agrícola.

Segundo um relatório de 2010 do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento, 30 por cento da terra na Libéria é arável e cerca de 90 por cento das áreas com colheitas recebem chuva adequada. Contudo, de acordo com o relatório da Perspectiva da Segurança Alimentar da Libéria referente a 2012, 60 por cento da população está classificada como podendo ser afectada pela "insegurança alimentar".

O sector agrícola da Libéria foi devastado por décadas de má gestão e guerra. Em 1980, o Primeiro Sargento Samuel Doe tomou o poder num golpe de estado e a sua governação, que terminou 10 anos mais tarde, foi caracterizada por políticas incompetentes que impediram o desenvolvimento.

Em 1989, começou uma guerra civil no país, que continuou esporadicamente até 2003. Durante esses anos, o senhor da guerra – e mais tarde Presidente – Charles Taylor pilhou os recursos do país e fomentou a violência que matou 250.000 pessoas. Um número ainda maior de pessoas fugiu da Libéria ou ficou repetidas vezes a viver como deslocadas.

De acordo com uma avaliação feita em 2009 pela Organização da Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO), entre 1987 e 2005 a produção do alimento base do país, o arroz, diminuíu 76 por cento.

"A produção agrícola aumentou recentemente à medida que o sector recupera lentamente, mas as colheitas ainda estão muito abaixo da média regional e a insegurança alimentar é elevada," afirma o documento, acrescentando que a Libéria só produz aproximadamente 40 por cento do arroz de que precisa para alimentar os seus quase quatro milhões de pessoas."

Igualmente afectados pelo conflito encontram-se os jovens liberianos, milhares dos quais foram obrigados a aderir às facções rebeldes quando ainda eram rapazes e raparigas. Os projectos de reabilitação dirigidos pelas Nações Unidas tentaram reintegrar os antigos combatentes e as vítimas de guerra, mas esses programas são agora amplamente criticados como fracassos.

"Passei pelo processo de desarmamento, com uma semana de formação," afirma Toe rindo entre dentes.

"Mas muitas pessoas nunca tiraram partido disso…. Os homens estavam traumatizados, estavam habituados às armas, ao dinheiro, e a agarrar aquilo que queriam primeiro."

Toe diz que, depois de ver as deficiências dos programas de reabilitação, decidiu lançar o seu próprio programa, um que estivesse mais adaptado à Libéria. Pensou que, com um solo fértil e um clima quente e húmido, a agricultura era o caminho a seguir. Portanto fundou o PCRJ em 2007.

Entre outras coisas, a organização possui agora um centro de formação em Bensoville, no Distrito de Montserrado (cerca de uma hora de automóvel de Monróvia). Aqui a terra está dividida em oito explorações agrícolas, onde os antigos estagiários e parceiros gerem parcelas de terras integradas nas suas próprias propriedades ou em terrenos comunitários. O Fórum dos Jovens Agricultores mantém os participantes interligados, trabalhando no sentido de sensibilizar e atrair novos membros.

O que é crucial no sucesso do PCRJ, e aquilo que o separa do trabalho feito pelas Nações Unidas no passado com os antigos combatentes, é o destaque dado à propriedade. "Trabalhamos com os indivíduos para os ajudar a desenvolver os seus próprios projectos na comunidade onde eles os vão gerir," explica Toe.

Segundo Toe, actualmente há 100 jovens registados nos programas de seis meses nas instalações de Bensoville e quase 500 jovens formados praticam agora a actividade agrícola nas comunidades em redor de Montserrado.

Diversos destes jovens podem ser encontrados a trabalhar em terrenos governamentais que não estavam a ser usados no bairro de Fiamah em Monróvia. Alfred Kapehe afirma que o PCRJ o ajudou a progredir da agricultura de subsistência para a agricultura comercial em pequena escala. De igual modo, James Paylay diz que a sua pequena exploração agrícola produz dinheiro suficiente para o ajudar a alugar uma casa, alimentar a sua família e pagar as propinas dos filhos.

'Vem tudo do jardim," afirma Paylay.

O Ministro Adjunto para o Desenvolvimento da Juventude da Libéria, Sam Hare, reconheceu uma estatística citada pela USAID (a agência governamental dos EUA que presta assistência económica e humanitária) indicando que só três por cento dos jovens liberianos estão interessados na agricultura. Mas, numa entrevista concedida à IPS, defendeu que a situação estava a mudar.

"A agricultura foi identificada como sendo fundamental na diminuição do desafio do desemprego entre a juventude," referiu.

"Temos trabalhado com o Ministério da Agricultura e outros intervenientes para mostrar às pessoas que a agricultura, vista da perspectiva correcta, é uma ferramenta para obter riqueza."

Hare afirmou que o desafio é convencer os jovens que podem catapultar a agricultura para além do nível de subsistência e transformá-la numa empresa comercial.

"Neste momento, as prioridades da nossa formação vocacional precisam de ser redefinidas e restruturadas de forma a poder descobrir-se as necessidades reais da Libéria. E a juventude e a agricultura devem ser o foco," acrescentou.

"As nossas prioridades em matéria de formação professional precisam de ser redefinidas e reestruturadas agora com vista a satisfazer as verdadeiras necessidades da Libéria. E os jovens e a agricultura devem ser o centro da atenção," acrescentou.

Joseph Boiwu, responsável pelo programa da FAO na Libéria, referiu que outro obstáculo que atrasa a entrada dos jovens na agricultura é a natureza altamente laboriosa do trabalho. Para resolver este problema, em 2010 a FAO e os seus parceiros distribuíram 24 motocultivadores a pequenos grupos de agricultores nos distritos de Bong, Lofa e Nimba.

"Agora vamos reavaliar o interesse da juventude," afirmou Boiwu. "Se a iniciativa for considerada um sucesso pode incluir maquinaria pesada como tractores."

Prince Sampson, director da Acção Progressiva para a Juventude e Desenvolvimento no Distrito de Bong, na região norte-central da Libéria, descreve um programa que a sua organização dirige que é semelhante ao do PCRJ. Tal como Toe, diz que aprendeu com os erros dos programas pós-guerra que não investiram nas pessoas a longo prazo.

"Os antigos combatentes receberam formação em carpintaria, alvenaria, e outras técnicas," disse Sampson.

"E depois disso, não havia nada substancial que pudessem fazer. Deram-lhes formação mas depois eles não tinham nenhuma fonte de rendimento. Portanto, voltaram à estaca zero."

Sampson, que trabalha com a juventude afectada pela guerra desde 1992, defende que a agricultura é diferente porque há um elemento de responsabilidade imediata.

"Estas pessoas…. comem o próprio arroz que plantam. Os legumes são vendidos, os lucros são distribuídos entre elas, e ficam com algum dinheiro nos bolsos."

Sampson descreve a importância de envolver os antigos combatentes do país na agricultura como uma questão de segurança alimentar.

"Fazêmo-los compreender a utilidade dos próximos anos, apesar dos anos que perderem durante a guerra," disse.

"Fazemos com que eles compreendam que a força que tinham – a sua exuberância juvenil – ainda pode ser aproveitada."

* Informação adicional de Al-Varney Rogers em Monróvia.

Travis Lupick

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