Se Obama atacar, a tragédia síria será dele e não do Irã

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Presidente do Irã, Hasán Ruhaní. Crédito: Retrato oficial, rouhani.ir

 

Honolulu, Estados Unidos, setembro/2013 – Depois do anúncio de que o governo dos Estados Unidos poderá atacar a Síria em breve, restou muito pouco para se falar. O fato de o presidente Barack Obama ser um guerreiro hesitante agrega peso à justificativa de seu ataque, é o que se diz.

Seguramente, um guerreiro hesitante não usaria um desastre humanitário como cobertura, acrescenta-se. Também deveríamos considerar que, diante da “linha vermelha” que Obama traçou no ano passado para intervir na Síria (que Damasco utilizasse armas químicas no conflito armado interno), a credibilidade norte-americana está em jogo.

E, desde já, nos recorda a necessidade de os Estados Unidos serem o protetor da lei mundial e civilizada que proíbe o uso de armamento químico.

Nenhum desses argumentos convencerá os críticos da ação militar.

Obama, o secretário de Estado, John Kerry, e o da Defesa, Chuck Hagel, dificilmente se enquadrem no papel de doutor Strangelove, cavalgando uma bomba destinada a Damasco, mas a falta de clareza sobre o que aconteceria no dia seguinte é, no mínimo, imprudente.

Se o regime sírio usou armas químicas, não seria razoável assumir que uma ação militar limitada – concebida apenas para castigar, mas não para derrubar o presidente Bashar al Assad – daria lugar a um emprego maior dessas armas e maior devastação?

Sim, a credibilidade norte-americana está em jogo, mas associá-la ao músculo militar pode trazer uma maior perda dela em áreas mais importantes.

A revelação de que, em meio a uma crise humanitária, a direção política de Washington está envolvida no lançamento de mísseis pode resultar em uma séria falta de credibilidade e no fracasso da suposta liderança mundial, construída sobre a bancarrota moral e ideológica.

Pode ser que alguns na Síria e em outros lugares do Oriente Médio saúdem a ação militar, mas, se o governo de Obama for incapaz de empregá-la para mostrar certo tipo de conduta e conseguir que a tragédia síria termine mediante um processo político sério, então a medida será repudiada por todas as partes.

Diz-se que uma operação militar de Washington na Síria causaria um grande dilema para o novo e moderado governo do Irã, que deverá decidir o que fazer diante da situação do único aliado iraniano no Oriente Médio, enquanto internamente os setores de linha dura o pressionarão para que responda.

Não será assim. Em uma postagem no lobelog.com, Jasmin Ramsey já mostrou a tíbia reação de Teerã diante de um possível ataque norte-americano.

A verdade é que, se Obama ordenar uma ação militar, a tragédia síria passará a ser sua, não do Irã.

No atual clima pós-eleitoral na República Islâmica do Irã, onde se percebe um movimento para a reconciliação nacional, tanto dentro da elite quanto entre o governo e o povo, nada cai melhor para Teerã do que ignorar este problema sem fazer barulho.

O argumento a favor de um apoio maior a Assad triunfou no Irã quando a queda do regime sírio se mostrava como o resultado desejado por Estados Unidos, Arábia Saudita e Israel.

Porém, os acontecimentos atuais na Síria estão bem além de uma guerra por poder. A violência está fora de controle e ultrapassou as fronteiras dos países vizinhos. Naturalmente, o Irã não tem fronteiras com a Síria.

Entretanto, tanto ou mais importante: a ideologia de que a tragédia síria foi engendrada com amplo apoio de fundos saudistas e catarianos (antixiitas, anti-iranianos, antinorte-americanos e antissemitas, embora por ora não virulentamente anti-Israel) será um problema maior para o país que a “comprar”.

E comprá-la é precisamente o que está prestes a fazer o governo de Obama, seja atuando em nome da credibilidade ou do castigo, e supostamente apenas mediante uma descarga de mísseis Tomahawks por alguns dias. Envolverde/IPS

* Farideh Farhi é professora na Faculdade de Ciência Política da Universidade do Havaí, nos Estados Unidos, especialista em Irã, e escreve no blog de Jim Lobe, www.lobelog.com.

Farideh Farhi

Farideh Farhi is an independent scholar and affiliate graduate faculty member of political science at the University of Hawai’i at Manoa. Her publications include ‘States and Urban-Based Revolutions in Iran and Nicaragua’. She lived and worked in Iran for most of the 1990s and writes frequently about Iranian politics and foreign policy.

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