Água: As mulheres podem fazer a diferença

México, 21/03/2006 – Milhões de meninas e mulheres em países pobres caminham seis quilômetros por dia para levar para casa uma média de 20 litros de água. Outras tantas abandonam a escola e o trabalho por não contar nem mesmo com uma latrina. Considerar o drama dessas pessoas em projetos de água, saneamento e higiene, ajudaria a saírem da pobreza por seus próprios meios. Se as mulheres participassem na definição desses planos, o benefício comunitário se multiplicaria, diz um informe apresentado no IV Fórum Mundial da Água, que acontece no México. Os serviços de água "são mais efetivos se as mulheres têm um papel ativo", diz o documento intitulado "Para ela é um grande tema: colocar a mulher no centro do abastecimento de água, saneamento e higiene", divulgado pelo não-governamental Water Supply and Sanitation Collaborative Council (WSSCC), com sede em Genebra, na Suíça. "Isto não é teoria, com a participação das mulheres é mais fácil fazer qualquer tipo de projeto", disse Maria Mutagamba, ministra da Água de Uganda e presidente do Conselho de Ministros Africanos para essa área. Em "meu país e na África" em geral há muito por fazer em saneamento, mas esse desafio se torna mais fácil quando as mulheres participam, afirmou Mutagamba durante a apresentação do documento. Na África são registradas as taxas de cobertura de água e saneamento mais baixas do mundo. Segundo estudos da Organização das Nações Unidas, o abastecimento em cinco países dessa região está abaixo dos 40% e o saneamento em zonas rurais fica no mesmo nível, ou, abaixo, em 11 países.

Alice Bouman, presidente do não-governamental Women for Water Partnership, com sede na Holanda, disse à IPS que "nossa experiência nos mostra que os projetos de água são mais eficazes se são feitos não para, mas com as mulheres", afirmou. "As mulheres não querem ser consideradas um grupo vulnerável, mas parte das comunidades e partícipes das soluções", ressaltou. Segundo a WSSCC, sua promoção de programas de água, saneamento e higiene indica que quando se leva em conta as mulheres existe "um aumento no comparecimento às escolas e uma redução na taxa de abandono de deserção entre mulheres jovens e meninas".

Incontáveis exemplos e experiências de diferentes partes do mundo parecem reforçar este fenômeno, afirma a organização. Quando em Sri Lanka e Malásia as mulheres tomaram parte em programas de saúde, sua expectativa de vida aumentou de 58 para 69 anos e as mortes maternas caíram 70%, afirma o estudo. Na aldeia nigeriana de Bashibo foram construídas em 1999 uma fossa céptica, bombas de água manuais e latrinas separadas para meninos e meninas. Além disso, foi criado um clube escolar de saúde ambiental para promover a higiene. Graças a esse plano, a presença nas escolas, sobretudo de meninas, aumentou, bem como o nível de saúde em geral e o estado nutricional da comunidade, acrescenta o documento.

De acordo com a WSSCC, "a falta de saneamento básico e de água potável é um problema grave para as mulheres e meninas que vivem em bairros pobres e superpovoados, bem com em zonas rurais do mundo em desenvolvimento. Muitas têm de esperar até que escureça para urinar ou evacuar, em situações de medo e em uma realidade de assédio e ataques sexuais", pois não contam com um banheiro ou uma latrina com o mínimo de privacidade. Como responsáveis e agentes centrais na vida comunitária, "as mulheres têm um papel crítico a desempenhar" em todo projeto de desenvolvimento, disse o argentino Roberto Lenton, presidente do WSSCC. Em matéria de água, sua contribuição pode ser gigantesca. Se todas as mulheres aprendessem e ensinassem a lavar as mãos, isso diminuiria os problemas de diarréia em até 50% em suas comunidades, ressaltou.

O Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) indica que cerca de 4.500 meninos e meninas morrem diariamente por causa do consumo de água imprópria e pela falta de higiene e instalações sanitárias. Segundo essa agência da ONU, quase a metade dos dois milhões de mortes anuais por diarréia poderia ser evitada por meio de "uma melhor compreensão da higiene básica". A presidente do Women for Water Partnership concorda com Lenton sobre o peso feminino nos projetos em desenvolvimento. "Mas é importante que os programas de saneamento e água não considerem as mulheres um grupo especial, mas uma parte a mais da comunidade", insistiu.

Esta organização é uma aliança internacional de organizações e redes de mulheres que afirma promover o desenvolvimento sustentável desde a perspectiva da mulher e apoiar a consecução dos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio, definidos em 2000 pela Organização das Nações Unidas. Embora no mundo haja água suficiente para todos, 1,1 milhão de pessoas não contam com esse recurso e 2,6 milhões carecem de acesso a latrinas mais rudimentares.

Entre os Objetivos do Milênio os governos do mundo se comprometeram a reduzir pela metade a proporção de pessoas sem água potável até 2015. Com exceção da África subsaariana, o mundo está bem encaminhado para alcançar os objetivos relativos à água e ao saneamento, afirma o Unicef. É preciso apoiar mais a África, onde agora mesmo milhões de menores, especialmente meninas, abandonam as escolas apenas pelo fato de não ter uma latrina, disse Vanessa Tobin, chefe do departamento de Água, Meio Ambiente e Saneamento do Unicef.

Os organizadores do IV Fórum Mundial da Água, que termina na próxima quinta-feira, asseguram que um de seus propósitos centrais é contribuir para o cumprimento dos Objetivos do Milênio. O Fórum, com mais de 13 mil participantes, é organizado desde 1997, a cada três anos, pelo Conselho Mundial da Água, um grupo privado integrado por empresários, acadêmicos e especialistas da ONU. Embora não sejam um âmbito intergovernamental nem emita acordos vinculados, é considerado o principal espaço para discutir temas relativos aos recursos hídricos no mundo. (IPS/Envolverde)

Diego Cevallos

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