Aids: Um vento de esperança no deserto

Isiolo, Quênia, 26/01/2006 – "Like a virgin", a canção interpretada por Madona nos anos 80, soa incongruente desde um enorme alto-falante prateado em um canto de um bar de Isiolo, povoado poeirento cheio de nômades e animais esquálidos nos confins do deserto de Kaisut, no norte do Quênia. Os freqüentadores são moradores da região e caminhoneiros em trânsito para Adis Abeba, Mogadíscio e Nairóbi. O vapor da transpiração exalada pelos corpos da multidão que dança se eleva no fresco ar noturno. O som das garrafas quebrando no chão pedregoso – e escorregadio pelo álcool derramado junto com restos de comida – se agrega à cacofonia.

Embora em um grande cartaz esteja escrito "Somente adultos" em letras vermelhas e brilhantes, Úrsula (nome fictício), de apenas 12 anos, também está aqui. É integrante do que em Isiolo se chama de "geração Coca-Cola". Estas "meninas são chamadas assim porque para fazer sexo com elas basta pagar-lhes uma Coca-Cola", riu Saafo Gedi, um dos freqüentadores habituais do bar. Mas para Khadija Rama, fundadora do programa Pepo la Tumaini Jangwani (Vento de esperança no deserto, em língua swahili), de Isiolo, a existência da geração Coca-Cola é motivo de preocupação, e não fonte de diversão.

"Aqui, as pessoas chamam as jovens prostitutas com idade entre 9 e 13 anos de 'as Coca-Colas?, e às que têm entre 13 e 16 anos de 'as Nikes? (a marca de artigos esportivos) porque fazer sexo com elas custa mais caro", disse à IPS Rama, cuja organização é conhecida simplesmente como Tumaini. Inevitavelmente, a aids floresceu neste cenário, embora muitos neguem o efeito da pandemia em suas localidades, que abrigam as comunidades étnicas borana, meru, turkana e somali, de maioria muçulmana.

"Nossos cemitérios estão cheios de mortos pelo HIV (vírus causador da aids), todos muçulmanos. E os bares estão cheios de jovens prostitutas, todas muçulmanas", sussurrou Christine Osedo, que trabalha com Rama em Tumaini. Porém, "a comunidade diz que os muçulmanos não contraem aids e que as muçulmanas não são trabalhadoras sexuais", acrescentou. Segundo o Programa conjunto das Nações Unidas sobre HIV/aids (Onusida), a prevalência deste vírus no Quênia é de 6,7%. Parece que todos têm um papel a desempenhar para manter as ilusões de Isiolo. "Durante o dia vestimos buyi-buyi (togas negras) e véus. À noite usamos roupas leves. Assim, ninguém sabe que somos prostitutas", contou Úrsula.

Durante muito tempo, esta vasta e árida fronteira setentrional do Quênia esteve esquecida pelas autoridades de Nairóbi. Mas a organização não-governamental de Rama faz o que pode para distribuir medicamentos anti-retrovirais para pessoas que começam a apresentar queda no sistema imunológico. Organizações de luta contra a aids calculam que cerca de 200 mil pessoas precisem desses remédios no Quênia. Tumaini também dá assessoramento psicológico aos portadores do vírus, dirige uma escola para órfãos da aids e abriga mulheres expulsas de suas comunidades por terem contraído o HIV.

Entre elas está Anna Longori, uma turkana viúva rejeitada por sua família. "Me sinto doente. Minha família me disse que não me queria mais, porque sou uma mulher má que lhes trouxe vergonha. Tumaini é agora a minha família", disse á IPS. Aziz Ngaruthi, de uma aldeia no distrito de Meru, chegou há poucos meses a Tumaini, mas para colaborar, depois que a aids tirou a vida de sua irmã mais nova. "As pessoas da minha comunidade odiavam minha irmã por ter HIV/aids. Inclusive, odiavam seus filhos. Então, decidi vir aqui para treinar, para poder ensinar aos outros a não odiar", contou.

Entretanto, Tumaini também ficou presa em uma luta cada vez mais dura com certos membros da conservadora comunidade de Isiolo. "Os homens daqui consideram que as mulheres são cidadãs de terceira classe. Assim, principalmente quando abordamos os problemas de sexo e sexualidade, ficam muito descontentes", disse Rama. "Os homens afirmam que brincamos ou que tentamos competir com eles. Supõe-se que as mulheres devem ser submissas, e quando tomamos a iniciativa eles se ofendem".

Entre as questões mais preocupantes mencionou o "jaal", prática comum aos borana e outros grupos: os homens compartilham suas esposas com outros. "É apenas uma desculpa para a promiscuidade", afirmou Rama. E também, acrescentou, o caminho ideal para a propagação da aids. O borana Ibrahim Abdullahi se queixou da resistência de Rama em opor-se a esta tradição. "O jaal é parte de nossa cultura. Khadija (Rama) é uma estúpida, não respeita nossos costumes", disse descontente. "O jaal promove a unidade entre os homens de nossa tribo, a fortalece. Mas esta mulher pensa que é um homem e quer destruir a tribo. A enfrentaremos !", afirmou.

Entretanto, Rama nunca teve medo de uma luta. As cicatrizes em suas mãos e braços testemunham isso. "Uma noite, depois que Khadija falou em uma reunião recomendando o uso de preservativo, alguns homens a atacaram em sua casa. Tentaram matá-la com uma "panga" (faca usada para cortar vegetação), mas Khadija não se deixou derrotar", contou Stephen Fani, encarregado das questões de alimentação em Tumaini. O incidente foi "puro roubo", minimizou Rama. A ativista disse acreditar em "um só refrão" em sua luta contra a discriminação de gênero e contra a aids: "Os homens sempre terão sua vontade, mas as mulheres terão seu caminho".

Rama não só foi classificada como traidora da cultura, como também da religião. "Estes preservativos não são o caminho do Islã", disse Abdiker Mohammed, membro de um clã somaliano. "Khadija não é uma boa mulher do Islã. Estes preservativos são os culpados por haver tanto sexo", ressaltou. Apesar desta onde de negação furiosa, Rama e seus seguidores ganharam o apoio de uma figura-chave, o imã (líder religioso) local, Rashid Haroun, que começou a pregar sobre os perigos do sexo de risco. Também abordou o abuso de mulheres e o estigma dos infectados e afetados pela aids.

"Em Isiolo vejo mais gente que aceita o fato de o HIV/aids ser uma ameaça real para os muçulmanos, e não uma doença ocidental e cristã, mas de toda a humanidade", disse Haroun. Embora estas palavras sejam animadoras para Rama, a ativista não faz uma pausa para saboreá-las. "Hoje sairemos e deixaremos preservativos nos bares, novamente. E outra vez muitas pessoas rirão de nós ou ficarão furiosas. Mas pode ser que um único homem os use, e então nossos esforços terão valido a pena", afirmou. (IPS/Envolverde)

Darren Taylor

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