Alarme e esperança na cúpula sobre natureza

Albatrozes de Laysan no refúgio nacional de fauna silvestre no Monumento Nacional Marinho de Papahanaumokuakea, no Havaí. Mais de um milhão de aves cobrem cada metro quadrado de espaço aberto, durante a época de reprodução e de cuidar do ninho. Foto: Andy Collins/Escritório de Santuários Marinhos Nacionais (NOAA)

Albatrozes de Laysan no refúgio nacional de fauna silvestre no Monumento Nacional Marinho de Papahanaumokuakea, no Havaí. Mais de um milhão de aves cobrem cada metro quadrado de espaço aberto, durante a época de reprodução e de cuidar do ninho. Foto: Andy Collins/Escritório de Santuários Marinhos Nacionais (NOAA)

Por Guy Dinmore, da IPS – 

Honolulu, Estados Unidos, 5/9/2016 – O maior congresso mundial dedicado à conservação da natureza começou com vozes de alarme e insistindo que o planeta se encontra em um “ponto de inflexão”, mas também não faltaram em sua abertura expressões de esperança diante da possibilidade de representantes de governos, sociedade civil e grandes empresários aprenderem a trabalhar juntos.

O Congresso Mundial da Natureza, de dez dias, organizado pela União Internacional para Conservação da Natureza (UICN) no Estado norte-americano do Havaí, reúne 9.500 participantes de 192 países e comunidades, informou a diretora-geral da organização, Inger Andersen.“O mundo deve passar de medidas generosas para uma conservação estratégica. As ambições para essa conferência são muito altas. É a maior reunião ambiental”, destacou, após a cerimônia de abertura, no dia 1º. O encerramento será no dia 10.

A UICN, com sede na Suíça, fundada em 1948 pelo biólogo britânico Julian Huxley, reúne seus membros – entre os quais há governos, organizações não governamentais, cientistas e empresas – em um congresso realizado a cada quatro anos, quando as moções e resoluções são submetidas ao voto de todos. As conclusões da UICN não têm o peso de uma lei internacional, mas acabam sendo a base de várias normas em diferentes países e organismos internacionais.

Sob o lema Planeta na Encruzilhada, os oradores da abertura do encontro, em um cenário esportivo de Honolulu, recordaram que o principal objetivo é definir propostas e medidas concretas para implantar dois históricos acordos internacionais assinados em 2015, os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) e o Acordo de Paris sobre mudança climática.

O presidente da UICN, o chinês Zhang Xinsheng, fixou o tom da colaboração ao elogiar o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, por ampliar o maior santuário natural do mundo, que agora tem mais de meio milhão de milhas quadradas, nas águas e ilhas do norte do arquipélago do Havaí. “O presidente Obama marcou um nível alto”, apontou o dirigente, ex-funcionário da Organização das Nações Unidas (ONU).

Sua declaração se seguiu ao discurso de Obama, na reunião da Conferência de Líderes das Ilhas do Pacífico, em Honolulu, no dia 31 de agosto, o que gerou expectativas de que Estados Unidos e China anunciem logo que se integram formalmente ao Acordo de Paris.A China inaugurou, no dia 31, uma reunião no contexto da cúpula do Grupo dos 20 (G-20) países industrializados e emergentes, que começou no dia 4.

Aproveitando que a sede do congresso é no Havaí, conhecido por sua grande biodiversidade, mas também como a “capital da extinção”, pelo grande número de espécies desaparecidas ou em vias de desaparecimento, também foi enfatizada, por meio de canções e danças tradicionais, a importância de antigas práticas e do conhecimento indígena.

O presidente de Palau, Tommy Remengesau, recebeu uma grande ovação por suas políticas ambientais pioneiras, por meio das quais demonstrou que as pequenas nações insulares são capazes de fazer uma diferença. O mandatário também elogiou Obama, que, no dia 1º, se reuniu com cientistas nas ilhas Midway, por ocasião da ampliação do Monumento Nacional Marinho de Papahanaumokuakea, o maior santuário mundial, com 582 mil milhas quadradas de terra e mar em torno das ilhas de Sotavento.

