Yaoundé, 09/10/2012 – Juliana Numfor, agricultora urbana cameronesa, possui seis parcelas de terra onde planta milho, mandioca, batata doce e produtos hortícolas de folha, incluindo couves-repolho, quiabos selvagens e verduras. O solo onde as colheitas são plantadas é húmido e visivelmente pantanoso, com um curso de água bastante próximo. Mas se se olhar mais de perto, verifica-se que a água é escura e tem mau cheiro.
Na realidade, são águas residuais provenientes de um bairro residencial para estudantes em Yaoundé, popularmente designado "Cradat", e que se encontra a menos de 400 metros das suas parcelas de terra.
Mas é precisamente devido a estas águas residuais que Numfor cultiva estas parcelas públicas.
Ela disse à IPS que preferia plantar as suas culturas em locais onde há águas residuais urbanas porque pode irrigá-las com facilidade uma vez que estavam imediatamente disponíveis. Segundo Numfor, esta situação devia-se ao facto das chuvas se terem tornado cada vez mais irregulares – apareciam e desapareciam quando menos ela esperava.
"O tipo de culturas nesta parcela de terra pode crescer em qualquer terra fértil se for bem irrigada. Mas durante este período em Agosto, que supostamente é uma altura muito chuvosa em Yaoundé, a pluviosidade foi extremamente escassa, tornando impossível o crescimento das culturas hortícolas sem uma irrigação adequada," disse Numfor.
E Numfor não é a única agricultora a fazê-lo. Os pequenos agricultores que vivem perto do centro da cidade de Yaoundé cultivam cada vez mais em sítios onde há águas residuais.
Muito embora não existam números oficiais que indiquem quantas pessoas estão a cultivar estas áreas, o Ministério da Agricultura e Desenvolvimento Rural (MINADER) admitiu que a prática era muito comum.
Actualmente é possível ver-se pequenos agricultores dentro e em redor de Yaoundé a plantarem as suas culturas em terrenos públicos, ao longo das vias férreas, em zonas de conservação e mesmo perto das estradas.
"É uma prática de longa data que se intensificou devido a uma série de causas, sendo as alterações climáticas uma delas. Muitos agricultores voltaram-se para a agricultura urbana com águas residuais," contou à IPS Collette Ekobo, uma inspectora do MINADER.
Uma mulher de 45 anos disse à IPS que conhecia outras 11 mulheres que cultivavam as suas culturas em terrenos localizados perto de águas residuais. "Tudo o que sei é que a terra é muito fértil. Penso que, devido ao facto de as pessoas esvaziarem os colectores de esgotos e outros resíduos domésticos nestas águas, isso torna a terra muito fértil para a agricultura. E há água em todas as estações do ano," afirmou.
Acredita-se que a migração rural-urbana, agravada pelos efeitos adversos das alterações climáticas na agricultura rural, seja uma das razões principais para o crescente número de agricultores urbanos na cidade.
Em 2011, o MINADER começou a avisar os agricultores acerca da variabilidade climática que afecta a agricultura em todo o país. Yaoundé, cidade situada na Região Centro dos Camarões, tem sentido uma pluviosidade reduzida.
"Ao longo dos anos, em Yaoundé, o padrão da pluviosidade tem variado muito e não é fácil compreendê-lo. A pluviosidade tornou-se muito irregular, imprevisível e reduzida… esta situação conduz à seca prolongada e ao desaparecimento dos cursos de água, acompanhado por condições climáticas extremamente quentes – resultando num fraco desempenho da produção agrícola e baixa produtividade," disse o Ministério.
Ekobo afirmou que, devido às alterações climáticas, muitos agricultores têm dificuldade em prever quando devem começar a plantar.
"Tradicionalmente, o mês de Março marca o início da estação de plantio na Região Centro dos Camarões, que se segue ao início das chuvas. Mas devido à mudança do padrão de pluviosidade, os agricultores tiveram de reajustar os seus períodos de plantação, fenómeno que é difícil de compreender na totalidade e que tem causado muita confusão entre os agricultores," explicou Ekobo. Acrescentou que a agricultura urbana estava integrada no sistema económico urbano e ecológico dos Camarões.
"A terra é rica em recursos urbanos, como resíduos orgânicos, que são usados como adubo, e em águas residuais, que são usadas na irrigação. Também existem ligações directas aos consumidores urbanos," afirmou Ekobo.
Mas a actividade agrícola em locais onde existem águas residuais não é uma prática segura, de acordo com Foongang Mathias, especialista em agricultura junto do Ministério do Meio Ambiente, Protecção da Natureza e Desenvolvimento Sustentável.
"A irrigação feita com águas residuais oferece os nutrientes necessários às plantas, especialmente o nitrogénio e o azoto que as culturas necessitam para o seu crescimento. Mas a agricultura feita com águas residuais cria ameaças ambientais e para a saúde, não só para os agricultores nas zonas urbanas mas também para os consumidores das culturas que crescem nesses campos," apontou Mathias.
Disse ainda à IPS que os resíduos tóxicos de casas, hospitais e indústrias eram provavelmente depositados ou transferidos para as águas residuais.
"Estas águas contêm organismos patogénicos e vectores de doenças que são semelhantes aos que existem nos dejectos humanos. Estes organismos patogénicos que são transportados pelas águas residuais podem sobreviver no solo ou nas culturas e são responsáveis por doenças contraídas pelos seres humanos," explicou Mathias.
Além disso, de acordo com a Organização Mundial de Saúde: "Os dados disponíveis indicam que quase todos os agentes patogénicos excretados podem sobreviver no solo durante um período de tempo suficientemente longo para criar riscos potenciais aos trabalhadores agrícolas."
Pese embora os riscos contra a sua saúde e a dos seus clientes, Numfor disse à IPS que os benefícios económicos decorrentes da actividade agrícola em águas residuais ultrapassavam em larga medida os perigos.
Iria continuar a vender os seus produtos aos clientes, que incluem proprietários de restaurantes e retalhistas. Numfor disse que ganhava uma média de oito dólares por dia, mas às vezes conseguia mais quando vendia os produtos a mulheres que exportavam legumes dos Camarões para os Estados Unidos e para a Europa.
Num mercado local de Obili, um bairro em Yaoundé, os vendedores exibem grandes quantidades de legumes cujo preço varia entre 200 francos CFA (50 cêntimos) e 300 francos CFA (75 cêntimos) por cada molho. E aqui os consumidores não estão interessados onde é que os produtos foram cultivados.
"Ignoro completamente o facto de terem sido cultivados em águas residuais porque, mesmo se contiverem micróbios, esses organismos não conseguem sobreviver às elevadas temperaturas na panela," disse uma mulher à IPS, ao comprar três molhos de hortaliça tipo folha amarga ou Vernonia Amygdalina.
Outra disse acreditar que os legumes eram seguros se fossem cozinhados em condições higiénicas e além disso, "nunca ninguém tinha protestado depois de ter consumido estes legumes."
Entretanto, Ekobo afirmou que o governo não planeava regulamentar a agricultura praticada perto das águas residuais.
"A agricultura urbana feita com águas residuais não é uma actividade regulamentada nos Camarões, apesar de constituir uma importante parte do sistema de alimentação urbano. Ainda não é considerada um problema potencial, mas antes um meio de subsistência para as mulheres."

