Santiago, 24/01/2006 – O fortalecimento dos vínculos do Chile com a América Latina sem prejudicar sua relação privilegiada com os Estados Unidos parece ser o principal desafio na política externa para o futuro governo de Michelle Bachelet. Porém, analistas discordam ao prever o modo como resolverá a questão. O Chile tem pendente uma disputa histórica com a Bolívia, que reclama a recuperação de sua saída soberana para o oceano Pacífico, e necessita encaminhar tanto as relações políticas como econômicas com seus outros vizinhos, Argentina e Peru.
Além de manter um acordo de livre comércio com os Estados Unidos, este país é o mais antigo associado do Mercosul, formado por Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai como membros plenos, status ao qual a Venezuela já está a caminho de obter e que agora a Bolívia também aspira. O primeiro sinal positivo do que se vislumbra no secular conflito limítrofe entre Santiago e La Paz foi constituído pela presença do presidente chileno que deixa o cargo, Ricardo Lagos, e de seu filho, Ricardo Lagos Weber, como emissário de Bachelet na posse de Evo Morales como o primeiro presidente indígena na história independente da Bolívia.
Apesar de Chile e Bolívia manterem interrompidas suas relações diplomáticas desde 1978, Lagos abriu com Morales um "diálogo sem restrições", que deve seguir de maneira mais sistemática quando o presidente boliviano viajar ao Chile como convidado para a posse de Bachelet, no dia 11 de março. Teodoro Ribera, analista do Instituto Liberdade, ligado ao direitista Partido Renovação Nacional, e reitor da privada Universidade Autônoma do Sul, disse à IPS que com "Peru e Bolívia ainda temos problemas estruturais, cujas origens datam do século XVIII" e provocaram a guerra do Pacífico entre 1879 e 1883 em que o Chile derrotou esses dois países.
Para evitar a "permanente recaída (nesses conflitos), o grande desafio é reafirmar os direitos do Chile em nossa relação com Peru e Bolívia e, em paralelo, gerar maiores condições de confiança para conseguir uma agenda compartilhada no futuro", recomendou. Por outro lado, o "Chile deve reconhecer que está unido à Argentina por interesses comuns, o que deriva principalmente do Tratado de Paz e Amizade celebrado em 2 de maio de 1985 por mediação do papa João Paulo II", acrescentou Ribera. O especialista qualificou de problema conjuntural o racionamento nos fornecimentos de gás natural argentino para o Chile desde 2004, devido à queda da produção por falta de investimentos nesse setor energético no país vizinho depois do colapso financeiro de 2001.
Quanto às relações econômicas, Ribera considerou que o Mercosul não é uma alternativa para o Chile, que "optou por uma integração internacional, nos campos político e econômico, muito mais aberto, com uma visão positiva da modernidade e da globalização". O Chile é associado externo do Mercosul desde 1996, cinco anos depois de sua criação em Assunção, mas não adquiriu a condição de integrante pleno porque os sucessivos governos entenderam que a incompatibilidade de regimes alfandegários impede que isso ocorra. Por sua vez, o jornalista e analista internacional Raúl Sorh, disse à IPS que "há uma grande possibilidade de entendimento real entre Bachelet, que é a primeira mulher presidente da América Latina, e Evo Morales, primeiro indígena eleito para o mesmo cargo na região.
Também descartou problemas estruturais entre Santiago e Buenos Aires devido às dificuldades energéticas. "A Argentina tem um déficit de gás que repercute no Chile, mas não significa que o país tenha sido vítima deliberada da má vontade", afirmou. Para Sorh, a maior incógnita neste contexto é o Peru, que terá eleições em abril, porque "um dos candidatos que aparece com maiores chances nas pesquisas, o dirigente nacionalista Ollanta Humala, pertence a um movimento que mantém ações hostis em relação ao Chile". Por outro lado, recordou que Lagos assumiu o governo "com grande entusiasmo integrador na América Latina e no Mercosul", que se esfacelou com as profundas crises econômicas no Brasil e na Argentina, situação que causou impacto no bloco, atrasando a redução da tarifa externa comum.
