Questão de honra para um imigrante

Migrantes em Lampedusa, na Itália. Esta ilha é o primeiro território europeu ao qual chegam as embarcações em sua travessia desde a África. Foto: IlariaVechi/IPS

Migrantes em Lampedusa, na Itália. Esta ilha é o primeiro território europeu ao qual chegam as embarcações em sua travessia desde a África. Foto: IlariaVechi/IPS

Por Francesco Farnè, da IPS – 

Roma, Itália, 1/3/2016 – Quando James chegou à Itália, era um estudante de 25 anos. Abandonara a instabilidade econômica e política de seu país natal, a Nigéria, com a esperança de construir uma vida melhor em outro lugar, deixando para trás seus pais, sete irmãos e três irmãs, familiares e amigos.

“Em 2005, deixei minha cidade natal no leste da Nigéria e cheguei a Atenas, na Grécia, junto com meus colegas, integrantes de uma equipe de futebol. Decidir redobrar a aposta e me mudei para a Itália em busca do que considerava serem melhores oportunidades para iniciar uma vida nova e conseguir trabalho digno. Infelizmente, isso pode ter sido apenas uma ilusão”, lamentou James.

Agora, aos 35 anos, seu sacrifício testemunha as difíceis decisões que toma a maioria dos migrantes e refugiados quando deixam seus países. Essas circunstâncias se tornam mais drásticas quando sofrem as limitadas perspectivas e um profundo sentimento de rejeição, alémda não aceitação que costumam encontrar ao chegar ao país de acolhida.

O jovem nigeriano sobreviveu a princípio vendendo meias na rua. Durante seis anos também ajudou clientes a carregarem compras de supermercado até seus carros, algo frequente na Itália. Com as gorjetas que recebia, se alojou em um diminuto apartamento nos subúrbios do norte de Roma. Teve que se mudar quatro vezes, sempre compartilhando o espaço com um mínimo de sete imigrantes ou refugiados.

“O segundo lugar para onde me mudei tinha três quartos, dois banheiros e uma sala, que pode parecer acolhedor e muito cômodo, não é? Mas éramos 15 vivendo ali e minha cama era um sofá”, contou James. “Não quero me queixar. A comunidade nigeriana aqui é muito solidária. Além disso, as pessoas de outros países africanos que conheci e com as quais dividi moradia durante estes anos foram verdadeiros amigos. Pelo menos nunca me senti sozinho”, afirmou.

Durante sua estada na Itália, James também recebeu ajuda financeira de seu irmão, que vive em outro país africano que não quis revelar. “Sei que pode soar estranho. Os migrantes enviam dinheiro para casa para ajudar suas famílias, mas no meu caso foi o contrário. Não estou orgulhoso disso”, reconheceu. Embora acredite que algum dia poderá devolver a ajuda ao irmão, James apontou que muitos outros passam por difíceis circunstâncias semelhantes.

Em 2013, oito anos após sua chegada, James encontrou trabalho em uma loja de alimentos. Embora agradeça à melhoria na renda, diz que o caráter informal do emprego e o salário de 35 euros por jornada de dez horas são motivo de preocupação, porque não são cumpridas as normas trabalhistas com relação ao salário mínimo, horário de trabalho e proteção social.“Estou muito consciente de que essa é uma violação dos direitos dos trabalhadores, mas sou obrigado a aceitar essas condições”, ressaltou.

Após conseguir permissão de residência, James agora espera se inscrever em uma agência de empregos públicos. Porém, está um tanto desiludido. Muitos amigos não tiveram sorte na busca por trabalho por esse método. Mas, sejam quais forem as dificuldades, acrescentou que não pode se dar por vencido.Quando pergunto por que ficou na Itália todos esses anos apesar das dificuldades que teve de suportar, longe de sua família e dos amigos, James afirma que sua decisão de permanecer é complexa.

“A verdade é que não quero que as pessoas da minha comunidade natal, nem minha família e os amigos, me considerem um fracasso. Agora que tenho permissão de residência, sinto que tenho a oportunidade de conseguir um trabalho digno e voltar para casa com algo nas mãos”, concluiu James. O motivo para permanecer na Itália está ligado à instabilidade sociopolítica e à violação dos direitos humanos na Nigéria. A Anistia Internacional denunciou a situação desse país em seu informe A Situação dos Direitos Humanos no Mundo.

“As duas partes no conflito, o exército nigeriano e o grupo armado BokoHaram cometeram crimes de direito internacional e graves violações de direitos humanos e abusos. A tortura e outros maus tratos nas mãos da polícia e das forças de segurança eram práticas corriqueiras. A liberdade de expressão foi objeto de restrições. Seguiu-se aplicando a pena de morte”, segundo o informe correspondente ao período 2014-2015.

Estimativas do Instituto Italiano de Estatística indicam que a chegada de nigerianos à Itália aumentou dramaticamente nos últimos dois anos, com 11 mil pessoas em 2014, ou 13% mais do que no ano anterior. Do total, 63,5% eram solicitantes de asilo e refugiados.A União Europeia e também a comunidade internacional devem fazer mais para assegurar a paz e a segurança internacionais, administrar a migração internacional e abordar as causas fundamentais do êxodo em massa de pessoas das regiões açoitadas pela guerra.

Os países de acolhida enfrentam numerosos problemas e os governos responsáveis devem prestar contas e abordar as questões centrais referentes à migração na Europa, como os horrores do tráfico de pessoas.Os governos nacionais devem fazer mais para informar os migrantes sobre o que os aguarda ao chegarem à Europa, além de abordar com eficácia a atual crise humanitária das centenas de milhares de refugiados que chegam às suas fronteiras.

Além disso, os meios de comunicação e os governos nacionais devem acabar com as táticas de medo, o alarmismo e os discursos xenófobos, e em seu lugar começar a promover campanhas que se concentrem na integração e na empatia.Os governos devem formular e aprovar leis que garantam que todos os que se assentarem em seus países de acolhida estejam amparados por leis relativas ao emprego, à igualdade de remuneração, ao acesso à educação e à saúde. Não é um luxo para os migrantes, mas uma reclamação legítima. Envolverde/IPS

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