Há dez anos, o ex-presidente norte-americano George W. Bush (2001-2009) criou a reserva, e Obama quadruplicou sua extensão na última semana de agosto, apesar de a marinha dos Estados Unidos poder continuar realizando exercícios em suas águas. “Isso assenta seu legado como líder do oceano”, destacou Remengesau, antes de convidar Washington a seguir o exemplo de Palau, no Pacífico ocidental, e converter 80% de sua zona econômica marítima exclusiva em águas protegidas.

Os observar que, apesar da vasta extensão de Papahanaumokuakea, apenas 2% das águas do mundo são declaradas santuários marinhos, Remengesau informou que Palau impulsiona uma moção no congresso da UICN paraelevar a proporção para 30%.Por sua vez, Erik Solheim, diretor executivo do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma), recordou que a humanidade destrói seu único lar, mas destacou também os avanços alcançados. O Brasil reduziu drasticamente o grau de desmatamento, enquanto a Costa Rica duplicou sua cobertura vegetal, por exemplo.

Solheimtambém elogiou a companhia francesa Total, por abandonar sua intenção de procurar petróleo no Oceano Ártico, bem como as transnacionais Kelloggs, Unilever e Nestlé, por “guiarem os dirigentes políticos” em políticas ambientais, eacrescentou que a China avança rapidamente para investimentos “verdes”, enquanto na Alemanha, em alguns dias, toda a energia produzida procede de fontes renováveis. Quanto à ampliação da reserva decretada por Obama, observou que “muitos sentirão quando o presidente deixar o cargo”.

A secretária do Interior dos Estados Unidos, Sally Jewell, disse que o exemplo de Papahanaumokuakea pode ser replicado por meio de iniciativas similares em territórios indígenas da parte continental desse país. “O mundo deve passar de medidas generosas para atingir uma conservação estratégica”, acrescentou, antes de mencionar que há pesquisas mostrando que, a cada dois minutos, desaparece “um campo de futebol” de áreas naturais nos Estados Unidos.

Além disso, Jewell e outros oradores destacaram a necessidade de oCongresso propor medidas adicionais para atender o que a secretária chamou de “flagelo” do tráfico de fauna silvestre. “Os Estados Unidos fazem parte do problema e devem ser parte da solução”, ressaltou.

O senador havaiano Brian Schatz pediu aos cientistas que trabalham nas comissões especiais da UICN que ajudem a deter a devastação causada por um fungo misterioso na cobertura arbórea da variedade ‘õhi’alehua (Metrosiderospolymorpha). Pouco mais de 12.700 hectares foram afetados, o que fez com que fosse dado à enfermidade o nome de “rápida morte da ‘õhi’a”. Especialistas do Havaí estão “diante da luta de suas vidas profissionais, mas cada comunidade trava suas próprias batalhas”, acrescentou.

Segundo a UICN, espera-se que o único parlamento ambiental global de governos e ONGs adote cerca de cem moções, que depois se tornarão recomendações e resoluções da entidade, e convidarão terceiros a tomarem medidas”.As moções na agenda incluem promover a conservação da diversidade biológica em áreas fora de toda jurisdição nacional, mitigar os impactos da expansão da palma na biodiversidade, acabar com o uso do chumbo nas munições, proteger as florestas primárias e antigas, bem como as áreas de grande biodiversidade, das daninhas atividades industriais e do desenvolvimento de infraestrutura em grande escala.

No Congresso, está prevista uma atualização da Lista Vermelha de Espécies Ameaçadas da UICN, considerada a maior fonte de informação sobre a situação da conservação da flora e da fauna mundiais. Além disso, está marcada para hoje a divulgação do informe Alerta dos Oceanos. Envolverde/IPS

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