Nova Délhi, 20/10/2005 – Enquanto aumenta a quantidade de vítimas do terremoto que sacudiu a Caxemira no último dia 8, a ajuda humanitária é refém de manobras diplomáticas e cálculos políticos por parte da Índia e do Paquistão. Em lugar de se concentrarem em ajudar mais eficazmente os sobreviventes dessa região, repartida entre os dois países, ambos governos estão desperdiçando uma preciosa oportunidade de cooperação. Se tivessem coordenado as ações de resgate nos primeiros dias posteriores à catástrofe, mais de 10 mil pessoas teriam sido salvas, segundo socorristas. Por outro lado, o inverno já chegou à essa isolada região montanhosa, e o tempo está acabando. Na cordilheira de Pir Panjal, que corre ao longo da Caxemira, já começou a nevar. Em apenas duas semanas, as áreas mais afetadas pelo terremoto ficarão inacessíveis.
A tragédia que assolou a região do Himalaia, principalmente do lado paquistanês, deixou evidentes as similitudes humanas e geográficas de um e de outro lado da fronteira. Do ponto de vista logístico, teria sido muito mais fácil para o Paquistão ter acesso às zonas afetadas através do território da Índia. A Caxemira paquistanesa e a indiana estão unidas por vales e passagens de montanha, e existe um grande número de caminhos e passagens ao longo da chamada "linha de controle", a fronteira provisória fixada em 1947 e que tem sido palco de múltiplos enfrentamentos entre os exércitos dos dois países. Tanto a Índia quanto o Paquistão reclamam a Caxemira para si e se atribuem o direito de falar em nome de seus habitantes.
O terremoto lhes deu a oportunidade de demonstrar se esse interesse era genuíno, mas nem Nova Délhi nem Islamabad souberam respeitar a lógica geográfica e sucumbiram à dinâmica de seu enfrentamento político. Ao final do dia 8 passado, a Índia propôs ao Paquistão uma operação conjunta de resgate e também ofereceu utilizar seu território para o envio de ajuda humanitária. O Paquistão se recusou, lembrando a existência de "sensibilidades" sociais as quais era obrigado a respeitar. Quando a dimensão da tragédia ficou mais patente, o Paquistão chegou a aceitar que um avião indiano com 25 toneladas de provisões aterrissasse em Islamabad. Nessa ocasião, o presidente paquistanês, general Pervez Musharraf, agradeceu o gesto, mas teve o cuidado de acrescentar que somente aceitava "certas formas" de ajuda, e não outras.
"Isso não é mais do que um eufemismo do temor irracional de que aceitar a ajuda da Índia possa ser visto como sinal de fraqueza do Paquistão", afirmou Achin Vanaik, professor de relações internacionais e política global da Universidade de Nova Délhi. "Esse ponto de vista se baseia em um falso sentido de orgulho nacional e coloca a imagem e o prestígio do Paquistão por cima da obrigação de salvar as vidas dos cidadãos", acrescentou. Entretanto, o oferecimento da Índia também não é de todo altruísta. Faz parte de uma nova ofensiva diplomática e de um esforço cuidadosamente orquestrado para transformar a imagem de país necessitado na de uma nação que fornece ajuda a outros. No geral, a Índia é dos primeiros a oferecer ajuda humanitária quando ocorre alguma catástrofe natural.
Por ocasião do tsunami do oceano Índico em dezembro passado, Nova Délhi enviou uma frota com provisões para ajudar os países vizinhos, como Sri Lanka. "De todo modo, o Paquistão deveria ter aceito a ajuda oferecida", disse Vaniak. "Todas essas contemplações a respeito do orgulho deveriam ter sido deixadas de lado para se concentrar na ajuda aos seus próprios cidadãos que estão m estado calamitoso", acrescentou. A Índia enviou três carregamentos de provisões num total de 170 toneladas, incluindo 100 toneladas de biscoitos vitaminados. O restante da ajuda foi de medicamentos, tendas de campanha e cobertores. Mas, tudo isto foi objeto de negociações do mais alto nível.
O Paquistão solicitou à Índia que permitisse que seus helicópteros voassem sobre a linha de controle, algo normalmente proibido, mesmo em tempos de paz, e a Índia aceitou. Entretanto, segundo um porta-voz do Ministério das Relações Exteriores, Nova Délhi não deu ouvidos a um pedido de helicópteros não tripulados. O Paquistão foi o mais prejudicado pelo terremoto. Mais de 40 mil pessoas morreram, há mais de 60 mil feridos e aproximadamente 3,3 milhões de pessoas estão sem teto. Na Índia, o número de mortos é de 1.300. Além disso, segundo dados oficiais, cerca de 40 mil casas estão totalmente destruídas e outras 75 mil muito danificadas. A destruição foi particularmente severa em Uri e Tangdhar na região da Caxemira indiana.
