KIKWIT, República Democrática do Congo, 2 de janeiro de 2019 (IPS) – Faz quase quatro anos que membros da Estrutura de Agricultores de Idiofa (Farmer’s Frame of Idiofa – FFI), um grupo de agricultores na República Democrática do Congo (RDC), produziu, em 2015, apenas oito toneladas de batata doce em dois hectares de terra. Todavia, a razão principal para o baixo rendimento não é necessariamente climática, mas sim educacional.
“Graças ao conhecimento sobre técnicas de agricultura ensinadas pela FFI, eles produziram mais que 30 toneladas de batata doce em 2017 em um campo de dois hectares”, informou Albert Kukotisa, presidente da FFI de Kikwit, na província de Kwilu, no sudoeste da RDC.
O grupo de agricultores da FFI é formado por algumas pessoas ao longo do país, que estão aprendendo essas novas técnicas de agricultura graças à Escola de Campo de Agricultores (Farmer Field School – FFS), uma iniciativa proposta pela Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (Food and Agriculture Organisation – FAO).
As escolas de campo não são necessariamente um conceito novo. De acordo com uma pesquisa, foram primeiramente introduzidas em 1989 na Indonésia, onde escolas foram desenvolvidas para que os agricultores lidassem com os problemas causados por pesticidas. E, enquanto também não são novas na RDC, essas escolas estão provando ser um modo efetivo para educar e ajudar agricultores.
Lazard Milambo, especialista da FAO, disse que o novo elemento da FFS é que os agricultores são introduzidos a “novas ideias com exercícios guiados sem imposição e estimulados a discussões entre os agricultores”. E acrescentou que o envolvimento dos agricultores nesse processo de treinamento também é novo.
Todavia, com a FFS, os agricultores não são apenas informados sobre novas técnicas e pesquisas, mas também são capazes de implementá-las. Toda semana, um grupo de 20 a 25 agricultores encontra-se em um campo local sob a orientação de um facilitador treinado para implementar essas novas técnicas agrárias. Facilitadores têm várias origens e entre eles incluem-se oficiais de extensão, funcionários de ONGs ou agricultores previamente treinados.
“Em grupos de cinco, eles observam e comparam duas parcelas ao longo da temporada inteira de plantio. Uma parcela segue métodos convencionais locais, enquanto a outra é utilizada para experimentar o que poderia ser considerado como melhores práticas. A parcela pertence a um dos membros do grupo, explica Patience Kutanga, especialista e engenheira agrícola e uma das facilitadoras treinadas.
Didier Kulenfuka, especialista agrícola, apontou que “pequenos agricultores experimentam e observam elementos importantes para o sistema agrário por meio da medição do desenvolvimento das plantas, pegando amostras de insetos, ervas daninhas e plantas doentes, e construindo experimentos simples ou comparando características em terras diferentes. Na reunião semanal, eles apresentam seus resultados em uma sessão plenária, seguida de uma discussão e planejamento para as semanas seguintes”.
De acordo com um relatório do Banco Mundial, “agricultores da RDC são particularmente pobres e isolados, por isso sua vulnerabilidade aos impactos do clima e outros choques externos…”. Nesse país com 80 milhões de hectares de terra arável, “que tem mais de 50 milhões de agricultores com terra, a maioria é de pequenos agricultores”, detalhou Milambo.
De acordo com o mesmo relatório do Banco Mundial, o governo, contudo, comprometeu-se com uma revolução verde, prometendo reduzir a pobreza rural até 2020 por meio do sistema de produção agrícola. O governo destinou 8% das suas despesas de 2016 para a agricultura.
Entretanto, Kikwit, capital e maior cidade da província Kwilu, e a casa para mais ou menos 186 mil pessoas, tem apenas uma universidade com uma faculdade agrícola. Agricultores e pequenos agricultores dependem da assessoria e do conhecimento dos oficiais de extensão agrícola. E agora, como Milambo destacou, mais ou menos dois milhões de pequenos agricultores estão trabalhando ao longo do país com aproximadamente 20 mil FFS.
Françoise Kangala, um agricultor de 47 anos da província de Congo Central (antes conhecido como Bas-Congo), explicou que ele aprendeu muito durante o curso, incluindo como identificar o melhor campo para plantar e como escolher as melhores sementes. O aumento do seu conhecimento está representado no aumento da sua colheita.
“Então, a minha família colheu 20 toneladas de mandioca em uma área de um hectare. Em 2014 este não foi o caso. A mesma terra produziu apenas sete toneladas. Observações sobre os resultados entre as velhas práticas e as novas são algumas das abordagens inovadoras”, enfatizou Kangala.
Para John Masamba, um pequeno agricultor de Goma, da província de North Kivu, leste da RDC, é necessário popularizar o sistema em todo o país, “porque é uma escola sem paredes”. Ele disse que apreciou aprender por meio da prática. “Juntos, agricultores trocam experiências. Com o conhecimento da FFS e usando sementes resistentes, eu produzi (em 2018) 19 toneladas de milho em um campo de um hectare, comparado com sete toneladas em 2016”, apontou.
Daqui para frente, isso aumentará a produção dos pequenos agricultores, o que vai ser crucial, pois contribuem com mais ou menos 60% para a segurança alimentar do país, de acordo com Milambo.

