Havana, 23/01/2006 – Mulheres afetadas por diferentes formas de violência e discriminação de gênero darão seu testemunho perante um tribunal durante o VI Fórum Social Mundial, cuja fase latino-americana começa nesta terça-feira em Caracas. "Trata-se de tornar visível o que o sistema dominante do capital oculta", disse à IPS Humberto Miranda, membro do grupo coordenador do Tribunal Internacional de Mulheres contra a violência patriarcal do neoliberalismo, promovida por várias organizações.
"As estatísticas dizem que as mulheres são as mais exploradas e pobres entre os pobres, mas a cultura ocidental impõe um padrão no qual essa perspectiva de gênero permanece oculta", acrescentou o pesquisador cubano. Daí que entre os objetivos do Tribunal está o de denunciar essa situação e "tornar visível o invisível", além de desafiar o discurso oficial sobre os direitos humanos, que ignora o drama diário de milhões de pessoas que carecem o elementar para viver e se desenvolver.
O Tribunal se reunirá na sexta-feira, e embora suas conclusões careçam de efeito legal, permitirá que se conheça através das histórias de vida narradas por suas próprias protagonistas o impacto de problemas que vão desde a exclusão social até o terrorismo de Estado e outros abusos. Entre as possíveis testemunhas figuram a norte-americana Cindy Sheehan, cujo filho Casey morreu em combate no Iraque, e a espanhola Maribel Permuy, mãe do jornalista José Couso, morto por um projétil dos Estados Unidos em Bagdá quando cumpria sua missão profissional.
Também estarão presentes mulheres que vivem com o vírus da deficiência imunológica humana (HIV, causador da aids), imigrantes nos Estados Unidos, sindicalistas, ativistas de direitos humanos e camponesas centro-americanas, bem como sobreviventes do conflito armado na Colômbia e das ex-ditaduras do Cone Sul latino-americano. A agenda de trabalho também inclui um testemunho analítico sobre o feminicídio, forma extrema de violência de gênero que se manifesta com especial gravidade em países como México, Guatemala e Espanha.
Segundo fontes parlamentares, entre 2001 e 2005 foram cometidos 1.942 assassinatos de mulheres na Guatemala, e 625 no México em 2004, enquanto na Espanha cerca de 70 mulheres foram vítimas da violência de gênero. Na nação européia, esta forma de violência se materializa basicamente no âmbito privado, enquanto nos outros dois casos se combinam também causas sociais, a ação do crime organizado e a impunidade, segundo estudos mencionados durante uma reunião realizada no final de 2005 em Madri por congressistas desses três países. O Tribunal Internacional de Mulheres contra a violência patriarcal do neoliberalismo está incluído no primeiro eixo temático do FSM, sobre "Poder, política e lutas pela emancipação social".
"Não pode haver um projeto de emancipação que não leve em consideração todos estes problemas", disse Miranda, membro do Grupo América Latina, Filosofia Social e Axiologia do Instituto de Filosofia, ligado ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Meio Ambiente de Cuba. Entre as organizações que convocam este Tribunal também figuram o escritório Internacional Asian Women`s Human Rights Council, com sede em Túnis e liderado por Corinne Kumar; a Rede de Intelectuais em Defesa da Humanidade; Encontros Hemisféricos de Luta contra a Alca; Marcha Mundial de Mulheres e a Rede Latino-americana de Mulheres Transformando a Economia, entre outras.
O FSM é uma reunião anual de representantes da sociedade civil de todo o mundo cuja primeira edição aconteceu em 2001 em Porto Alegre, como alternativa ao Fórum Econômico Mundial de Davos, que desde 1971 reúne empresários e governantes nesse exclusivo centro turístico da Suíça. Em sua sexta versão, o FSM acontece em três cidades de três continentes, em Bamako, capital de Malí, Caracas, capital da Venezuela, e Karachi, cidades do Paquistão e importante centro financeiro da costa do Mar da Arábia.
Em Caracas são esperados cem mil ativistas sociais de diversas partes do mundo que participarão de quase duas mil atividades, entradas em eixos temáticos, o primeiro deles incluindo debates sobre Estado, partidos políticos e movimentos sociais, bem como as práticas de resistência frente às formas de dominação e violência política. O segundo eixo, "Estratégias imperiais e resistência dos Povos", propicia debates que vão desde a expansão militar imperial até o terrorismo e o livre comércio, enquanto o terceiro eixo, "Recursos e direitos para a vida: alternativas ao modelo civilizatório depredador", prevê discussões sobre privatização de recursos e o aquecimento planetário, entre outros.
Um quarto grupo de temas engloba "Diversidades, identidades e cosmovisões em movimento", isto é, de povos, nacionalidades indígenas e afrodescendentes, o diálogo entre religiões, as identidades de gênero e a diversidade sexual. Problemas como a precariedade do trabalho, a exclusão, a desigualdade e a pobreza serão discutidos dentro do quinto eixo temático, enunciado como "Trabalho, exploração e reprodução da vida". No sexto e último eixo, "Comunicação, culturas e educação: dinâmicas e alternativas democratizadoras", inclui discussões sobre direito à comunicação para fortalecer a cidadania e a democracia participativa e resistências à mercantilização da comunicação e à concentração da propriedade dos meios de comunicação. (IPS/Envolverde)

