Oriente Médio: Plano de Genebra torna-se importante aliado da paz na região

Budapeste, 25/10/2005 – O plano Genebra, lançado nessa cidade suíça em 1º de dezembro de 2003, foi decisivo para impulsionar a retirada israelense do território palestino de Gaza, e uma ativa campanha na mídia poderia convertê-lo em um guia essencial para futuras negociações bilaterais. Este acordo alternativo foi resultado de um esforço extra-oficial patrocinado pela Suíça e realizado por políticos, acadêmicos e membros da sociedade civil dos dois lados do conflito israelense-palestino, e pretendia demonstrar que um entendimento viável não era apenas desejável, mas também realista.

Além de estipular uma completa retirada israelense de Gaza e da Cisjordânia, o Plano de Genebra estabeleceu soluções para temas espinhosos como o status de Jerusalém e a repatriação de refugiados. A capital seria divida entre dois Estados soberanos com base nas fronteiras anteriores à Guerra dos Seis Dias (junho de 1967), enquanto o regresso em massa de refugiados palestinos seria evitado em troca de compensação financeira. O primeiro-ministro israelense, Ariel Sharon, que se opôs fortemente ao plano, agora admitiu que sua decisão unilateral de se retirar de Gaza (em agosto deste ano) foi, em parte, uma resposta à crescente importância do Plano de Genebra.

"Sharon se sentiu ameaçado", disse à IPS Yossi Beilin, chefe da delegação israelense para a iniciativa de Genebra em uma reunião sobre o plano realizada em Budapeste em meados deste mês. "Ele agiu para que o mundo não o obrigasse", afirmou. Beilin disse que o Plano de Genebra continua sendo efetivo. "Mesmo quando o Mapa da Paz não está implementado em absoluto, temos de encontrar maneiras de avançar. Qualquer vazio será preenchido com violência", acrescentou. Participantes do encontro de Budapeste disseram que o Mapa da Paz, um plano patrocinado por Estados Unidos, Rússia, União Européia e Organização das Nações Unidas, é um esforço bem intencionado, mas não é levado a sério por nenhuma das partes. Por ser vago e com falta de detalhes, freqüentemente conduziu ao unilateralismo e ao adiamento dos problemas reais, que, por outro lado, são abordados pelo Plano de Genebra, afirmaram.

Expoentes da linha dura dos dois lados do conflito freqüentemente rotulam as propostas de Genebra como concessões inaceitáveis e traição dos interesses nacionais. Beilin disse à conferência de Budapeste que as concessões são feitas somente em momentos de verdade. "O ódio existe, mas não é impossível de ser vencido", afirmou. "As linhas vermelhas do outro lado nunca são tão rígidas quanto se julga. Este foi um êxito do Plano de Genebra. Poderá não ser o acordo real, mas ainda não tem competidor". Yasser Abed Rabbo, chefe da delegação Palestina, disse que o Plano de Genebra poderia preencher os vazios deixados por negociações prévias. "Se amanhã nos sentarmos para negociar, o modelo de Genebra será a única solução balanceada. Isto não é ideologia, é experiência", acrescentou.

Partidários do plano afirmam que ele conta com 40% de aprovação pública nas duas partes do conflito e que esse apoio está crescendo. Isto poderia transformar o plano em um ponto de referência para esforços futuros. Daniel Dor, especialista em comunicações da Universidade de Telavive, apelou para "aqueles elementos que podem mudar os padrões da mídia de ambos os lados para cooperar", tornando as propostas de Genebra mais realistas aos olhos do público. "A opinião pública israelense, em última instância, é a única força", disse Avi Primor, analista do Centro Herzliya em Israel. "A comunidade internacional necessita apoiar a sociedade civil e as iniciativas locais favoráveis ao processo de paz. É a única maneira de pressionar o governo israelense", afirmou.

Primor também acusou o lado palestino de "não ter compreendido realmente como falar à opinião pública de Israel". Disse que os palestinos deveriam dar o primeiro passo para convencer os israelenses de suas intenções. "Os israelenses só se preocupam com a segurança, e se deveria garantir-lhes isso", afirmou. "Sei que isto pode soar injusto, mas é efetivo", ressaltou. Samit Al-Abed, membro da delegação da Palestina, disse que não se podia por semelhante peso nos ombros dos palestinos. "Se estão confiscando nossa terra e destruindo nossos prédios, nós mesmos temos que nos preocupar com a opinião pública israelense? E a nossa opinião pública?", perguntou.

Mas Al-Abed disse que se deveria dar mais passos rumo á oficialização do plano. "Necessitamos de uma posição européia forte, porque precisamos de justiça. Não vemos justiça na América (EUA)". Os Estados Unidos não apoiarão o Plano de Genebra, afirmou Clayton Swisher, do Instituto para o Oriente Médio, com sede em Washington. Esse país "não quer uma solução feita em uma Europa de 'esquerda' e "que come chocolate", disse Swisher se referindo à Suíça. As duas partes devem "promover não o Plano de Genebra, mas seu espírito", ressaltou. (IPS/Envolverde)

Correspondentes da IPS

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