Não houve "coincidências de ritmos econômicos entre Chile e outros países da região porque diante da economia chilena aberta, praticamente sem tarifas alfandegárias, fica muito difícil chegar a um acordo", explicou. No campo político, Ribera disse que, embora com Bachelet o Chile continue sendo governado pela centro-esquerda, esta corrente política no plano local "tem léguas de distância do que propõe a esquerda latino-americana que vive do romantismo do passado". Sugeriu que "nosso país consiga conciliar um alto nível de crescimento econômico através de uma maior integração internacional", que gerará renda para o Estado "a fim de diminuir as desigualdades sociais", entre as mais graves da América Latina, apesar de ser um dos países com maior crescimento econômico da região.
Para Ribera, "o grande problema" do governo Bachelet será a tendência latino-americana de apoio a Morales, o que se traduzirá em "pressões para que o país seja mais condescendente com a reivindicação marítima da Bolívia e nos obrigando a sacrificar nossos interesses geopolíticos e territoriais". Nesse contexto, recomendou que se deve "não somente manter, mas intensificar ainda mais, nossas relações com Estados Unidos e Europa". O "Chile deve ser um país que aposte com mais força ainda na liberalização, nos processos de integração em matéria econômica e na estabilidade política e jurídica", afirmou.
Para Sorh, entretanto, o importante é "recuperar uma relação com o Brasil que é boa, mas que poderia ser melhor", pois o maior país da região teve reparos diante da Área de Livre Comércio das Américas (Alca), ao se mostrar partidário de uma negociação coletiva com o maior número de países. O Brasil "não viu com bons olhos que o Chile assinasse (em junho de 2003) unilateralmente o tratado de livre comércio com os Estados Unidos", acrescentou o especialista. Mais do que se preocupar, Sohr se alegra com a "esquerdização" dos governos da América Latina. "Os povos estão em seu mais legítimo direito de buscar as opções que julguem convenientes e, se concluírem que o modelo neoliberal não lhes trouxe o bem-estar prometido e querem ter mais Estado e melhor redistribuição da renda em seus países, será em boa hora", ressaltou.
Tampouco existem motivos para Bachelet "esfriar" os vínculos com Washington, porque, "em termos econômicos, o Chile obtém grandes benefícios desta estreita relação com os Estados Unidos e não vejo como poderia prejudicar nossa relação com o resto dos países da América Latina", disse o analista. Para Jorge Insunza, membro da Comissão Internacional do Partido Comunista chileno, mais além das circunstâncias e da história, os problemas do governo de Lagos com a América Latina estiveram "determinados por sua extrema subordinação às políticas do governo de George W. Bush no sentido de facilitar ou não os processos de integração da região".
"Houve a pretensão absurda de sentir-se país do primeiro mundo e menosprezar, nos fatos, as relações com os latino-americanos", como demonstrou a assinatura de um acordo de livre comércio com os Estados Unidos, "em condições que esse tratado é leonino para os interesses do povo do Chile e, por conseqüência, para os interesses dos latino-americanos", disse Insunza à IPS. A presença de Lagos na posse de Morales é "um sinal animador quanto ao próximo governo assumir que a vocação latino-americana deve instalar-se com mais força na política externa chilena", ressaltou.
O dirigente comunista espera que o governo de Bachelet "tenha uma determinação mais forte para promover a integração latino-americana em geral e fortalecer o Mercosul". Entretanto, alertou que no Mercosul "também são exercidas pressões hegemônicas que são antagônicas e contraditórias com uma integração de países que devem agir em pé de igualdade e não tentando obter vantagem a custa do outro, mas permitir um desenvolvimento harmônico de cada Estado".
"A vitória de Evo Morales na Bolívia, como a de Tabaré Vazques no Uruguai, e antes a de Néstor Kirchner na Argentina e de Luiz Inácio Lula da Silva no Brasil, são auspiciosas para que a dimensão da integração latino-americana, como primeira prioridade, se instale com mais força", destacou Insunza, que exortou Bachelet a rever as relações com Washington. "Bush é a pior praga no início deste século e tudo aquilo que contribui para isolá-lo e impedir que suas políticas brutais de exercício de pressões e o uso das forças armadas para impor seus desejos requer um nível muito mais alto de exercícios da soberania popular e da soberania nacional em cada um de nossos paises", afirmou Insunza. (IPS/Envolverde)

