O futuro das mulheres rurais argentinas

Olga Campos (esquerda), seu neto Jhonny e Limbania Limache, no terreno de três hectares que arrendam e onde cultivam hortaliças orgânicas em El Pato, no sul da Grande Buenos Aires, a 44 quilômetros da capital Argentina. Chova, faça frio ou calor, elas trabalham em sua horta diariamente. Foto: Guido Ignacio Fontán/IPS

Olga Campos (esquerda), seu neto Jhonny e Limbania Limache, no terreno de três hectares que arrendam e onde cultivam hortaliças orgânicas em El Pato, no sul da Grande Buenos Aires, a 44 quilômetros da capital Argentina. Chova, faça frio ou calor, elas trabalham em sua horta diariamente. Foto: Guido Ignacio Fontán/IPS

Por Fabiana Frayssinet, da IPS

El Pato, Argentina, 13/10/2016 – Seus sete filhos cresceram, mas agora cuida de um neto pequeno que a segue enquanto trabalha em sua horta orgânica em El Pato, ao sul da Grande Buenos Aires. Olga Campos quer para eles o que ela não conseguiu: educar-se para ter outro destino. “Tenho 40 anos e só recentemente comecei a ir ao colégio, coisa que nunca imaginei que faria. Como não pude ir à escola, para mim o mais importante como mãe era que meus filhos fossem”, explicou à IPS, nessa localidade de aproximadamente sete mil habitantes do município de Berazategui, a 44 quilômetros da capital argentina.

Seu neto Jhonny, de três anos, um dos cinco que tem, brinca de colher cebolinha (Allium schoenoprasum), mas para sua avó essa tarefa nunca foi uma diversão. “Acordava, levava os filhos para a escola, ia trabalhar um tempo no campo. Às 11 horas ia buscá-los. Fazia a comida e almoçava, e às 13 horas voltava a trabalhar. Agora meus filhos me ajudam, mas antes estava sozinha, porque meu companheiro foi embora. Foi muito difícil seguir adiante com as crianças, mas, graças à horta e ao trabalho de limpeza em domicílio, consegui”, contou Campos.

“É cansativo porque, no verão, apesar do calor, temos que trabalhar do mesmo jeito. Chove e temos que trabalhar do mesmo jeito, faz frio e temos que trabalhar do mesmo jeito”, afirmou Campos, que cultiva três hectares arrendados, junto com sua cunhada Limbania Limache.“Na cidade há mais facilidade de transporte. Mas aqui, quando chove, é preciso caminhar ou ir de bicicleta, recordou, de 30 anos, que tem dois filhos, um deles com necessidades especiais. “É complicado, porque as ruas ficam intransitáveis quando chove. As crianças às vezes não querem ir à escola porque chegam sujas de barro e ficam envergonhadas”, acrescentou.

Segundo a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), as mulheres rurais – cujo dia internacional será celebrado no dia 15 – representam um quarto da população mundial, produzem mais da metade dos alimentos e vivem maior desigualdade econômica, social e de gênero. Assim ocorre na Argentina e no resto da América Latina e do Caribe.

“As mulheres rurais não têm o mesmo acesso que os homens a posse de terras, créditos, capacitações. Muitas vezes as políticas públicas são pensadas por e para homens rurais, e a mulher fica em segundo plano”, afirmou à IPS a responsável de gênero da FAO na Argentina, Cecilia Jobe.

“Aqui o que nos mata são os aluguéis de terras. Além de termos de pagar para arar, nos cobram muito caro pelo uso do trator. Gostaria muito de conseguir minha própria terra. Pedimos que nos deem a possibilidade de pagar por nossa própria terra, não a queremos de presente”, afirmou Campos. Os créditos também são difíceis. “Ficam dando voltas e acabamos nos cansando”, acrescentou Limache, cujo marido também se dedica à agricultura em outro terreno.

