Esta é a segunda notícia de uma série de três partes sobre o VIH e a contracepção em África
NAIROBI, 14 de Agosto de 2014 (IPS) – Beatrice Njeri tinha acabado de regressar a casa após sair do emprego como porteira numa escola primária. Era Agosto de 2009.
Ao chegar a casa mais cedo do que o normal, esta mulher casada e com dois filhos encontrou o marido à espera dela na sua barraca em Kisumo Ndogo, no enorme bairro de lata de Kibera.
Ele tinha decoberto pouco antes que era seropositivo. Uma semana mais tarde também ela descobriu que era seropositiva.
Na altura, ambos tinham 29 anos. “Éramos muito novos e sabiamos muito pouco sobre o VIH,” contou Beatrice.
Com duas filhas, ambas seronegativas, queriam um filho, mas decidiram não ter outro bebé.
Nessa altura, para impedir a gravidez, Njeri recebia Depo-Provera, uma injecção hormonal que dura três meses, e precisava de nova injecção.
Quando constataram que Njeri era seropositiva, as enfermeiras encorajaram-na a fazer a laqueação das trompas como método permanente de controlo da natalidade – um passo que nem Njeri nem o marido estavam preparados a dar.
Durante esse período, Njeri desconhecia que o país enfrentava uma enorme escassez de contraceptivos. Essa escassez era tão grande que se espalharam boatos que as mulheres que procuravam a injecção hormonal, o método mais popular de planeamento familiar, estavam a ser injectadas com água em vez da hormona.
Njeri disse à IPS que as enfermeiras lhe afirmaram que davam prioridade a outras mulheres com necessidade urgente de terem acesso a contraceptivos.
“Disseram-me que eu estava a ser egoísta por não concordar em fazer o laqueamento das trompas,” relatou. “As enfermeiras queriam obrigar-me a desistir da única coisa que me fazia sentir uma mulher e eu não quis que isso me fosse retirado.”
O sexo tornou-se uma tarefa
Foi aconselhada a usar um preservativo para impedir a gravidez. Os preservativos eram uma coisa nova para o casal e não eram fáceis de usar.
“Usá-los a toda a hora era bastante difícil. O sexo tornou-se uma tarefa. Detestava aquilo,” declarou Beatrice.
Factos breves sobre a contracepção no Quénia
Contraceptivos Mais Populares
14.8% Contraceptivos injectáveis
4.7% Pílula
3.2% Esterilização feminina
3.2% Ritmo (dias seguros)
2.6% Preservativo masculino
1.3% Implante
1.1%: DIU (Dispositivo Intra-Interino)
0.4%: Lactação
0.4%: Interrupção
0.4%: Método popular
28%: Número total de mulheres casadas que usam contraceptivos modernos
26%: Necessidade não preenchida de contraceptivos
Fonte: DHS 2009 http://dhsprogram.com/pubs/pdf/FR229/FR229.pdf
O preço constituía outro problema. “Somos ambos trabalhadores temporários. Nos bairros de lata, a única prioridade é pôr comida na mesa,” afirmou Beatrice. O seu único apoio provém da igreja, ou seja, sacos com roupa e alimentos de vez em quando.
Partilhou o seu problema com uma parteira tradicional que a aconselhou a fazer sexo só em dias seguros.
Mas nenhuma delas sabia que os antibióticos podem interferir no ciclo menstrual, e Beatrice estava a tomá-los para eliminar as infecções oportunístas relacionadas com o VIH. Isto tornou os dias seguros ineficazes como método contraceptivo.
Oito meses mais tarde, descobriu que tinha ficado grávida. Depois da sua primeira visita pré-natal, a contagem de CD4 totalizava uns reduzidos 400. Após o nascimento do filho em 2011, a sua contagem passou para 180. Começou a tomar anti-retrovirais, assim como o marido.
Mas o filho ficou infectado com VIH.
Embora Beatrice estivesse integrada no programa de prevenção da transmissão de mãe para filho no Hospital Governamental Mbagathi, perto de Kibera, optou por dar à luz com uma parteira tradicional porque estas são mais simpáticas que o pessoal do hospital.
“A maior parte dos hospitais governamentais tem gente a mais, e não há tempo para manifestar simpatia ou respeito. É preciso ter sorte para uma das enfermeiras realmente tratar da pessoa,” asseverou.
Entre 2012 e 2013, uma série de greves no sector da saúde resultou na escassez de contraceptivos injectáveis. Relutantemente, o casal passou a usar preservativos.
Ser seropositiva, sexualmente activa e suficientemente jovem para engravidar é um grande problema, afirma.
“Muitas serviços de saúde não conseguem resolver as nossas necessidades,” disse Beatrice à IPS.
Algumas clínicas já reservaram um dia de serviços de planeamento familiar para as mulheres seropositivas mas nem sempre ela pode participar porque tem de trabalhar.
Para já voltou a usar o contraceptivo injectável. Reza para que dentro de dois meses, quando regressar à clínica para nova injecção, esta ainda esteja disponível.
Editado por: Mercedes Sayagues

