“Quando a corda da desigualdade se rompe, você tem uma crise política”

Kanayo “Quando a corda da desigualdade se rompe, você tem uma crise política”

O presidente do Fida, Kanayo Nwanze, entrevistado pela IPS ao término de sua visita ao Peru e à Colômbia, entre os dias 2 e 8 deste mês. Foto: Juan Manuel Barrero/IPS

 

Bogotá, Colômbia, 12/8/2013 – “Não há desenvolvimento sem paz. Deve-se entender que para um país ter desenvolvimento deve existir um processo interno de paz”. O nigeriano Kanayo Nwanze, presidente do Fundo Internacional de Desenvolvimento Agrícola (Fida), é categórico com relação à Colômbia: “Devemos criar uma plataforma de confiança” nas comunidades rurais abandonadas.

O Fida é a única agência da Organização das Nações Unidas (ONU) criada para prestar apoio financeiro a camponeses e pequenos produtores. Trabalha com os governos, mas em iniciativas delineadas de baixo para cima. A população organizada propõe seus próprios projetos de vida e compete para que estes sejam atendidos e consigam financiamento, no caso da Colômbia, por intermédio do Ministério da Agricultura.

O dinheiro é administrado pelas próprias comunidades. Mais de 1.700 projetos de grupos rurais colombianos conseguiram apoio deste modo, embora o programa do Fida Oportunidades Rurais, que tornou isso possível, esteja por terminar, após um ciclo iniciado em 2007. Agora, o Fida lança na Colômbia um novo programa com o Ministério da Agricultura, que atuará em áreas de guerra definidas pelo governo com um conceito polêmico que inclui questões de segurança e de desenvolvimento: as zonas de “consolidação territorial”.

“Os pequenos e médios negócios em áreas rurais são uma fonte de estabilidade social para os países”, ressaltou Nwanze em entrevista à IPS, em Bogotá, ao concluir sua visita a dois países andinos sul-americanos, Peru e Colômbia, iniciada no dia 2. Nwanze, experiente cientista especializado em desenvolvimento agrícola, se reuniu com os presidentes dos dois países, o peruano Ollanta Humala e seu colega colombiano, Juan Manuel Santos, e também visitou e conversou com camponeses em comunidades rurais.

IPS: O Fida tem ampla experiência em trabalhos em zonas de conflito para promover o desenvolvimento e ajudar a garantir a paz. Como pode ser aplicada na Colômbia?

KANAYO NWANZE: Em muitos lugares da África e Ásia, e a Índia é um exemplo muito bom, descobrimos que, se existe capacidade de organizar as populações rurais, homens, mulheres e crianças, e lhes dar oportunidades de obter um emprego que permita que ganhem a vida, é menos provável que os jovens, em particular, se sintam atraídos pela retórica do extremismo. Acabamos de lançar um novo programa, o Projeto de Construção de Capacidades Rurais: Confiança e Oportunidade (TOP), que leva a iniciativa anterior a uma dimensão diferente e muito maior. Acreditamos que contribuirá de modo significativo para trazer esperança, desenvolvimento econômico e inclusão social a zonas rurais. E esperamos que leve paz e desenvolvimento à Colômbia.

IPS: A maioria dos lugares onde se desenvolverá este projeto é de áreas de guerra. Quais dificuldades isto pode causar?

