Davos, 23/01/2006 – Estamos entrando em uma nova era, não só para as atividades econômicas, mas também para o mundo inteiro, na qual o "imperativo da criatividade" domina em nossas vidas, tanto no lar como no trabalho e no tempo livre. É um mundo em que as premissas, os instrumentos e os contextos que os líderes da atividade econômica, os governos e a sociedade civil empregaram durante as décadas passadas para tomar decisões já não têm validade.
Uma economia global e interconectada, os desequilíbrios econômicos, as novas tendências, as mudanças demográficas e a influência gravitacional exercida pelas economias emergentes da Índia e da China são apenas alguns dos muitos fatores que estão remodelando radicalmente o cenário mundial.
A "Economia Criativa" que está surgindo é a lógica extensão do processo de globalização que se propagou pelo mundo durante os últimos 50 anos e que se acelerou de forma quase exponencial na última década. Mas não somente as empresas devem se adaptar a este novo cenário. Os governos, as instituições multilaterais e as organizações da sociedade civil também devem adotar os novos desenhos políticos e os enfoques inovadores se querem continuar sendo eficientes e dignos de credibilidade.
Por outro lado, fica cada vez mais claro que muitos dos mais angustiantes problemas planetários não poderão ser solucionados eficazmente se os governos, as companhias e as instituições multilaterais agirem sozinhos e sem coordenação. Esta mudança fundamental no ambiente global chega em um momento em que o mundo deve se ver com debilidades na liderança, com sociedades inseguras e instituições frágeis. A tecnologia e a informação estão se globalizando e neste processo as vantagens essenciais do conhecimento estão sendo enviadas para o estrangeiro.
Mas nesta nova era a pressão não se dá apenas no velho mundo; simplesmente, já não é suficiente fazer as coisas de modo mais rápido e barato. Agora, as chaves condutoras e as que fazem a diferença são cada vez mais a criatividade e o planejamento.
Nesta nova era, não só as empresas devem se por em dia. O planejamento estratégico conecta (ou reconecta) a organização com os clientes e fornecedores. No caso de instituições governamentais e não-governamentais permite aos dirigentes ganhar (ou reconquistar) legitimidade, pois permite que estejam mais preparados para solucionar adequadamente os dilemas com enfoques inovadores. A criatividade se converte em imperativa para fazer frente aos problemas globais.
Na recente cúpula da Organização das Nações Unidas em Nova York sobre os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio (setembro de 2005) houve, segundo creio, consenso em torno de uma promissora idéia que finalmente reconhece que os problemas mundiais, como, por exemplo, o HIV/aids e os desastres naturais, não podem ser deixados apenas nas mãos de um único grupo de líderes ou instituições.
O setor empresarial, por exemplo, pode oferecer inovações significativas, consideráveis vantagens e, naturalmente, também riqueza em matéria de recursos. Tudo isso já não pode ser ignorado pela chamada sociedade civil. Tome-se, por exemplo, o furacão Katrina, onde uma vez mais se comprovou o fracasso de instituições e governos locais para conseguir soluções por eles mesmos. Também vimos que muitos grupos empresariais prestaram sua perícia em áreas-chave.
Estes tipos de alianças criativas serão estabelecidas de forma crescente para enfrentar os problemas. Alianças mais ou menos formais se tornarão mais compactas ou se dissolverão e se reconstituirão para ocupar-se dos problemas. Deste modo, cada vez mais nesta época necessitaremos organizações matrizes que possam fornecer uma plataforma para que as pessoas posam trabalhar. As novas organizações globais serão plataformas que permitirão soluções criativas e colegiadas para enfrentar problemas específicos.
Houve uma mudança fundamental na economia global e mudanças concomitantes em nossa sociedade global e nas formas de governo. Não pode surpreender que os dirigentes estejam encontrando dificuldades para manter o passo diante das novidades. Mas alguns líderes começam a ver que devem se atualizar e dar passos valentes, audazes e, sobretudo, criativos, para enfrentar o novo cenário mundial. Além disso, dá-se conta de que já não podemos depender do contexto e das premissas que até há poucos anos eram consideradas básicas e que devemos nos mover para frente em um ambiente de incerteza no qual servem unicamente soluções inovadoras. Estamos entrando em um novo modelo, tão novo que ainda não percebemos completamente seus meandros. É neste mundo novo que os cidadãos, os empresários e os políticos terão – todos – que assumir o "imperativo da criatividade" para que possamos prosperar. (IPS/Envolverde)
(*) Klaus Schwab, presidente e fundador do Fórum Econômico Mundial.

