Lilongwe, 19/07/2012 – As pequenas e grandes empresas no Malawi contabilizam as perdas depois da decisão do governo de não acolher a cimeira da União Africana em Julho. A decisão baseia-se na recusa do governo de autorizar o Presidente sudanês, Omar Hassan al Bashir, a entrar no país.
Bashir é procurado pelo Tribunal Penal Internacional (TPI), que o acusou de ter cometido genocídio, crimes de guerra e crimes contra a humanidade na região do Darfur, no Sudão. Como membro do TPI, o Malawi seria obrigado a deter Bashir quando este entrasse no país.
O Vice-Presidente Khumbo Kachale anunciou no dia 8 de Junho que o governo decidira não acolher a cimeira de 15-16 de Julho, visto que a participação de Bashir não era do interesse do Malawi. A Comissão da União Africana havia insistido que esta nação da África Austral permitisse a entrada do dirigente sudanês no país.
"O Governo tomou esta posição tendo como principal consideração o que seria melhor para o interesse dos Malawianos. Embora tenhamos de de acatar as decisões da União Africana, também temos a obrigação de respeitar outros acordos internacionais, incluindo o Estatuto de Roma (que criou o TPI)," afirmou Kachale.
Contudo, a decisão teve ramificações financeiras em várias partes da capital do Malawi, Lilongwe, que estava preparada para acolher a União Africana.
"O governo registou que, em termos do grau de preparação, o nosso país está sem dúvida alguma preparado. Isso foi confirmado pela missão de avaliação da União Africana que esteve no país na semana passada e que partiu satisfeita com o progresso alcançado em todos os aspectos das nosssas obrigações como anfitrião," observou Kachale.
Tinham sido organizadas diversas reuniões nos dias anteriores à cimeira que se realizariam em Lilongwe no dia 9 de Julho. O evento havia prometido transformar esta pacata cidade num centro de actividade. Previa-se que perto de 35 Chefes de Estado e 4.000 delegados participassem, situação que aumentaria a procura de serviços de acolhimento e produtos locais.
Sam Namathanga, presidente da Associação das Agências de Viagem do Malawi (TAAM), um grupo nacional de agências de viagem e operadores turísticos, disse à IPS que as perdas da indústria de hotelaria seriam significativas, incluindo os fundos investidos em empresas em antecipação da cimeira e estimativas de rendimentos futuros.
"Ainda não sabemos a dimensão dos prejuízos, mas vão ser enormes. Estamos a falar da perda de negócio na venda de bilhetes de avião, de viagens, que inclui os serviços de aluguer de veículos, e de pacotes turísticos, incluindo igualmente o alojamento," disse Namathanga.
Explicou que os membros da TAAM que esperavam aumentar os seus rendimentos tinham ficado decepcionados.
"A indústria de turismo perdeu uma grande oportunidade. Poderíamos ter feito uma grande promoção da indústria através da cimeira," disse Namathanga.
Um rápido inquérito informal efectuado pela IPS demonstrou que o custo médio do aluguer de um automóvel em Lilongwe é 85 dólares por dia, enquanto o alojamento varia entre 60 a 400 dólares por noite.
De acordo com a informação disponibilizada pelo Secretariado da União Africana, previa-se que todos os delegados pagassem as respectivas despesas, excepto os Chefes de Estado, chefes de delegações e Ministros dos Negócios Estrangeiros.
Muitas pequenas empresas locais tinham visto o evento como uma oportunidade para desenvolver as suas empresas.
Christina Kajawo, proprietária de um bar e restaurante no centro de Lilongwe, explicou à IPS que tinha começado a preparar-se para a cimeira seis meses antes com a renovação das suas instalações. Contraíu um empréstimo no banco no valor de 3.000 dólares porque queria dar ao seu restaurante e bar um aspecto mais apresentável.
"Esperava obter um bom lucro com a clientela do restaurante e do bar durante a cimeira da União Africana e, dessa forma, conseguiria pagar o empréstimo," explicou.
Agora Kajawo receia ter que encerrar o seu negócio.
"Espero encontrar uma forma de pagar ao banco, caso contrário poderei eventualmente ter de declarar falência e perder o meu sustento. Neste momento estou com dificuldades porque não há muito negócio por parte dos locais já que o Kwacha foi desvalorizado e o preço dos produtos subiu," disse Kajawo.
Num esforço para resgatar a economia do Malawi, a Presidente Joyce Banda desvalorizou o Kwacha de K168 para K250 em relação ao dólar. O preço das matérias-primas e produtos importados aumentou, em média, 50 por cento desde a desvalorização que ocorreu em Maio.
Ao desvalorizar o Kwacha, Banda respondeu a pedidos feitos pelo Fundo Monetário Internacional e economistas locais ao anterior Presidente do país, Bingu wa Mutharika. No entanto, Mutharika tinha várias vezes recusado tomar esse passo, que os economistas acreditavam teria salvo a economia em queda do país.
A decisão de cancelar a cimeira da UA é vista como uma medida directa para apaziguar os doadores ocidentais do Malawi, especialmente os Estados Unidos e o Reino Unido. No passado, estes dois países afirmaram que não iriam prestar ajuda a qualquer país que acolhesse Bashir e recusasse detê-lo.
As relações do Malawi com os doadores só agora é que estão a ser restabelecidas.
No passado, os doadores internacionais acusaram o governo de Mutharika de não respeitar os direitos humanos dos homossexuais, bissexuais, lésbicas e transsexuais, assim como de não respeitar a liberdade de imprensa.
Quando Mutharika estava no poder, Bashir foi autorizado a entrar no Malawi, em Outubro de 2001, para participar na cimeira do Mercado Comum da África Oriental e Austral, o que levou o governo americano a impedir a entrega de ajuda a este país pobre da África Austral.
Os doadores internacionais recusaram libertar quase 400 milhões de dólares e os Estados Unidos suspenderam um subsídio de 350 milhões de dólares. Na altura, quase 40 por cento do orçamento nacional do Malawi estava dependente de doadores.
Desde então, muitos doadores prometeram ajudar Banda a relançar a economia do país após ter ascendido à presidência depois da morte súbita de Mutharika no dia 5 de Abril. Portanto, não houve nenhuma surpresa quando Kachale anunciou publicamente o cancelamento da cimeira.
As organizações locais de direitos humanos e os comentadores políticos acolheram com satisfação a decisão do governo de impedir a entrada de Bashir.
"O Malawi deve colocar os interesses dos seus cidadãos em primeiro lugar e a Presidente Banda fez isso mesmo, e esta é uma grande forma de seguirmos em frente," disse à IPS Undule Mwakasungula, director do importante Centro de Direitos Humanos e Reabilitação.
"O que mais precisamos agora é dos doadores," opinou Mwakasungula.
Segundo o comunicado da União Africana na Segunda-feira, dia 11 de Junho, a cimeira terá agora lugar na capital da Etiópia, Adis Abeba, na sede daquela organização.

