Hong Kong, 14/12/2005 – A sexta conferência ministerial da Organização Mundial do Comércio começou nesta terça-feira, em Hong Kong, com poucas expectativas quanto a superar a paralisação na negociação, especialmente a disputa sobre questões agrícolas. Delegados de 149 países estão presentes a esta cidade chinesa com o objetivo de reativar a Rodada de Doha de negociações multilaterais, lançada na conferência de 2001 na capital do Qatar e destinada a liberalizar o comércio com ênfase no desenvolvimento dos países pobres. Várias zonas do centro de Hong Kong foram fechadas ao tráfego regular e todos os estabelecimentos comerciais tiveram de ser fechados, a exceção de um punhado de luxuosos hotéis onde ficarão hospedados durante seis dias ministros de Comércio, empresários e representantes da sociedade civil.
Além dos funcionários de governos, chegaram a Hong Kong milhares de ativistas contrários à Rodada de Doha, a qual consideram projetada para beneficiar empresas do mundo rico, sem reparar o custo ambiental e social que deverão pagar tanto o Sul quanto o Norte. Fora da zona de segurança, milhares de ambientalistas, sindicalistas, estudantes e agricultores organizados preparavam dezenas de formas de protestos, incluindo uma série de caminhadas e um gigantesco comício. Ao entrarem em grupos na cidade, muitos carregavam cartazes onde acusavam a conferência de ser parte dos planos hegemônicos do Norte.
Inclusive antes de começarem as negociações, centenas de pessoas foram às ruas contra um eventual acordo que, segundo elas, poderia afetar os agricultores e trabalhadores do Sul e degradar o meio ambiente tanto em países pobres quanto nos ricos. Como prioridade da agenda figura o conflito quanto aos subsídios que as nações ricas, especialmente Estados Unidos, Japão e União Européia, destinam à sua produção agrícola, afetando a competitividade dos produtores do sul, encabeçados na conferência por Brasil e Índia. Para muitos, esta disputa poderia provocar o fracasso das negociações, com ocorreu nas anteriores, de 1990, em Seattle (EU), e de 2003, em Cancún (México).
Os Estados Unidos, a maior economia mundial e o grande beneficiado com a abertura de novos mercados para seus bens manufaturados e serviços, propôs reduzir seus subsídios agrícolas para permitir um acordo, com a condição de que a União Européia e outras potências adotem medidas semelhantes. Prevê-se que as nações ricas apresentem um pacote de incentivos para os países em desenvolvimento como forma de salvar as aparências no caso de as conversações sofrerem novo colapso. Esse pacote poderia incluir uma maior abertura de mercados para os países mais pobres, especialmente os exportadores de algodão da África ocidental, e mais ajuda à captação para o comércio.
Alguns ativistas afirmam que o "pacote de desenvolvimento", como é chamado por diplomatas dos Estados Unidos e da UE, não passa de uma armadilha para dividir as nações do Sul que cerraram fileira na última conferência, de Cancún, para pressionar os países ricos. "As ações em assuntos importantes para as nações em desenvolvimento, como o algodão, a ajuda para o comércio e o acesso a mercados, serão muito bem-vindas, mas deve ser parte de um acordo maior que contemple o prejuízo causado pelas políticas agrícolas dos países ricos", afirmou Phill Bloomer, especialista e comércio da organização humanitária Oxfam. As propostas do Norte "não devem ser um adoçante para disfarçar o sabor amargo de um mau acordo", acrescentou.
Os países em desenvolvimento, como Brasil e Índia, se queixam de que as subvenções agrícolas do Norte reduzem artificialmente os preços dos produtos e afetam os produtores mais pobres. Também criticam as medidas antidumping (contra o comércio desleal de preços) das nações ricas, porque – afirmam – significam mais barreiras às suas exportações, sobretudo de frutas cítricas e de aço. Outra disputa na conferência da OMC diz respeito à ajuda alimentar dos Estados Unidos a países pobres, qualificada por União Européia, Canadá e outros países de negócio disfarçado, bem com opor organizações de ajuda ao desenvolvimento. Ativistas dizem que essa ajuda, iniciada em 1954, tem o objetivo de abrir novos mercados.
As grandes companhias estão representadas em Hong Kong, muitas para pressionar os negociadores a fim de obterem maior abertura de mercados para seus produtos, especialmente países em desenvolvimento de grande porte, como Brasil, China e Índia. Os países ricos também pressionarão em Hong Kong para conseguir maior acesso aos mercados industriais e de serviços nos países do Sul. "As pessoas parecem esquecer que os produtos manufaturados representam 75% do comércio mundial", disse o presidente da Associação Nacional de Industriais dos Estados Unidos, John Engler. "Não poderemos alcançar um acordo se não incluirmos uma verdadeira liberalização comercial para os bens industriais e também para os serviços", advertiu o empresário. Um representante de gigante do ramo da informática, a Microsoft, disse à IPS que sua tarefa em Hong Kong será "estar o mais perto possível dos que tomam as decisões", com o propósito de "fazer com que abram novos mercados". (IPS/Envolverde)

