Paris, 10/02/2006 – Cada vez mais jornalistas e caricaturistas da Europa condenam as ilustrações do profeta Maomé que, desde setembro passado, aprofundaram o violento abismo cultural entre o Ocidente o mundo islâmico. Na França, onde vários jornais reproduziram os desenhos publicados originalmente pelo jornal dinamarquês Jyllands-Posten como demonstração de apoio – segundo dizem – à liberdade de expressão, vários cartunistas condenaram a descrição de Maomé como terrorista.
"Uma ilustração desse tipo associa diretamente uma religião com o terrorismo, e isso é inaceitável", disse à IPS Pétillon, caricaturista da revista satírica parisiense Le Canard Enchaîné. "Não se pode dizer tudo o que se pensa sobre a comunidade muçulmana", afirmou. Jul, outro cartunista francês, disse à IPS: "Creio que as caricaturas de Maomé causaram tal histeria no mundo islâmico porque na Europa existe um profundo racismo antiárabe e antimuçulmano". Uma das 12 caricaturas representa o profeta portando uma bomba com o estopim aceso sobre sua cabeça, em lugar do turbante.
Os desenhos, impressos nas últimas semanas em jornais da Alemanha, Áustria, Espanha, França, Itália, Suíça e outros países europeus, provocaram uma onda de violentos protestos no mundo islâmico, incluindo ataques contra representações diplomáticas e choques com forças de segurança que causaram mortes. A Cúpula da Organização da Conferência Islâmica, que reúne 57 países muçulmanos, condenou em dezembro passado, na cidade de Meca, a publicação dessas caricaturas. O escritor sueco Jan Guillou afirmou, em declarações à IPS desde Estocolmo, que os desenhos dinamarqueses são "vulgares e covardes, pois têm a intenção de ofender a já angustiada minoria muçulmana imigrante".
A Associação de Jornalistas da Alemanha (DJV) criticou a reprodução das ilustrações pelos meios de comunicação que se solidarizaram com o jornal Jyllands-Posten. "As publicações, sejam em texto ou imagem, que insultam as convicções religiosas de uma comunidade são incompatíveis com a responsabilidade da imprensa", disse o porta-voz da DJV, Hendrik Zoerner. Muitos cartunistas políticos alemães condenaram os desenhos dinamarqueses. O destacado Klaus Staeck disse que teria rejeitado uma oferta para realizar semelhante trabalho. "São momentos ou situações em que a pessoa deve considerar as implicações de brincar com os outros", afirmou à IPS.
O cartunista político Gerhard Haderer qualificou a idéia de Jyllands-Posten como uma "estupidez", e recordou a proibição de qualquer representação da imagem de Maomé prescrita pelo Islã. "Como não sou muçulmano, e não posso compreender o fervor associado à essa religião, devo aceitar seus tabus", disse Haderer à IPS. Jyllands-Posten afirmou que as caricaturas foram publicadas para testar se o temor pelas represálias de muçulmanos havia começado a limitar a liberdade de expressão na Dinamarca.
O jornal encomendou as caricaturas depois que um escritor dinamarquês se queixou da falta de ilustrações para um livro seu sobre a vida de Maomé. Todos, segundo o autor, haviam recusado a encomenda por medo de represálias. Jyllands-Posten assegurou que tomou essa decisão editorial como mecanismo de defesa da "democracia secular e da liberdade de expressão". Doze cartunistas atenderam ao chamado do jornal. Curiosamente, o jornalista responsável pela publicação inicial das ilustrações, Carsten Juste, editor-geral do jornal dinamarquês, agora lamenta a decisão. Em uma declaração publicada no dia 31 de janeiro no site do jornal, Juste se desculpou por ofender os muçulmanos.
Porém, a caricaturas já haviam cobrado um alto preço diplomático na Dinamarca. Líderes religiosos e políticos de todo o mundo muçulmano convocaram um boicote aos produtos dinamarqueses e a Arábia Saudita retirou seu embaixador de Copenhague como demonstração de desagrado. Diante do pedido de vários países muçulmanos de que exigisse do jornal uma desculpa, o primeiro-ministro dinamarquês, Anderes Fogh Rasmussen, havia respondido: "a liberdade de imprensa é a base fundamental da democracia na Dinamarca, e o governo não tem mecanismos para influir sobre a imprensa".
Mas alguns comunicadores recordaram que a liberdade não é um direito absoluto na Europa, como pretendem alguns proprietários de órgãos de comunicação, e que os tribunais costumam emitir sentenças condenando jornalistas e artistas que questionam convicções religiosas. As associações católicas francesas "bombardeiam os jornais com queixas cada vez que acreditam que jornalistas e cartunistas ofendem os dogmas cristãos", disse Jul. O advogado Christian Scherz disse desde Berlim que as leis alemãs estabelecem pena de até três anos de prisão para quem insulta crenças religiosas. "Ao se referir a crenças a lei não se restringe às cristãs, mas a todas as religiões", afirmou.
O deputado e advogado alemão Christian Stroebele disse à IPS que por vários anos defendeu um grupo de comediantes processado por montar uma peça teatral que falava da virgindade de Maria, mãe de Jesus Cristo. Três tribunais diferentes condenaram o elenco a penas de prisão, até que um tribunal de apelação na cidade de Colônia os absolveu. Porém, alguns muçulmanos afirmam que as leis européias são aplicadas dependendo de quem acusa e que, portanto, é mais provável que se castigue um muçulmano que agrida os dogmas cristãos do que o inverso.
"Na semana passada, um muçulmano foi condenado a oito meses de prisão em Roma porque retirou um crucifixo do quarto do hospital onde estava internado", disse a escritora alemã de origem iraniana Navid Kermani. "Tais castigos são raramente questionados na Europa", afirmou. Ao mesmo tempo, recordou Kermani, o livro "The Rage and de Pride" (A fúria e o orgulho), da jornalista italiana radicada em Nova York Oriana Fallaci, descreve os muçulmanos como "ratos" e é vendido livremente em toda a Europa. (IPS/Envolverde)

