Feminismo tem cada vez mais apoio na ONU

Emma Watson, embaixadora de Boa Vontade da ONU Mulheres, e o secretário-geral da Organização das Nações Unidas, Ban Ki-moon. Foto:Mark Garten/ONU

Emma Watson, embaixadora de Boa Vontade da ONU Mulheres, e o secretário-geral da Organização das Nações Unidas, Ban Ki-moon. Foto:Mark Garten/ONU

Por Lyndal Rowlands, da IPS – 

Nações Unidas, 22/7/2016 – Conseguir a igualdade de gênero é uma das maiores prioridades da Organização das Nações Unidas (ONU), mas a palavra feminismo há pouco se colou nos discursos oficiais em sua sede em Nova York. A croata Vesna Pusic uma das 12 candidatas para encabeçar a secretaria-geral da ONU, explicou em um debate na televisão, no dia 12 deste mês, porque sua orientação feminista a torna apta para o cargo.

“Sou uma mulher, mas não creio que seja suficiente; sou feminista e creio que é importante”, disse Pusic, sendo em seguida aplaudida pelos diplomatas e pessoal da ONU que a ouviam em uma sala da Assembleia Geral. Pusic se somou ao grupo de conhecidas feministas da ONU, entre elas a atriz britânica Emma Watson, cujo discurso,em setembro de 2014, sobre sua própria posição feminista atraiu a atenção mundial.

Há pouco, o primeiro-ministro do Canadá, Justin Trudeau, disse à diretora-geral da ONU Mulheres, Phumzile Mlambo-Ngcuka, em uma reunião em março deste ano, que não deveria haver uma reação tão forte cada vez que é usada a palavra feminista. “Para mim é óbvio. Temos que defender os direitos das mulheres e tentar criar sociedades mais igualitárias”, afirmou.

Mas o mais significativo talvez seja a designação da Suécia parao Conselho de Segurança da ONU, com uma plataforma feminista em matéria de política externa. A Suécia integrará o Conselho de 15 membros por dois anos a partir de janeiro de 2017, mês em que também assumirá o novo secretário-geral, o nono na história das Nações Unidas.

Muitos esperam que seja uma mulher a dirigir a ONU, já que são metade dos 12 candidatos em disputa.Até o número de candidatas significa mudança dentro da ONU, observou à IPS Natalie Samarasinghe, diretora executiva da Associação das Nações Unidas-Reino Unido. “Não só nunca uma mulher encabeçou a ONU, como apenas três dos candidatos formais em eleições anteriores eram mulheres”, acrescentou.

“Pode haver muitos elementos que se combinem para criar um contexto favorável para o progresso”, disse à IPS Jessica Neuwirth, uma das fundadoras e presidente honorária da Igualdade Já, organização que utiliza a lei para proteger mulheres e meninas. A pressão para eleger uma mulher à frente da secretaria-geral faz com que os candidatos, homens ou mulheres, se esforcem por demonstrar seu compromisso com a igualdade de gênero.

A pessoa eleita continuará o trabalho já iniciado por Ban Ki-moon, indicou Neuwirth, diretora da organização Donor Direct Action, dedicada a reunir fundos para organizações de mulheres. Ele demonstrou seu compromisso com a igualdade de gênero na ONU, embora não se refira a si mesmo como feminista, explicou.“Não sou uma pessoa que viva ou morra pelas palavras. Creio que o que se faz é muito mais importante do que uma qualificação”,disse.

“Não creio ter ouvido Ban usar a palavra feminista, definitivamente não para descrever a si mesmo”, afirmouNewirth.Por outro lado, “como alguém que tem o privilégio de trabalhar nas Nações Unidas durante seu mandato, vi pessoalmente os esforços que fez para aumentar a representação feminina nos altos cargos da ONU”, pontuou. “Ainda não é igualitário e inclusive houve um retrocesso, o que é decepcionante, mas demonstrou que uma pessoa é capaz de fazer a diferença”, disse.

Samarasinghe também apontou que, apesar de a palavra feminista não ser usada de forma explícita na ONU, seu significado se reflete em muitos objetivos destinados a conseguir a igualdade de gênero. “O feminismo trata mulheres e homens com igualdade de oportunidades e direitos, meta reafirmada inúmeras vezes em vários documentos da ONU, desde a Declaração Universal dos Direitos Humanos”, destacou.

Samarasinghe também recordou que essa palavra continua sendo controversa. Entre os 193 Estados membros da ONU, há muitos países muito atrasados em relação a casos atípicos na matéria, como Suécia e Canadá. “Ser feminista é totalmente óbvio. É como ter que explicar às pessoas que você não é racista. Mas a palavra continua controvertida, por isso temos que continuar usando até que as pessoas a entendam”, ressaltou.

Emma Watson, embaixadora de Boa Vontade da ONU Mulheres, observou, em seu discurso na ONU, em setembro de 2014, que a palavra feminista não é tão simples de ser usada como deveria ser.“Decidi que era feminista e não me pareceu complicado. Mas minhas pesquisas me mostraram que feminismo se tornou uma palavra pouco popular, e as mulheres preferem não se identificar como feministas”, afirmou.

“Aparentemente, faço parte das mulheres cujas expressões parecem muito fortes, muito agressivas, que isolam e vão contra os homens. Inclusive, não são atraentes”, acrescentou a atriz. De fato, no final de 2015 alguns meios de comunicação divulgaram que Watson havia sido aconselhada a não empregar o termo feminismo em seu discurso.

Neuwirth estava presente quando a embaixadora fez seu discurso durante o lançamento da campanha HeforSher, e disse à IPS que os termos que decidiu empregar acabaram tendo grande impacto. “Foi um acontecimento incrível, me refiro ao nível de emoção que houve no salão, foi tão forte que fiquei impactada. Houve tantos diplomatas que foi muito bom e foi um discurso muito forte que os mobilizou, podia-se ver isso”, enfatizou.

Mas, desde então, os avanços em matéria de igualdade de gênero na ONU não são fáceis. A organização de mídia PassBlue, que monitora a situação no fórum mundial, disse que o número de mulheres em cargos de decisão na ONU diminui. Quando a Suécia ocupar seu lugar no Conselho de Segurança, terá que fazer grande esforço para melhorar a representação feminina nos cargos de decisão da ONU, bem como elaborar políticas que promovam a igualdade de gênero em maior escala.

De fato, se prevê que os 15 representes no Conselho em 2017 serão homens, a menos que os Estados Unidos indiquem uma mulher para substituir Samantha Power, que deverá deixar o cargo no final do ano.A Suécia procurará aproveitar seu lugar no Conselho para aumentar a participação das mulheres na negociação e mediação dos acordos de paz, declarou a chanceler sueca, Margot Wallstrom em entrevista coletiva no mês passado.

Neuwirth aplaudiu o compromisso de Wallstrom, e apontou que, no caso da Síria, por exemplo, as mulheres seguem fora das negociações de paz.As mulheres sírias “tratam de desempenhar um papel significativo nas negociações, que são um desastre total, mas se custa tanto para ocuparem um lugar que seja no corredor, o que falar de se sentar à mesa”, observou. “Por que pelo menos não dão a essas mulheres a oportunidade de ver se podem fazer algo melhor, porque é difícil fazer algo pior”, ressaltou. Envolverde/IPS

Lyndal Rowlands

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