Nova York, 03/01/2006 – Os Estados Unidos oferecem programas de intercâmbio para ensinar ética a jornalistas de outros países, mas no Iraque paga meios de comunicação e profissionais para que divulguem "boas notícias". Um novo programa leva o nome do jornalista Edward R. Murrow, famoso por seus informes de rádio desde Londres durante a Segunda Guerra Mundial, e, mais tarde, por expor na televisão as incongruências do senador Joseph McCarthy, dedicado a caçar comunistas nos anos 50. Ao anunciar o programa, a secretária de Estado, Condollezza Rice, afirmou que este plano de estudos dará ênfase "nos princípios democráticos que guiaram o senhor Murrow na prática de seu ofício: integridade, ética, coragem e responsabilidade social. "Todos sabemos que o pilar fundamental de uma sociedade livre é uma imprensa livre, e isso é crucial para a fundação de qualquer democracia", afirmou Rice.
O Programa de Jornalismo Edward R. Murrow será implementado pelo Escritório de Assuntos Educativos e Culturais do Departamento de Estado, pelo independente Instituto Aspen e pelas escolas de jornalismos de seis universidades norte-americanas. Serão chamados até cem jornalistas de todo o mundo, que freqüentarão escolas de jornalismo dos Estados Unidos para "aperfeiçoamento de suas habilidades, compartilhar idéias e obter compreensão de primeira mão da sociedade e das instituições democráticas norte-americanas", disse o Instituto Aspen. O objetivo, prosseguiu, "Não é apenas informar os jornalistas sobre os Estados Unidos, mas também promover a liberdade jornalística e a excelência ao redor do mundo".
Ao criar este programa – disse Rice – o Departamento de Estado se mostra "determinado a associar-se com o setor privado para que os norte-americanos de todas as origens, tradições, grupos étnicos e modos de vida ajudem no avanço da história do progresso democrático e da liberdade". Este anúncio teve um estranho efeito ao justapor-se com o mal-estar que reina entre jornalistas norte-americanos ao vir à tona a contratação por parte do Departamento de Defesa da empresa de relações públicas Lincoln Group. O objetivo dessa contratação é pagar a jornalistas iraquianos para que publiquem artigos escritos pelo exército norte-americano que apresentem um ponto de vista positivo sobre a situação no Iraque. Esses artigos não identificam o exército norte-americano como fonte.
Por outro lado, o jornal The Washington Post informou esta semana que fuzileiros navais dos Estados Unidos, frustrados com a cobertura dos grandes meios de informação, convidaram ao Iraque um soldado da reserva que escreve um blog cobrindo a guerra desde o front. O blog é um site da Internet periodicamente atualizado e que costuma funcionar como um diário pessoal de consulta pública, sendo administrado pelo próprio autor. O responsável pelo blog The Fourth Rail (A quarta via) Bill Roggio, soldado da reserva e técnico em informática na cidade de Nova Jersey, arrecadou mais de US$ 30 mil entre seus leitores na Internet para pagar sua passagem até o Iraque, a equipe técnica e a vestimenta blindada.
Poucas semanas depois publicava seus despachos desde um posto remoto na província de Anbar, celeiro da insurgência iraquiana. "Estava desencantado com as notícias sobre a guerra no Iraque e a respeito da guerra contra o terror, e senti que se perdia muito do conflito", disse Rroggio ao The Washington Post através de um e-mail. Roggio, que agora está entre os fuzileiros ao longo da fronteira Síria, disse que "o que freqüentemente é visto como uma tentativa de informar de modo equilibrado resulta em uma subinformação do êxito e da estratégia militar e em uma ênfase exagerada nos sucessos estrategicamente menores de guerrilheiros islâmicos ou rebeldes".
Funcionários militares de Bagdá disseram que não emitiram para Roggio uma credencial de imprensa, a menos que estivesse filiado a alguma organização. Então, o neoconservador American Enterprise Institute, de Washington, lhe ofereceu filiação. Ao mesmo tempo, o Post revelou que o exército norte-americano pagou a emissoras de televisão de três cidades iraquianas para que apresentassem uma cobertura favorável à ocupação, segundo um porta-voz militar. Segundo o jornal, o exército deu a um desses canais US$ 35 mil em equipamento, construiu uma nova instalação no valor de US$ 300 mil e paga US$ 600 semanais a um programa sobre os esforços dos Estados Unidos no Iraque.
O Post disse que um comandante da Guarda Nacional do Exército dos Estados Unidos "reconheceu que seus funcionários ´sugerem` crônicas à emissora e avaliam o conteúdo do programa em uma reunião semanal antes de ser exibido". Embora o comandante, um tenente-coronel que não foi identificado porque trabalha na mesma zona, negou que tenham sido feitos pagamentos ao canal. No entanto, o produtor da televisão iraquiana disse que seu pessoal obteve US$ 1 mil ao mês por essa via. Segundo numerosas pesquisas, a maioria do público do Iraque e de outros países árabes é cética sobre os motivos e as táticas dos Estados Unidos, pois vêem diferenças entre o que o governo do presidente George W. Bush diz e o que faz.
O novo programa internacional de jornalismo do Departamento de Estado poderia se deparar com o mesmo problema. "A democracia não pode funcionar sem o livre fluxo de informação e idéias que é possível graças a uma imprensa independente e efetiva", afirmou Geoffrey Cowan, da Universidade do Sul da Califórnia, que participa do programa. "Todas nossas escolas esperam que os jornalistas internacionais aprendam em seus cursos, e todos nós esperamos que nossos estudantes aprendam com nossos visitantes", afirmou. As outras universidades que participam do programa são as de Kentucky, Minnesota, Carolina do Norte, Oklahoma e a de Texas, em Austin.
Como parte do Programa Murrow, o Instituto planeja um simpósio para abril, com participação de conhecidos jornalistas em atividade, analistas, editores e colunistas que debaterão questões práticas e éticas do jornalismo. Também participarão porta-vozes do governo, que discutirão o vínculo entre os meios de comunicação e a elaboração de políticas. No encontro será analisada a importância da diversidade de opinião e do acesso do público à informação, bem como os desafios que enfrentam os jornalistas em todo o mundo.
Mas Bill Grosscup, da Universidade da Califórnia, em Chico, considerou que os subornos e o Programa Murrow constituem "um exemplo da diferença entre a democracia na teoria e na prática". As "mesmas pessoas que estabeleceram um programa para promover o jornalismo independente são as que defendem o financiamento de empresas de relações públicas, indivíduos chauvinistas ligados a organizações de especialistas conservadores e jornalistas incrustados na engrenagem política como meios independentes", disse Grosscup à IPS. "Tudo é questão de relações públicas e controle dos meios de comunicação. Joseph Goebbels (ministro de Propaganda do ex-ditador alemão Adolf Hitler, 1933-1945) estaria orgulhoso", ressaltou. (IPS/Envolverde)

