Curitiba, 28/03/2006 – O presidente Luiz Inácio Lula da Silva fustigou os países ricos e tecnologicamente avançados por não assumirem sua responsabilidade na luta contra a pobreza e a degradação ambiental. "Estamos preocupados pelas reduções no financiamento ao desenvolvimento", disse Lula perante quatro mil funcionários governamentais de todo o mundo, entre eles uma centena de ministros de Meio Ambiente, na conferência das partes do Convênio sobre a Diversidade Biológica, cuja última fase começou nesta segunda-feira em Curitiba (PR). Apesar dos reiterados compromissos, muitos países industrializados não cumpriram as metas de ajuda oficial ao desenvolvimento. Nesta conferência, que está em sua terceira e última semana, Lula não foi o único representante do Sul a manifestar sua preocupação a esse respeito.
Em seu discurso de abertura da fase ministerial da conferência, o Presidente também questionou o Norte industrial pelo "critério insustentável" de seu uso dos recursos naturais mundiais, o que origina – afirmou – um alarmante nível de pobreza. "As nações industrializadas gastam cerca de US$ 900 bilhões para defender suas fronteiras nacionais. Mas dedicam apenas US$ 60 bilhões para o desenvolvimento nos países pobres onde a fome se converteu em silenciosa arma de destruição em massa", advertiu Lula.
O Presidente considera que o Norte deixou de lado voluntariamente a ampla e crescente brecha entre ricos e pobres, pois continua apelando para um modelo de desenvolvimento que não dá lugar à possibilidade de compartilhar coletivamente os recursos, o que implica uma falta de preocupação pela degradação e destruição do meio ambiente. "A biodiversidade é o maior tesouro de nosso planeta. Qualquer coisa que contradiga sua conservação e a possibilidade de compartilhar seus benefícios de maneira justa deve ser rejeitada. É tempo de agir. É tempo de mudar", afirmou.
No final de semana, mais de cem ministros de meio ambiente chegaram a Curitiba com a finalidade de estabelecer mecanismos que revertam os efeitos adversos do desenvolvimento insustentável sobre a biodiversidade. O Convênio da Organização das Nações Unidas tem objetivos concretos que devem ser alcançados até 2010. Sua implementação requer a acessibilidade aos recursos genéticos, bem como a divisão justa e eqüitativa dos benefícios na transferência de tecnologia, com adequado financiamento. Lula fez suas críticas em um momento em que as delegações continuam negociando sobre vários assuntos conflitivos, entre eles o financiamento à defesa da biodiversidade. O presidente acredita que suas críticas não cairão no vazio, pois as ações empreendidas por seu governo convertem o Brasil em um modelo ambiental.
No mês passado, por exemplo, Lula assinou um decreto para proteção de seis milhões de hectares da Amazônia. Ao mesmo tempo, seu governo se associou com a Aliança Brasileira pela Extinção Zero. Na semana passada, o Brasil liderou a posição contrária à admissão do teste e da comercialização de sementes transgênicas que produzem grãos estéreis. "Tudo o que ameace a vida é inaceitável", disse o Presidente a esse respeito. O governo brasileiro também recebe aplausos por impulsionar na comunidade internacional o Protocolo de Cartagena, como é conhecido o acordo sobre biosegurança no contexto do Convênio sobre Diversidade Biológica.
"Por suas contribuições ao cumprimento da promessa sobre biodiversidade para 2010, quero dizer, na qualidade de simples cidadão do mundo e em meu nome, no de minha mulher e de meus filhos, obrigado, senhor Presidente", disse a Lula Ahmed Djoghlaf, secretário-executivo do Convênio. Lula expressou seu descontentamento pela lentidão dos avanços na implementação do Convênio, a qual considera resultado da falta de vontade política no mundo industrial. "Desde 1992, quanto se avançou? Assinamos muitos protocolos, mas não oferecemos nada além de protocolos", acrescentou. As negociações entre ministros do Meio Ambiente consumirão os próximos dias da conferência das partes. (IPS/Envolverde)