KN: Posso falar de nossas experiências em outros lugares. Um bom exemplo é o nordeste da Índia, onde executamos projetos de desenvolvimento e manejo comunitário de recursos naturais. O impacto inicial não foi só nesses aspectos, mas gerou tantos benefícios econômicos que os jovens, que antes estavam envolvidos no extremismo, passaram a ter emprego, o que reduziu o alcance da insurgência. O Fida é uma instituição única. Além de ser uma agência especializada da Organização das Nações Unidas (ONU), o que lhe dá legitimidade mundial e confiança de populações e governos, tem a capacidade de organizar os povos rurais para que adquiram uma plataforma própria e estrutural de governança para operar. É necessário um mecanismo para construir confiança entre as populações em zonas de guerra e os governos. E é isso que o Fida faz de modo fantástico. Confiamos nas comunidades e elas confiam em nós, nos veem como seus amigos. Os governos com os quais trabalhamos, como o da Colômbia, veem que somos apolíticos, que nossos interesses são em favor da população e por uma política de diálogo nacional. Os problemas que as pessoas costumam enfrentar nessas comunidades é a forma como lhes é apresentada uma ideia ou um conceito: é preciso evitar cair de paraquedas e dizer-lhes o que devem fazer. O Fida não é uma instituição vertical, mas de baixo para cima. Caminha junto às comunidades. Elas devem ser parte do projeto, apropriar-se dele. Comprometem-se com ele quando o sentem próprio e querem que tenha sucesso. Se alguém cai de paraquedas é rejeitado. Não há nenhuma outra instituição que eu conheça que vá às áreas mais remotas e inacessíveis dos países. O Fida vai.

IPS: O projeto TOP se harmoniza com as políticas colombianas ou se alinha com elas?

KN: É preciso entender que o Fida só trabalha com os governos e não define o que estes devem fazer. Também trabalha com outros sócios e populações rurais para determinar o programa que querem. Agora, a maior prioridade do presidente Santos é a paz e o desenvolvimento inclusivo. Então, o que fazemos? Dizemos: de acordo. Destinamos US$ 25 milhões. Esta soma não é nada para a Colômbia. Mas o que trazemos é conhecimento e experiência sobre como trabalhar com populações rurais. De modo que somos um facilitador. Portanto, nossos programas se definem segundo a estratégia e as prioridades dos governos junto aos seus povos. Nossos programas não são políticos. No entanto, seus resultados podem ter um impacto político, porque trazem estabilidade política e confiança na comunidade, o que é o embasamento da paz. Na América Latina, no Brasil, Peru ou Guatemala, ou em diferentes países da África ou da Ásia, quando se vai às comunidades, se vê o compromisso e o entusiasmo que têm pelo simples fato de estarem realizando atividades que dignificam e geram dinheiro. Você pensa que desejarão pegar em armas contra o governo? Não. E isso é fundamental.

IPS: Que impressão leva de sua viagem por Peru e Colômbia?

KN: Fiquei assombrado com o que vi nos dois países. No Peru, pelo compromisso do presidente com a agricultura e o desenvolvimento rural. Também me impressionou a ênfase dada nos dois países para a construção da paz mediante investimentos em desenvolvimento. A menos que tenhamos comunidades rurais fortes, não poderemos conseguir o desenvolvimento sustentável em nenhum país, pois sempre existe essa brecha entre os que têm e os que não têm. Quando essa brecha chega a certo ponto, é como uma corda que arrebenta. E, quando arrebenta, se tem uma crise política. Envolverde/IPS

Constanza Vieira

Constanza Vieira, la corresponsal de IPS en Colombia, ejerce el periodismo desde hace casi cuatro décadas. Desarrolló su carrera en medios internacionales, entre ellos Deutschlandfunk, Deutsche Welle, Water Report del Financial Times y National Public Radio. Si le preguntan por lo que más le gusta cubrir, contesta: "La pasarela de la moda de Milán", una forma de indicar que no es corresponsal de guerra y que, si se adentra en temas militares, es únicamente por la necesidad de describir los rostros poco contados del conflicto armado de decenios que afecta a su país. Por una búsqueda, parte de esa cobertura, entró a Twitter, donde hoy tiene dos cuentas: @ConstanzaVieira y @HeavyMetalColom, esta última asociada a su blog en IPS, Heavy Metal Colombia, titulado así "porque el plomo es un metal pesado, y en este país cada cual tiene asignada su dosis personal". ¿Su cuenta en Facebook? "Cuando tenga tiempo la cierro". Constanza trabaja para IPS desde agosto de 2003. En 2005 obtuvo el Premio "Richard de Zoysa" a la Excelencia en Periodismo Independiente, en la categoría Coberturas Peligrosas.