Curdos e Síria buscam válvula de escape

Kurdos Curdos e Síria buscam válvula de escape

“A Síria agradece sua visita” é a frase inscrita no posto aduaneiro de Til Kocer/Yarubiya, na fronteira com o Iraque. Foto: Karlos Zurutuza/IPS

 

Til Kocer, Síria, 6/5/2014 – Após ganhar espaços de autonomia ao calor da guerra civil da Síria, os curdos do norte desse país denunciam agora uma política de asfixia nas mãos da Turquia e do governo da vizinha Região Autônoma Curda do Iraque. “Todos sabemos que Ancara e Erbil – capital administrativa da Região Autônoma Curda do Iraque – têm um plano para evacuar completamente essa região”, disse à IPS Abdurrahman Hemo, presidente do Comitê de Ajuda Humanitária curdo. “Tentam asfixiar a população com um bloqueio para que esta fuja em massa”, acrescentou.

De seu escritório em Derik, 700 quilômetros a nordeste de Damasco, Hemo falou abertamente sobre um suposto embargo exercido sobre as zonas curdas da Síria. A última prova, disse, é o fosso de 17 quilômetros de comprimento, três de largura e dois de profundidade que as autoridades do Curdistão iraquiano estão construindo ao longo da fronteira comum.

Isso, junto ao recente desmantelamento da ponte na única passagem oficial entre curdos do Iraque e os da Síria, a dez quilômetros de Derik, tem um efeito psicológico ainda mais devastador do que o puramente estrutural. “As pessoas estão aterrorizadas e muitos partiram. Isso está quase vazio”, apontou Isham Ahmed em seu pequeno comércio de alimentos, no bazar de Derik.

“Os preços dos alimentos básicos aumentam cinco vezes, já que muitos são de contrabando ou, simplesmente, porque muitas terras deixaram de ser cultivadas por causa da guerra”, acrescentou à IPS esse comerciante que resiste a baixar definitivamente as portas. A escassez generalizada é um dos preços que os curdos da Síria têm de pagar desde que, em julho de 2012, assumiram o controle de suas áreas.

Apesar de sua aposta em se distanciar tanto do regime de Bashar al Assad como da oposição armada, o governo turco não vê com bons olhos um movimento autonomista liderado pelo Partido da União Democrática, que diz compartilhar a agenda do Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK), que na década de 1980 lançou uma guerra de guerrilha contra Ancara.

Erbil tampouco reconhece a administração curda na Síria, alegando que uma parte da população não está representada. As excelentes relações  comerciais que mantém com Ancara, e que incluem suculentos contratos de gás e petróleo, são outro fator a ser considerado. Precisamente, um dos produtos mais escassos em Derik é a gasolina. Um litro, que antes da guerra custava US$ 0,34, agora vale mais de US$ 2. Chega de qualquer das refinarias improvisadas – apenas um tanque para ferver o petróleo – nas quais frequentemente são crianças que arruínam seus pulmões.

Os motores acabam cedendo pela baixa qualidade do combustível, e muitos veículos têm de ser rebocados até Qamishli, principal núcleo urbano do nordeste da Síria, a 600 quilômetros de Damasco. A situação nessa cidade, proclamada capital do autônomo cantão de Jazeera, não tem réplica em nenhuma outra região da Síria: a maior parte de Qamishli está sob controle curdo, mas o governo continua presente no centro e no aeroporto. Assim, Qamishli conta com duas administrações: a de Damasco e a curda. Esta última respeita uma escrupulosa paridade de gênero nos cargos de responsabilidade.

Rauda Hassan, coprefeita da cidade, resumiu à IPS os novos desafios de seu município. “Nosso fornecimento elétrico depende de Raqqa (500 quilômetros a nordeste de Damasco), mas agora está cortado porque a cidade esta sob controle da rede Al Qaeda”, explicou essa jovem de 30 anos no antigo hotel Hadaya, agora sede da prefeitura curda da cidade. “Tanto os escritórios do regime como o aeroporto contam com 24 horas de luz, mas o resto da cidade tem apenas quatro, por isso dependemos dos geradores”, acrescentou.

A pouca distância, o médico voluntário Redovan Hamid também enfrenta novos desafios. “A falta de eletricidade afeta a conservação dos alimentos, mas isso não é o pior. Voltamos a ter casos de tuberculose e há regiões da cidade onde não se recolhe o lixo, por isso não podemos descartar uma praga de ratos, uma epidemia de cólera”, destacou. Ele culpa por isso “o brutal bloqueio de Ancara e Erbil” e afirmou que “os remédios escasseiam ou chegam vencidos após ficarem retidos na fronteira turca ou curda do Iraque. É desesperador”, lamentou.

No oeste de Qamishli, na sede da Meia-Lua Vermelha Curda, criada ao calor da revolução mas sem relação formal com a Federação Internacional da Cruz Vermelha e da Meia-Lua Vermelha, o delegado regional, Agid Brahim, concorda com Hamid. “Dependemos exclusivamente da comunidade internacional, porque nossos vizinhos nos deram as costas”, afirmou o voluntário a IPS.

No dia 26 de outubro de 2013, as Unidades de Proteção Popular (YPG) tomaram o posto fronteiriço de Til Kocer (Yarubiya, em árabe), 700 quilômetros a nordeste de Damasco e a 400 quilômetros de Bagdá, cuja estratégica aduaneira permanecia sob controle de grupos inclinados à Al Qaeda desde março daquele ano. No final de dezembro, e após uma reunião com uma delegação curda da Síria, Bagdá concordou em reabrir o posto fronteiriço.

“O tráfego ainda é muito escasso, porque as mercadorias são descarregadas de um lado e recarregadas no outro”, explicou à IPS um dos novos trabalhadores da aduana, Redur Marzan, junto a um caminhão de bombeiro inutilizado. Ele conta entre “um e quatro caminhões por dia”, quantidade insuficiente para atender as crescentes necessidades da região. A segurança, disse o jovem, é outro fator que impede que Til Kocer recupere sua atividade.

“A maioria dos disparos que ouvimos durante o dia chegam de um campo próximo de treinamento das YPG, mas os islâmicos continuam na área, por isso não podemos baixar a guarda, especialmente à noite”, detalhou Marzan, enquanto caminhava entre toneladas de tâmaras que apodreciam no chão. A poucos metros, um homem em uniforme de camuflagem varre a entrada principal, enquanto um solitário soldado iraquiano o contempla do outro lado da barreira.

“A Síria agradece sua visita”, diz uma frase na arcada do posto de controle, localizado em um pequeno pedaço de terra sobre o qual um povo colocou todas suas esperanças. Envolverde/IPS

Karlos Zurutuza

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