Segundo o censo de 2010 realizado na Argentina, dos 40.117.096 habitantes na ocasião, 20.593.330 eram mulheres, das quais 651.597 estavam em áreas rurais agrupadas e 1.070.510 em áreas rurais dispersas, somando 1.722.107.“Muitas delas elaboram a maior parte dos alimentos domésticos, fato que garante uma dieta variada, minimiza as perdas e oferece produtos comercializáveis. Também dedicam sua renda à compra de alimentos e às necessidades de seus filhos”, destacou Patricio Quinos, subsecretário de Execução de Programas para a Agricultura Familiar.

Quinos, cujo departamento abrirá um escritório de gênero para atender as especificidades desse setor feminino, informou à IPS que “alguns estudos realizados pela FAO demonstram que as possibilidades de sobrevivência de uma criança aumentam em 20% quando a mãe controla o orçamento doméstico.Por isso, a mulher tem um papel determinante na segurança e diversidade alimentar, bem como na preservação da saúde infantil”.

Justamente, a campanha da FAO Mulheres Rurais, Motores do Desenvolvimento, promovidana Argentina, busca comprometer os diferentes poderes do Estado a elaborarem políticas públicas e legislação para esse setor, nas quais a questão de gênero esteja presente.“A mulher rural está absolutamente invisível. As dificuldades que têm as mulheres urbanas se exacerbam no mundo rural. Falamos de um trabalho produtivo em que a atividade não é remunerada”, resumiu Jobe.

O conceito de “mulheres rurais” compreende as que vivem no campo e as que moram em centros urbanos mas se dedicam à produção agropecuária. “Não é um coletivo homogêneo”, apontou Quinos. “Entretanto, entendemos que as mulheres rurais menos favorecidas em termos econômicos são as que mais dificuldades têm em relação às brechas produzidas pela desigualdade de gênero. Em muitos sentidos, ficam invisíveis como sujeitos produtivos, econômicos e sociais”,prosseguiu.

Graciela Rincón emigrou de Berazategui com seu marido para instalar em El Pato uma pequena granja produtora de ovos. Ela destacou à IPS que trabalha de “segunda a segunda, porque, a cada duas horas,é preciso acender uma lâmpada para que as galinhas tomem água, ver se não tem algum cabo desconectado ou que não entrem cães e façam um desastre, como já aconteceu com a gente”.

O acesso a saúde também é difícil. “Há um hospital em Berazategui, que fica bem longe, ou uma salinha mais perto, de primeiros socorros, mas às vezes uma senhora pode ser atendida por um pediatra”, lamentou Rincón. “Gostaria que meus filhos estudassem e trabalhassem em outro ramo porque o campo é duro”, desabafou Limache.

Segundo a FAO, se forem garantidos esses direitos, haveria entre 20% e 30% mais alimentos, o que significaria 150 milhões de pessoas com fome a menos no planeta. Consciente desse papel, a engenheira agrônoma María Lara Tapia, ajuda suas vizinhas de El Pato no cultivo de hortaliças orgânicas, com demanda urbana crescente, e a distribuí-las comercialmente.

“Mostro a elas que há saídas diferentes. O que às vezes acontece na agricultura familiar é que os produtores não saem do campo para ver outras alternativas, então ficam sujeitos à chegada de um caminhão do mercado, que lhes impõe um preço por sua mercadoria”, pontuou Tapia à IPS. Para aumentar sua renda, a engenheira ensina, por exemplo, como fazer mudas, agregando um “elo a mais na cadeia de valor”.

“Ser mulher no meio rural é difícil. Creio que é um setor muito conservador”, disse Tapia, para quem tampouco foi fácil, como engenheira, assessorar produtores homens. Para as camponesas a situação é pior, reconhece. “Não se considera que estão trabalhando, mas ajudando. O marido, o pai ou o irmão lhes dizem: venha ajudar no campo, quando, na realidade, estão trabalhado ao lado deles”, enfatizou.

Ajudar o homem no campo? “Nós somos parte do trabalho como eles. Fazemos o mesmo, e além disso temos as tarefas de casa. Somos parte”, ressaltou Limache. Envolverde/IPS

*Este artigo foi produzido por ocasião do Dia Internacional das Mulheres Rurais, celebrado em 15 de outubro.

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