Londres, 15/03/2006 – A última reunião entre delegados de cinco países e da União Européia para recompor o diálogo internacional sobre comércio, realizada no final de semana na capital britânica, deixou uma sensação de desânimo entre ativistas pelo desenvolvimento do Sul pobre. Representantes de Brasil, Índia, União Européia, Estados Unidos, Japão e Austrália (o Grupo dos Seis, que representa as principais tendências e blocos dentro da Organização Mundial do Comércio) não conseguiram sair do ponto morto em que se encontravam. Os negociadores puderam informar sobre poucos avanços após mais de 12 horas de deliberações, divididas entre sábado e domingo, dirigidas a colocar em rumo certo a Rodada de Desenvolvimento de Doha de negociações da OMC, iniciadas em 2000 e cujo fim está previsto para dezembro. Os seis representantes tentaram avançar para um novo acordo mundial de comércio através do impasse surgido na sexta conferência ministerial da organização, que aconteceu em dezembro passado em Hong Kong.
As reuniões de Londres não integram as negociações multilaterais de comércio oficiais, mas a presença do diretor-geral da OMC, Pascal Lamy, foi apenas um sinal da importância dessa instância nas gestões com vistas a um acordo até o final de abril. Entretanto, isto parece improvável. Os delegados dos países industrializados não ofereceram nenhuma novidade em matéria de redução de subsídios agrícolas e de um aceleramento do cronograma para essa meta. Por sua vez, Brasil e Índia não apresentaram nenhuma abertura de seus mercados para bens e serviços industriais para países do Norte.
"Estamos desiludidos pela absoluta falta de flexibilidade por parte da UE e dos Estados Unidos", disse à IPS Alex Wijeratne, da organização de incentivo ao desenvolvimento ActionAid. "Queremos que União Européia e Estados Unidos retrocedam significativamente, para mostrar um compromisso muito maior com o conceito de desenvolvimento, mas simplesmente não o estão fazendo. Esta é uma grande decepção, embora não seja uma grande surpresa", acrescentou. A UE e os Estados Unidos procuravam "uma simples compensação: que países em desenvolvimento como Brasil e Índia abram seus mercados aos bens industriais sem irem muito mais além na agricultura", disse à IPS Peter Hardstaff, do não-governamental Movimento pelo Desenvolvimento Mundial. "O que está sobre a mesa é essencialmente um mau acordo para países em desenvolvimento, que significará uma perda a longo prazo de opções políticas para eles", acrescentou. "Nossa avaliação sempre foi que nenhum acordo é melhor do que um mau acordo", ressaltou.
A pressão aumentou com a proximidade das próximas conversações da OMC, previstas para final de abril e, em seguida, para julho, com o objetivo de completar um acordo final da Rodada de Doha até o final deste ano. Esse prazo foi estabelecido porque resta pouco tempo para cumprir o requisito dos Estados Unidos, que pretendem apresentar um acordo ao Congresso para que o aprove para meados do próximo ano, disse Hardstaff. "Agora, é hora de tomar a grande decisão de ter um acordo ou pensar em algum outro caminho", afirmou. Organizações de incentivo ao desenvolvimento querem que os países industrializados lembrem no acordo que as conversações da Rodada de Doha, lançada na capital do Qatar há cinco anos, tem a finalidade de construir um acordo que dê aos países pobres meios para se desenvolverem através do comércio.
"Essa idéia de desenvolvimento voou janela afora no ano passado", disse Hardstaff. "Mas os países em desenvolvimento têm o direito de perseguir as políticas que as nações agora industrializadas seguiam quando estavam em desenvolvimento". Que Brasil e Índia não tenham ficado atrás nas conversações do final de semana é um bom sinal, afirmou Wijeratne. As negociações mostraram "um sentido de maturidade, de negociação igualitária. Não se sente que existe um sócio menor nestas discussões", afirmou. As deliberações do final de semana "geraram um sentido de confiança no Brasil e na Índia, que parecem estar trabalhando muito bem como unidade. Gostaríamos de ver esses dois países fazer cada vez mais pelo desenvolvimento". Mas enquanto ambos se mantêm firmes, existe uma crescente sensação de risco em torno das conversações. (IPS/Envolverde)

