Johannesburgo, 24/01/2006 – Enquanto milhares de ativistas se preparam para as reuniões do Fórum Social Mundial deste mês em Malí e na Venezuela, tanto os que fazem parte do processo do Fórum quanto os que estão fora, cada vez mais se perguntam: quais são as soluções globais propostas pelo FSM? Enquanto o fórum perseguir conscientemente o objetivo de criar um espaço para o diálogo e o compromisso em lugar de acordos para estabelecer posições políticas estará, na realidade, proporcionando a diferentes atores da sociedade civil uma oportunidade encontrar um terreno comum, comprometer-se em estratégias compartilhadas e planejar atividades conjuntas para o futuro.
O lançamento no ano passado em Porto Alegre do Chamado Global para a Ação Contra a Pobreza (GCAP) foi uma decisão consciente dos organizadores dessa iniciativa para alinhar este esforço com a mensagem central do FSM de que "outro mundo é possível". Por outro lado, a expectativa não era que todos os participantes do FSM estivessem de acordo com todas as políticas e posições propiciadas pelo GCAP. A esses críticos que tentaram tirar méritos e enquadrar o FSM qualificando-o simplesmente de "fórum antiglobalização" é importante assinalar que na essência o Fórum constitui uma voz de preocupação crítica sobre as profundamente injustas e angustiantes realidades sociais e econômicas que enfrentam atualmente os cidadãos comuns, tanto nos países ricos como nas nações pobres.
Em um espaço de tempo relativamente curto, o FSM oferece anualmente um momento no qual os participantes da sociedade civil podem chamar a atenção sobre algumas das velhas e novas injustiças que sofrem os cidadãos em todo o mundo. Este chamado de atenção sobre a crescente militarização, o aprofundamento do déficit em matéria de democracia, as desigualdades no exercício do poder em nível global e as cada vez mais freqüentes violações dos direitos humanos, são precisamente uma contribuição que oferece o FSM. O Fórum representa um movimento de ampla integração a favor da justiça social, econômica e política no mundo e desprezá-lo ou minimizá-lo como uma simples reação à globalização é ignorar o fato de que se trata de um dos movimentos de maior alcance na história deste planeta.
Embora estabelecer posições políticas específicas nas numerosas áreas enfocadas pelos delegados possa colocar em enormes dificuldades as estruturas de tomada de decisões do FSM, especialmente devido à diversidade de pontos de vista que nele coexistem, penso que se deve encontrar um equilíbrio para pôr em destaque os elementos propostos nas mensagens expressas. Sem dúvida, nas críticas à atual ordem político-econômica global incluídas nessas mensagens há núcleos de propostas para a mudança. Embora se deva resistir à tentação de se restringir posições políticas consensuais artificialmente construídas a todos os delegados do FSM, também se deve refutar o mito de que não há iniciativas políticas importantes compartilhadas e propostas pela maioria dos delegados do FSM (tanto dentro quanto fora do Fórum).
Na questão da crise da dívida que enfrentam muitos países do Sul do mundo, por exemplo, existe um amplo consenso em uma clara série de recomendações feitas pelo FSM. Embora possam existir diferenças específicas entre várias organizações participantes, encontrar a maneira para comunicar mais vigorosamente as áreas nas quais se pode chegar a um acordo importante poderia ser um caminho a seguir. As principais coalizões nos diferentes setores podem encabeçar esse caminho se impulsionarem suas posições durante os preparativos e a realização das reuniões, bem como depois delas, seja através de entrevistas coletivas de alto perfil ou de outras atividades específicas organizadas em torno do FSM.
O Fórum Econômico Mundial (FEM), com recursos consideravelmente maiores e muito melhor acesso aos meios de comunicação, naturalmente se encontra em uma posição vantajosa quanto a difundir suas mensagens através das principais redes globais de comunicação. Entretanto, já que uma das lógicas condutoras do Fórum Social Mundial foi a de representar a antítese do FEM, torna-se criticamente importante que na batalha de idéias, visões e perspectivas sobre qual é o mundo que queremos criar para as gerações futuras o Fórum sirva como um espaço no qual se possam apresentar alternativas que cheguem aos corações e às mentes das pessoas que ainda não estão implicadas ativamente nos esforços para assegurar a justiça global. (IPS/Envolverde)
(*) Kumi Naidoo, secretário-geral da Civicus: World Alliance For Citizen Participation.

