Miami, Estados Unidos, setembro/2013 – Dizem as crônicas da mudança de século, na metade da aparentemente imparável hegemonia do primeiro-ministro da Espanha, José María Aznar (1996-2004), que ele recebeu uma advertência: “Menos Síria, mais Sória”.
O engenhoso conselho se referia à conveniência, com a finalidade de capturar a reeleição em 2000 e a consequente maioria absoluta, de dedicar maior atenção à política interna do que aos temas externos, aos quais Aznar se sentia irresistivelmente inclinado.
Segundo as fontes, o autor foi seu ministro de Administração Pública, Jesús Posada, atual presidente da Câmara dos Deputados, nascido na capital castelhana de Sória.
Em todo caso, o ocorrido passou para a linguagem política, ilustrando, por um lado, a prudente opção a ser tomada por todo governante de escolher prestar atenção aos problemas de ordem interna (Sória). Afinal, “toda política é local”, segundo o ditado anglo-americano.
Por outro lado, pode ser irresistível inclinar-se pelos movimentos à luz dos refletores das relações internacionais, em terrenos desconhecidos (Síria), ombro a ombro com as máximas figuras mundiais.
O certo é que Aznar desfrutou de um impressionante êxito ao se mover na ampla “Síria” aberta de modo sangrento pelo 11 de setembro de 2001, pela intervenção de represália no Afeganistão e pela aventura no Iraque, à qual acudiu sem o consentimento de 90% da “Sória” natural, pela qual demonstrou ter um desprezo tão notável quanto o deslumbramento de aparecer na foto feita nos Açores, junto com Tony Blair e George W. Bush.
Em contraste, ao ter causado, com sua irresponsável manipulação da autoria do ataque terrorista de março de 2004 em Madri, a derrota de seu sucessor Mariano Rajoy (que se refugiava em sua “Sória” galega), abriu a porta para a ascensão de José Luis Rodríguez Zapatero, que, por sua vez, de forma natural para sua personalidade e inclinações ideológicas, decide rapidamente pela retirada das simbólicas tropas do Iraque. Assim resistiu até que o apoio de “Sória” se esgotou devido à crise econômica, e se traspassou para Rajoy.
Barack Obama chegou à Casa Branca convencido de que deveria ouvir a voz de sua “Sória” natural, e estabelecer um plano para ir saindo da “Síria”, que se abrira desde o começo da Primavera Árabe, com a “revolução dos jasmins” na Tunísia.
No entanto, após ter sobrevivido com sua tática de liderar por trás, sobretudo na Líbia, o desafio do uso das armas químicas na Síria real o colocou em um beco sem saída: represália ou paralisação.
Tendo por pano de fundo a decisão de seu colega britânico David Cameron de se ater aos desejos de seus “sorianos”, que lhe vetaram intervir em uma ação contra Bashar al Assad, Obama mantém a ameaça de castigar o crime do ditador sírio, mas decidiu ouvir os representantes de seus “sorianos” no Congresso.
Com esta decisão Obama optou, no momento, por ouvir a advertência de uma opinião pública que em quase 80% não apoia a intervenção. Assim se ratifica, neste capítulo, o isolacionismo inato dos norte-americanos, que somente se aventuram em um apoio maciço às intervenções exteriores em contadas ocasiões, como após o ataque a Pearl Harbour ou a queda das Torres Gêmeas.
Nos próximos dias será crucial observar qual é o poder real dos “sorianos” dos Estados Unidos, e qual é a atitude diante das travessuras dos sírios reais. O problema para Obama é que tampouco sabem bem como explicar que a possibilidade de expulsar o líder sírio pode provocar a ascensão ao poder de uma parte da oposição que compartilha com Assad igual ódio pelos Estados Unidos, pelo mundo ocidental e por Israel.
No momento, a retirada tática de Obama beneficia Cameron e o deixa respirar. Justifica sua aparentemente irresponsável opção por acelerar um voto de seu Parlamento. Embora (temporariamente?) tenha violado a sacrossanta “relação especial”, que sempre se aplica quando se trata de temas fundamentais, a lentidão de Obama o justifica.
Porém, o alto preço a pagar pode ser um dano irreparável ao sólido vínculo aliado entre os dois países. Resta, por outro lado, o papel secundário (mas também importante) a ser jogado pelo presidente francês, François Hollande (líder da potência colonial que construiu a atual Síria), que prometera seu apoio à arriscada operação anunciada por Obama.
Agora, todos esperam ansiosos se os congressistas e senadores norte-americanos resgatarão Obama de um ridículo que se mantém perigosamente como possível. O resultado de todo este drama continuará colocando sobre a mesa o dilema de optar por “Sória” ou “Síria”. Envolverde/IPS
* Joaquín Roy é catedrático Jean Monnet e diretor do Centro da União Europeia da Universidade de Miami (jroy@Miami.edu).


