Migrações: Túmulos na fronteira

México, 23/02/2006 – Sexo masculino; nacionalidade e idade desconhecidas. Causa da morte: afogamento. Lugar e data: fronteira sul dos Estados Unidos, outubro de 2005. Esta ficha é de um emigrante latino-americano que acabou em uma vala comum, como outros milhares que morrem sem conseguir seu objetivo. Esta vítima é parte de uma lista de mais de 280 registradas no Estado norte-americano do Arizona entre 2004 e 2005 pela Coalizão de Direitos Humanos-Aliança Indígena desse país. No total, são mais de 3.800 as pessoas mortas na faixa de fronteira entre Estados Unidos e México desde 1993. Cerca de mil acabaram numa vala comum. Em sua primeira tentativa de chegar aos Estados Unidos ou outro destino pelas mais variadas vias e evitando os cada vez mais rígidos controles migratórios, milhares de latino-americanos e caribenhos encontram a morte após se perderem em zonas inóspitas, naufragar em alto mar, ser assassinado ou não suportar o fechamento em algum esconderijo improvisado. Ninguém sabe com certeza quantos são, mas os casos se repetem periodicamente. "Sabemos, agora, que inclusive há autoridades (de condados do Arizona) que queimam os corpos dos emigrantes que não são identificados, pois já não há lugar nas valas comuns", afirmou à IPS via telefone desde o Arizona a coordenadora da não-governamental Coalizão de Direitos Humanos-Aliança Indígena, Katarina Rodríguez.

Nos últimos casos conhecidos na América Latina e no Caribe, 25 haitianos morreram, em janeiro, asfixiados quando viajavam escondidos em uma caminhonete rumo à vizinha República Dominicana. Cubanos, equatorianos, guatemaltecos, haitianos, hondurenhos, mexicanos e salvadorenhos são as principais vítimas do fenômeno migratório, na região, segundo informações obtidas pela IPS. Pelo menos 15 em cada cem cubanos que tentam chegar aos Estados Unidos pelo mar morrem e seus corpos, na maioria dos casos, nunca são recuperados, diz uma dessas informações.

No ano passado, 31 cubanos desapareceram no naufrágio da lancha em que viajavam. Além disso, e em um caso insólito, uma jovem também cubana recebeu asilo político após chegar aos Estados Unidos dentro de um pacote postal que foi despachado pela agência da empresa DHL nas Bahamas. No México, desde 2005 a chancelaria distribui em zonas de fronteira e aeroportos cartilhas com advertências sobre os perigos de viajar para os Estados Unidos sem documentos e levados por traficantes de pessoas.

Em uma delas, chamada "Guia do Migrante", são apontados os riscos da viagem e os direitos consulares de quem for detido. Além disso, inclui recomendações sobre como agir quando já se vive nos Estados Unidos sem ter permissão de residência. O Equador faz algo semelhante desde janeiro, transmitindo mensagens pelos meios de comunicação. O objetivo é criar "consciência nas pessoas sobre os perigos da emigração ilegal ou de confiar em traficantes de seres humanos (chamados de coiotes)", diz um comunicado do governo desse país. Porém, as advertências e os perigos em nada muda os potenciais emigrantes.

Raúl, um mexicano de 26 anos, afirma que continuará tentando entrar nos Estados Unidos. "A migra (os agentes da imigração norte-americana) já me devolveram uma vez, e em outra os polleros (outro nome dos traficantes de pessoas) me roubaram tudo, mas logo tentarei novamente", afirmou. Um cubano de 32 anos, que preferiu não se identificar, disse algo semelhante: "Tentei sair de Cuba para os Estados Unidos pelas vias ilegais sete vezes, e sempre acontece alguma coisa. Mas enquanto não chegar não desisto", disse à IPS. Este entrevistado contou que uma vez foi detido em alto mar pela guarda-costeira dos Estados Unidos e, em outra, por autoridades de Cuba, e que também teve problemas com uma embarcação improvisada.

Noventa e oito equatorianos regressaram no último dia 20 às costas de seu país depois de o barco pesqueiro em que viajavam ter sido detido rumo à América Central, de onde pretendiam chegar por terra aos Estados Unidos. Na embarcação também havia 24 peruanos, um dominicano e três asiáticos. Em agosto passado, 94 equatorianos morreram afogados quando afundou a embarcação em que viajavam para a América Central, que tinha capacidade para 15 pessoas, mas transportava 103.

"Costa Rica, Guatemala e México são os destinos iniciais, nos quais os emigrantes em certos casos morrem ou são abandonados antes de chegarem aos Estados Unidos, seu destino final", afirmou à IPS Ivan Granda, porta-voz da estatal, mas, independente, Defensoria do Povo do Equador. A Direção Nacional de Migrantes desse país andino, que desde meados dos anos 90 registra uma maciça saída de pessoas rumo aos Estados Unidos e à Espanha, informou à IPS que entre 2002 e 2005 foram repatriados 496 cadáveres de emigrantes.

"Vemos que a situação está cada vez pior, que a cada ano há mais emigrantes mortos e que é muito difícil identificá-los, pois em certas ocasiões sós os ossos são encontrados", disse Rodríguez ao descrever a situação que ocorre nas zonas mais inóspitas do Arizona. A identificação da origem, nome e nacionalidade da vítima nem sempre é fácil, por isso muitos dos imigrantes acabam em valas comuns ou têm seus corpos incinerados, sem que suas famílias possam saber sobre seu destino.

Para enfrentar esse problema, o governo mexicano pôs em funcionamento no final de 2004 o Sistema de Identificação de Restos e Localização de Indivíduos. Trata-se de um programa computadorizado onde são inseridos dados e fotos dos mortos ou dados como desaparecidos na fronteira dos Estados Unidos. Quase 11 mil famílias mexicanas já preencheram um formulário com a maior quantidade de dados possíveis para iniciar o trâmite da busca no sistema e visitaram seus arquivos, onde há 299 fotos de cadáveres encontrados, entre eles 44 que carecem de registro de sexo devido ao estado avançado de decomposição em que foram encontrados.

Para não serem pegos, muitos dos que se dirigem à fronteira entre México e Estados Unidos tentam cruzar rios a nado, atravessar desertos com temperaturas extremas ou viajar escondidos em compartimentos selados de caminhões e trens. É no México onde muitos dos emigrantes encontram as maiores dificuldades para seguir sua viagem rumo aos Estados Unidos, país que deportou 235.297 emigrantes ilegais no ano passado, a maioria procedente de Guatemala, Honduras e El Salvador.

Autoridades mexicanas dizem que em 2005 foram encontrados em seu território 200 cadáveres de emigrantes e, além disso, a estatal, mas, independente, Comissão Nacional de Direitos Humanos denunciou em um relatório no final do ano passado que os estrangeiros procedentes da América Central sofrem neste país "altos índices de marginalização e maus tratos". A maioria dos imigrantes latino-americanos nos Estados Unidos procede do México, que também é território de trânsito de emigrantes de todas as nacionalidades para país vizinho. Mais de 400 mil pessoas teriam entrado este ano ilegalmente nos Estados Unidos e calcula-se que um milhão foram detidas e deportadas ao fracassarem em suas tentativas, segundo informes do governo mexicano. (IPS/Envolverde)

* Colaborações de Dália Acosta (Cuba) e Juan Carlos Frias (Equador)

Diego Cevallos

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