Contexto e consequências dos ataques a Paris

Torre Eiffel é iluminada com cores da bandeira francesa. Foto: Sophie Robichon/ Mairie de Paris

Torre Eiffel é iluminada com cores da bandeira francesa. Foto: Sophie Robichon/ Mairie de Paris

Por Joaquín Roy*

Miami, Estados Unidos, novembro/2015 – Várias perguntas surgem como mais urgentes diante da tragédia de Paris. Algumas já foram respondidas e outras ficarão para a especulação: “quem cometeu? por quê? para quê? como foi possível o múltiplo crime? quais serão as consequências? como é possível evitar repetições? serve para alguma coisa a experiência de outros países que antes foram vítimas, como Grã-Bretanha e Espanha? como a sociedade francesa e a europeia podem se proteger? qual pode ser a reação da ordem política francesa e europeia? como podem colaborar outras potências, como os Estados Unidos? se isso é uma guerra, a Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) deve intervir? qual pode ou deve ser a atuação de atores até agora mudos, distantes ou cúmplices diante de incidentes anteriores?

Em primeiro lugar, os sinais iniciais já demonstravam que os ataques terroristas têm a marca dos setores radicais de origem islâmica. Suas motivações vão além do puro assassinato: as ações, como toda estratégia terrorista, têm como finalidade de médio prazo implantar o pânico, obrigando as forças de segurança a oscilarem desde a prudência até a hiper-reação.

E mais além, a ideologia diabólica, que em numerosos casos se refugia na autoimolação, tem por objetivo último incitar os governos democráticos a agirem além dos limites de suas próprias leis.

Ou seja, o roteiro inclui a reconversão da democracia em autoritarismo e agente da repressão. Diante da incerteza e da segurança, lamentavelmente, os cidadãos de uma democracia podem reclamar a proteção indiscriminada, tanto na Europa como em outras regiões.

Em segundo lugar, o mais preocupante é que podem se tornar inúteis as defesas de um Estado como o francês, com o fechamento de suas fronteiras além da limitação do espaço de Schengen.

Os agentes do terrorismo podem ter chegado de diferentes procedências, não somente do exterior, mas tristemente estavam plenamente instalados na própria sociedade francesa. Esse detalhe explica a relativa facilidade com que os que cometeram os atentados cumpriram seus planos.

Não tiveram necessidade de traçar planos ou se basear em dados de GPS para aplicá-los a uma operação a partir do exterior. Simplesmente podem ter ensaiado no terreno o que foi uma rotina em seus passeios, como ir a um estádio, a uma discoteca ou passear por um bulevar conhecido.

Nesse contexto, o primeiro-ministro britânico, David Cameron, acredita mesmo que a Grã-Bretanha estará mais segura fora da União Europeia, com as fronteiras seladas e exigindo passaportes para viajar pelo Eurotúnel? A Espanha esteve mais segura depois de superar o trauma de Atocha, uma vez que o governo de José María Aznar deixou de insistir na mentira de que os atentados foram obra da ETA?

Diante dessa estratégia, pouco pode fazer a sociedade francesa, ou a europeia em geral. Mas, pelo menos, agora é que deve se comprovar a grandeza de uma democracia que custou muitos esforços para se firmar, tanto em cada um dos países como no conjunto da União Europeia (UE).

Deve-se enfrentar os cantos de sereias infernais que pretendem impor uma reação racista. Há grupos e partidos na França e em outros países europeus que estão esperando uma oportunidade de ouro para ocupar o lugar protagonista, que em circunstâncias normais não lhes pertence. Marine Le Pen não é uma exceção, tristemente.

Nesse contexto, os países vizinhos do cenário europeu (como Espanha, Itália, Alemanha e também Grã-Bretanha) devem estar convencidos de que, com ou sem Schengen, o terrorismo, como os furacões e a contaminação atmosférica, não se detém com meras medidas policiais.

Agora, mais do que nunca, em Madri, Berlim e Londres deve-se dizer em voz alta que somos parisienses, como em seu momento o jornal francês Le Monde: “Somos todos americanos”.

Finalmente, é preciso explicitar de forma clara e pertinente um código preciso de conduta. Estará dirigido às potências e aos oportunistas que permanecem silenciosos, cobertos por suas monarquias corruptas medievais, suas variantes de totalitarismo de velha índole, ou exercendo vergonhosa oposição ao “imperialismo” ocidental. Na verdade, será preciso espetar-lhes: estão com a civilização ou com a barbárie?

E, se for o caso, para que alguns reticentes atinjam a razão, deve-se enviar dois ou três porta-aviões Charles De Gaulle (possível causa dos atentados, por ter se deixado ver perto das praias da Síria). Como se deve encarar o grave problema da subsistência de regimes falidos, pseudo-Estados que não servem para nada mais do que a repressão interna?

E se, já há anos-luz da intervenção norte-americana na Primeira Guerra Mundial, origem do Dia dos Veteranos (Armistício), comemorado no dia anterior ao dos atentados (outra desculpa dos terroristas), o presidente Barack Obama tiver que se desdizer em sua promessa de não implicar “botas no terreno”, pode não ter outra saída. Envolverde/IPS

* Joaquín Roy é catedrático Jean Monnet e diretor do Centro da União Europeia da Universidade de Miami. jroy@Miami.edu 

Joaquín Roy

Joaquin Roy is "Jean Monnet" professor and Director of the European Union Centre of the University of Miami.

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