Porém, na Caxemira paquistanesa a destruição foi mais forte e extensa. Os dois países terão enormes dificuldades para levara água, alimentos, roupa e abrigos às vítimas. O desafio maior será fornecer abrigo, ainda que provisório, a milhões de pessoas que tiveram suas casas arrasadas. "Esteve chovendo a cântaros toda a manhã, e duvido que alguém tenha recebido ajuda", disse Sonia Jabbar, uma ativista social que no domingo voltava de Uri. "Tivemos de voltar às três da tarde. Está frio e os abrigos de plástico e latão que alguns povoados receberam são ridiculamente inadequados para suportar as inclemências do tempo nesta região", acrescentou.
Em Karnah, a situação é terrível, disse Jabbar. "Já está tudo nevado, e tão logo comece o inverno ficará isolado por cinco ou seis meses. O que tiver de ser feito deve ser feito já, nas próximas duas semanas e na velocidade de uma preparação de guerra", ressaltou a ativista. Segundo testemunhos, o auxílio às vítimas é insignificante se comparado com a dimensão da tragédia. Por seu lado, o governo indiano anunciou o envio de um pacote de ajuda humanitária de US$ 136 milhões ao governo estadual de Jamu e da Caxemira, mas não parece haver sinais de que a ajuda chegará às vítimas a tempo. As autoridades estaduais lavaram as mãos quanto à sua responsabilidade de fornecer abrigo aos que ficaram à intempérie, e limitam-se a entregar a primeira cota de US$ 1 mil em dinheiro como ajuda para cada família que perdeu sua casa.
O governo também tem a intenção de fornecer barracas de campanha. "Mas nossa experiência em montanhas nos ensinou que estas barracas não servem de nada neste clima", afirmou Duno Roy, do Instituto de Ciências do Povo, que trabalhou como voluntário por ocasião do terremoto em Uttarkashi, nas montanhas do Estado de Uttaranchal, em outubro de 1991. "Seria melhor construir cabanas utilizando troncos e bambus existentes no local. Em Uttarkashi ensinamos às comunidades locais a construírem elas mesmas esse tipo de abrigo, no qual as pessoas podem cozinhar e se manter aquecidas usando estufas de querosene e à lenha", explicou Roy.
"Segundo nossa experiência na Ásia Meridional, as operações de ajuda humanitária darão lugar a muitos casos de corrupção", acrescentou o ativista. "A única forma de evitá-los ou reduzi-los é as comunidades se envolverem diretamente no planejamento e execução das operação de ajuda e reconstrução", recomendou Roy. Por sua vez, Prema Gopalan, da Swayam Shikshan Prayog, uma organização de voluntários de longa trajetória em missões humanitárias, destacou que a participação das mulheres é chave. "Somente elas conhecem as necessidades das crianças e dos velhos, bem como as necessidades sobre o que se precisa para cozinhar, o que se necessita para armazenar", afirmou a entidade.
Por sua vez, os militares ganham notoriedade nas duas nações. Os exércitos controlam o acesso às regiões afetadas pelo terremoto, especialmente os locais de maior altitude, e atuam de acordo com seus próprios cálculos. Na semana passada, o exército indiano afirmou que seus soldados ajudaram tropas paquistanesas a reconstruírem abrigos danificados, mas o Paquistão negou rapidamente essa informação. Então, os indianos modificaram suas declarações afirmando que os soldados somente haviam emprestado alguns equipamentos aos paquistaneses do outro lado da fronteira.
As forças armadas indianas vêem algo positivo em tanta devastação: a destruição de bases, acampamentos de treinamento e centros de comunicação de rebeldes caxemires separatistas em território paquistanês, de onde cruzam a Caxemira indiana. Nova Délhi estima que o terremoto matou cerca de 700 combatentes de vários grupos, especialmente do Lashkar-e-Toiba e Jaish-e-Mohammed. Em meio a estes cálculos mesquinhos, é duvidoso que chegue muita ajuda à população da Caxemira, sobretudo do lado paquistanês, antes que o inverno comece a reinar e isole a região. Um futuro terrível aguarda os sobreviventes. (IPS/Envolverde)

