BULAWAYO, 09/10/2012 – Os projectos de irrigação em pequena escala podem proporcionar a maior oportunidade para fortalecer a segurança alimentar em África, segundo a directora de investigação do Instituto Internacional de Gestão de Recursos Hídricos, Meredith Giordano. Na sequência da Semana Mundial da Água no dia 26 de Agosto em Estocolmo, o Instituto publicou um estudo internacional que descreve como as inovações na gestão dos recursos hídricos podem melhorar o rendimento das culturas e aumentar o rendimento das famílias no continente.
De acordo com o relatório "Água para a riqueza e segurança alimentar: Apoiar os investimentos feitos pelos agricultores na gestão da água destinada à agricultura," publicado a 24 de Agosto, a expansão do uso das técnicas de gestão de recursos hídricos dos pequenos agricultores pode aumentar o rendimento até 300 por cento nalguns casos e ainda acrescentar dezenas de milhar de milhões de dólares ao rendimento familiar em toda a África Subsariana e na Ásia Oriental.
O relatório, resultado da Iniciativa para a Investigação de Soluções Hídricas destinadas à Agricultura, que durou três anos e foi coordenado por Giordano, demonstra pela primeira vez como os pequenos agricultores empreendedores utilizam os seus recursos de forma inovadora para financiar e instalar tecnologias de irrigação.
Giordano afirmou ser claro que os pequenos agricultores estavam a promover esta nova tendência que tinha o potencial de os ajudar a ultrapassar as dificuldades causadas pelas alterações climáticas. Seguem-se excertos da entrevista:
P: A irrigação é a solução para a adaptação às alterações climáticas?
R: É uma de uma série de soluções viávieis. Com previsões de uma maior frequência de incidentes meteorológicos extremos (cheias e secas) em África, a captura e armazenamento das águas das cheias e o seu uso para a irrigação é uma das opções para a adaptação agrícola às alterações climáticas.
O investimento na gestão de recursos hídricos destinados à agricultura nas pequenas propriedades agrícolas (AWM) oferece opções adicionais aos agricultores, maiores rendimentos e segurança alimentar o que, por sua vez, fomenta uma maior robustez e capacidade de adaptação às alterações climáticas.
P: Como é que a ciência e tecnologia podem contribuir para tornar a irrigação viável para os pequenos agricultores?
R: A investigação como aquela que é efectuada por este projecto pode prestar informações aos investidores sobre o quê, onde e como é que se deve investir de forma a apoiar a AWM dos pequenos agricultores para ajudar a reduzir a pobreza.
Já existem muitas tecnologias AWM viáveis em pequena escala, mas importantes áreas ligadas à investigação e desenvolvimento futuros incluem a melhoria da eficiência de pequenas bombas e a exploração de novas – ou a redução dos custos das existentes – fontes alternativas de energia (por exemplo, solar).
As imagens de satélite e a detecção remota podem oferecer informação sobre recursos hídricos subterrâneos, armazenamento e padrões de distribuição de água, rendimentos das culturas, secas e cheias de forma a facilitar a expansão e o alargamento da irrigação em pequena escala. Também permitem a monitorização de problemas ambientais em tempo real para que soluções eficientes possam ser implementadas rapidamente.
P: Qual tem sido o problema com os grandes projectos de irrigação no mundo em desenvolvimento, especialmente em África?
R: Há uma ampla variedade de opções AWM para o alívio da pobreza e o crescimento económico – desde a melhoria da irrigação alimentada pelas chuvas e em pequena escla até à construção de estruturas de irrigação em larga escala.
O aumento contínuo dos preços dos alimentos e a ameaça que isto representa para a segurança alimentar dos pobres vulneráveis levou a num crescente interesse e mobilização, por parte dos investidores, nos projectos de irrigação em larga escala, interesse e mobilização esses que, tendo em conta que muito poucas infraestruturas de irrigação existem na África Subsariana, são de facto relevantes e necessários.
No entanto, os investimentos em larga escala podem ser dispendiosos e só chegam aos pequenos agricultores que exercem a sua actividade agrícola perto das áreas onde estes sistemas operam. Além disso, a atenção centrada na dimensão em grande escala não leva em conta as significativas oportunidades de investimento no sector AWM para os pequenos agricultores – uma tendência crescente centrada nos agricultores que já está a aumentar os rendimentos e segurança alimentar dos pobres nas zonas rurais e tem o potencial de beneficiar milhões de pequenos agricultores na África Subsariana.
O nível de desempenho dos projectos de irrigação públicos em larga escala em África tem sido fraco devido aos elevados custos de capital e custos operacionais, à deficiente recuperação dos custos e à prestação de serviços impulsionada pela oferta e não pela procura. Estes problemas podem ser evitados ou melhor resolvidos com os sistemas de irrigação em pequena escala.
P: A irrigação tem os seus próprios desafios, por exemplo, a instalação e manutenção da infraestrutura inicial. Como é que os agricultores devem lidar com estes factores?
R: Efectivamente, mesmo a irrigação em pequena escala exige um investimento inicial e custos de funcionamento e de manutenção e regulares. O apoio concedido aos mercados de aluguer, por exemplo, pode representar uma opção para ajudar os pequenos agricultores sem condições para comprar as tecnologias AWM, como bombas motorizadas, e que não têm o conhecimento técnico para as manter.
Outras soluções incluem a formação de agricultores e vendedores sobre as tecnologias que melhor respondem às diferentes necessidades e como operar e manter o equipamento. As redes agrícolas existentes podem proporcionar canais de disseminação de informação eficazes sobre tecnologias AWM, preços, vendedores e serviço de apoio ao cliente, enquanto outros podem oferecer a formação necessária e o desenvolvimento de capacidades quanto à instalação e manutenção de equipamento.
P: A irrigação pode ajudar a poupar recursos hídricos escassos, se isso for possível?
R: Os investimentos nas tecnologias AWM podem melhorar a eficácia da utilização da água. Por exemplo, os investimentos feitos para modernizar os projectos de irrigação geridos pelas comunidades mediante o desvio de rios na Tanzânia conduziram ao melhoramento da produtividade da água através de uma canalização mais eficiente. A irrigação gota a gota e a rega por aspersão podem distribuir a água de forma a acompanhar as necessidades das culturas e, assim, poupar água quando comparadas com os sistemas de irrigação de canais em larga escala.

