Londres, 10/10/2005 – Sobre quase a metade dos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio da Organização das Nações Unidas nem mesmo se fala o suficiente, especialmente com relação aos que dizem respeito às mulheres, segundo Farkhanda Ather, destacada médica paquistanesa comprometida com a defesa da saúde materna. "O objetivo número cinco prevê a redução da mortalidade materna em três quartos desde 1990 até 2015. Mas no Paquistão não houve grandes mudanças. Restam apenas nove anos, e não estamos no caminho" de atingir a meta, disse Ather à IPS. A saúde materna é atendida nos objetivos números três (promover a igualdade de gênero), quatro (reduzir em terços a mortalidade infantil) e cinco.
Ather assistiu em Londres a uma conferência realizada sob o lema "As mulheres que o mundo esqueceu", convocada pela organização não-governamental Interact Worldwide. Em 1990, o Paquistão tinha uma mortalidade materna de 340 a 500 em cada 100 mil nascimentos, afirmou. "Em algumas áreas, como o Baluchistão, é extremamente alta, de até 700. No Afeganistão passa de mil", afirmou a médica. Outros objetivos incluem reduzir à metade o número de pessoas que sofrem fome e indigência no mundo em relação a 1990, alcançar a educação primária universal e promover a igualdade de gênero. Há também as metas são reduzir a incidência da aids, da malária e da tuberculose, entre outras doenças, garantir a sustentabilidade ambiental e criar uma sociedade global para o desenvolvimento entre Norte e Sul.
Os chefes de Estado e de governo estabeleceram essas metas em 2000 e fixaram 2015 como data limite para alcançá-las. Entre os objetivos, os referentes à saúde materna parecem estar sendo ignorados, segundo Ather. A cúpula das Nações Unidas realizada em Nova York no mês passado para avaliar os avanços foi apenas um indicador desta realidade, afirmou. "Estamos muito insatisfeitos com o que ocorreu. Apareceram outros temas na agenda. Este assunto não teve toda a atenção necessária", disse a médica. A ONU se dedicou a analisar outras questões alheias às metas do milênio, como o terrorismo. "São temas importantes, mas não deveriam ser tratados deixando-se de lado os Objetivos", ressaltou a médica.
Os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio apresentam um panorama bastante distante. "Noventa e nove por cento das mortes maternas ocorrem nos países em desenvolvimento. Os cuidados de emergência e obstétricos nos países em desenvolvimento são muito melhores", disse Ather. E houve pouco apoio para os países em desenvolvimento neste campo. "Esqueceu-se de fazer mais. Os países nem mesmo estão fazendo que ficou acertado fazer até agora. E não esqueçam que para cada morte há outras 30 mulheres que sofrem complicações, algumas delas para toda a vida", ressaltou a especialista. "A fístula (uma abertura anormal da vagina ou do ânus), por exemplo, dificulta muito a aceitação social, porque as mulheres perdem o controle da urina e das fezes. As mulheres são propensas a contrair infecções toda sua vida e se tornarem estéreis", acrescentou.
No Paquistão "há muitos abortos em condições inseguras por causa de gravidez indesejada, assim, por que não procurar evitar a gravidez não desejada?", perguntou. Apenas 34% dos casais paquistaneses usam anticoncepcionais, explicou, e esse número não está aumentando muito. "A cúpula de Nova York poderia ter se concentrado em gerar mais fundos, apoio, pressão. Por que as pessoas não sabem muito sobre estes assuntos e, dessa maneira, como serão alcançados os objetivos?", perguntou Ather. Em Bangladesh, a situação é melhor porque os abortos feitos em condições inseguras são enfrentados de maneira apropriada, afirmou.
Mas o Paquistão progrediu em outras frentes, segundo a médica. "A mortalidade infantil era de 110 para cada mil nascidos vivos, em 1990, e baixou para 79 por mil", disse Ather, para quem o êxito é possível apenas com a atenção e os recursos necessários. "Os Objetivos são ambiciosos, mas são simples e podem ser concretizados. Nos países ricos, uma em cada quatro mil mulheres morre na gravidez, enquanto nos países pobres morre uma em cada 17", afirmou Ros Davies, presidente-executivo da Interact Worldwide. "Em nome das 529 mil mulheres que morrem por ano de complicações ligadas à gravidez devemos assegurar que esta cúpula honre as promessas feitas há cinco anos. Podem ser os líderes mundiais que tomaram decisões que podem salvar as vidas dessas mulheres, mas são os cidadãos comuns, como nós, que devem fazê-los responsáveis", ressaltou. (IPS/Envolverde)

