Washington, 09/01/2006 – A declaração de culpa em várias acusações do influente republicano Jack Abramoff ameaça expor uma rede de grupos de pressão e legisladores direitistas cujo auge, desde o início da década de 90, se alimentou de dinheiro, tráfico de influências e convicções ideológicas. Abramoff se declarou, na terça-feira passada, culpado de fraude, evasão de impostos e conspiração para subornar funcionários públicos. No dia seguinte, fez o mesmo com relação a acusações de fraude em outro caso no Estado da Flórida. Esta figura foi um destaque da conservadora política republicana desde 1994, quando o partido do presidente George W. Bush ganhou o controle da Câmara de Representantes pela primeira vez em 50 anos.
Sua queda – e a ameaça que agora representa para outros republicanos poderosos, como seu patrocinador político mais importante, o ex-líder da maioria na câmara baixa, Tom DeLay – reforçará os esforços do opositor Partido Democrata em expor a corrupção oficial com vistas às eleições legislativas de novembro. Os democratas esperam recuperar nessas eleições o controle de pelo menos uma das Casas do Congresso. Os democratas, entretanto, não saíram ilesos, já que alguns importantes dirigentes da oposição receberam contribuição de Abramoff para suas campanhas.
Segundo sua declaração acertada entre seus advogados e os promotores federais que trabalharam mais de dois anos no caso, Abramoff, de 47 anos, terá de pagar mais de US$ 26 milhões aos seus ex-clientes (a maioria tribos indígenas que administram cassinos em suas reservas) e ao Tesouro dos Estados Unidos. Também pode ser condenado a 30 anos de prisão. Mas é provável que esta sentença seja reduzida, já que Abramoff coopera com uma investigação mais ampla. Segundo a imprensa, os promotores estão investigando meia dúzia de legisladores, incluindo DeLay, que supostamente aceitaram favores pagos de Abramoff em troca de votos, mas essa quantidade pode ser ampliada para outros 15 ou 16.
Segundo o The Wall Street Journal, o próprio Abramoff disse ter informação que pode implicar cerca de 60 legisladores e suas equipes, bem como vários funcionários do governo Bush. "O caso é significativo e o plano de corrupção com Abramoff muito amplo", disse Alice Fisher, promotor federal encarregado da investigação. Observadores dizem que o escândalo parece ser o pior em décadas. Em setembro, o ex-diretor do departamento de compras federais do Escritório de Administração e Orçamento da Casa Branca, David Safavian, foi preso "por mentir e obstruir uma investigação penal" sobre a negociação de Abramoff com o governo federal.
A Casa Branca anunciou, na última quarta-feira, a devolução de US$ 6 mil de uma contribuição eleitoral vinculada a Abramoff, que atingiu o grau de "pioneiro" na campanha para a reeleição de Bush, em 2004, arrecadando mais de US$ 100 mil em seu nome. O anúncio da Casa Branca foi o último de uma série feita por dirigentes republicanos, incluindo DeLay; o presidente da Câmara de Representantes, Dennis Hastert, e o líder da maioria, Roy Blount, que tentam se desvincular da generosidade de Abramoff. Nas declarações prometem devolver ou doar a instituições beneficentes dezenas de milhares de dólares de contribuições de Abramoff.
Abramoff começou sua ascensão ao poder nos anos 80, quando, na qualidade de presidente do Comitê Nacional de Republicanos Colegiados, se aliou com outras duas super estrelas republicanas em ascensão. Uma delas era Grover Norquist, atual diretor da Americans for Tax Reform (Norte-americanos pela Reforma Tributária), que atuou como marechal de campo da campanha de 2004 nos Estados meridionais e agora postula o cargo de vice-governador no Estado da Geórgia.
Em meados dos anos 80, Abramoff se engajou em várias atividades relacionadas com a chamada Doutrina Reagan, a política que deu apoio encoberto a militares e paramilitares considerados anticomunistas no mundo em desenvolvimento, segundo pesquisa do jornal The Washington Post. Desse modo, trabalhou de perto com dirigentes dos "contra" nicaragüenses, fazendo lobby por sua causa no Congresso; com o líder rebelde angolano Jonas Savimbi, e com o regime segregacionista sul-africano do apartheid, que acabou em 1994. O regime racista da África do Sul pagou em segredo à International Freedom Foundation (Fundação Internacional para a Liberdade) de Abramoff cerca de US$ 1,5 milhões por vários serviços, segundo testemunhos obtidos pela Comissão Sul-africana para a Verdade e a Reconciliação.
Sua carreira de lobista teve início em 1994 com a "revolução republicana", liderada por Newt Gingrich, quando começou a recrutar como clientes tribos indígenas, das quais arrecadou cerca de US$ 82 milhões prometendo em troca que o Congresso e o Executivo não perturbariam suas lucrativas operações com cassinos. Esses pagamentos se transformaram em contribuições para campanhas, freqüentemente concretizadas através de uma rede de organizações, jogos de golfe no exterior, jantares gratuitos nos restaurantes do Capitol Hill (sede do parlamento) e ingressos para espetáculos esportivos de Washington.
Abramoff e DeLay se uniram em 1995, e a constante ascensão do segundo na escalada da liderança republicana reforçou a imagem do primeiro como pessoa decisiva para influir na Câmara de Representantes. Ambos constituem uma estranha dupla. DeLay é um fervoroso cristão evangélico e líder da direita cristão na câmara baixa, enquanto Abramoff é um judeu ortodoxo. Mas tinham interesses em comum, particularmente consolidar o controle republicano do Congresso e promover uma agenda ultraconservadora tanto nos Estados Unidos quanto no Oriente Médio.
No começo deste ano, a revista Newsweek informou que vários dos clientes indígenas de Abramoff doaram mais de US$ 1 milhões para a Capital Athletic Foundation (Fundação Atlética Capital), organização beneficente supostamente criada para ajudar a juventude urbana pobre, e muito favorecida por DeLay. Segundo a Newsweek, mais de US$ 140 mil foram enviados a colonos judeus radicais na Cisjordânia, que usaram esse dinheiro para comprar uniformes camuflados, aparelhos de luz infra-vermelha, visores noturnos e outros equipamentos de "segurança".
Abramoff também manteve longa relação com Daniel Lapin, um rabino de extrema direita originário da África do Sul, que foi pioneiro na construção de uma aliança entre alguns líderes judeus ortodoxos e a direita cristã, da qual Reed foi figura importante. Seus interesses no exterior não se limitavam a Israel. Apesar de seu fervoroso sionismo, Abramoff representou as forças armadas paquistanesas em Washington no final da década de 90; a Malásia e o Zaire (hoje República Democrática do Congo) durante o governo do presidente Mobuto Sese Seko (1967-1997), e, ultimamente, empresas de petróleo russas.
No início do ano passado ficou-se sabendo que o governo do presidente do Gabão, Omar Bongo pagou para Abramoff US$ 9 milhões para conseguir uma reunião com o presidente Bush na Casa Branca, que aconteceu em maio de 2004. Segundo o Post, tanto ele quanto um ex-assessor de DeLay, Michael Sacanlon – que também se declarou culpado na mesma investigação federal criaram um grupo de especialistas sem fins lucrativos que, na realidade, era uma arma de lobby a favor de clientes que eles não queriam representar oficialmente, com a Malásia ou companhias de petróleo que operavam no Sudão. (IPS/Envolverde)

