Biodiversidade: Responsabilidade de cada cidadão da Terra

Curitiba, 28/03/2006 – "Os governos têm um papel a cumprir, mas proteger a biodiversidade é responsabilidade de cada cidadão do mundo", disse à IPS o secretário-geral do Convenio sobre a Diversidade Biológica, Ahmed Djoghlaf. A conferência das partes do Convênio, que acontece até o final do mês em Curitiba (PR), tomará uma ampla gama de decisões relativas à aplicação deste tratado da Organização das Nações Unidas, ratificado por 159 países. O principal organizador da reunião, da qual participam centenas de ministros, políticos, cientistas e ativistas, foi Djoghlaf, diplomata argelino que também dirigiu o Fundo Global para o Meio Ambiente (GEF) e ocupou altos cargos no Programa das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente (Pnuma). Antes de sua designação como secretário-executivo do Convênio sobre Diversidade Biológica no começo deste ano, Djoghlaf supervisionou cerca de 600 projetos ambientais em mais de 160 países.

A seguir um resumo de uma entrevista concedida por Djoghlaf à IPS em Curitiba.

P- Como o senhor avalia a ação dos governos signatários do Convênio? R- Levando em conta que a conservação da biodiversidade está na agenda da comunidade internacional desde que o parque norte-americano de Yellowstone foi declarado área protegida em 1869, creio que agora estamos ingressando em uma nova etapa. A primeira cúpula sobre desenvolvimento sustentável aconteceu em 2002. Antes, o meio ambiente e o desenvolvimento eram considerados dois assuntos separados. O uso sustentável da biodiversidade é uma nova área, o uso justo e eqüitativo dos recursos é uma nova área, e isso é o que o Convênio tem de belo. Portanto, o pilar é a conservação, e depois você deverá saber como usá-lo de maneira sustentável. Em terceiro lugar, rege uma nova ética na relação entre o fornecedor de recursos genéticos e o usuário. E, naturalmente, a convenção trata com setores multimilionários – grandes firmas biotecnológicas, grandes laboratórios farmacêuticos – por essa razão tudo isto leva tempo. Como recém-chegado, vejo que o Convênio conseguiu um pouco em diretrizes, um pouco em mecanismos, um pouco quanto aos povos indígenas, um pouco em idéias.

P- Quanto representa a participação dos povos indígenas no processo de implementação do Convênio? R- Há mais de cem povos indígenas participando da conferência das partes. O processo de contribuição de povos indígenas e comunidades locais está disposto no próprio texto do Convênio. Na primeira conferência, decidiu-se contar com um funcionário em tempo integral dedicado por completo a atender a população indígena.

P- Delegados de muitos países em desenvolvimento se queixam na conferência da falta de recursos. Acredita que os países ricos e industrializados têm uma responsabilidade nesse sentido? R- O financiamento é extremamente importante. Sem o GEF, não creio que estivéssemos aqui hoje. O financiamento da implementação do Convênio é crucial. É Suficiente? Não. Mas o Fundo sobre Mudança Climática apresenta muito êxito, além dos mecanismos financeiros para estabelecer o que hoje chamamos de Fundo Marrakesh. O Convênio devem pensar como mobilizar recursos financeiros de maneira inovadora, pois o desafio é enorme. O Convênio sobre a Diversidade Biológica atende aos ecossistemas, sem exceção. Portanto, a quantidade de dinheiro necessária para sua implementação não tem ponto de comparação com outras convenções. De que se trata o Convênio? Sobre a proteção da vida na Terra. Pode-se dar um valor em dólares à existência da humanidade na Terra?

P- Qual é o papel da sociedade civil na implementação do Convênio? R- Todos estes movimentos ambientais, incluindo o Pnuma, são conseqüência da mobilização da sociedade civil, e o Convênio também. A sociedade civil e as organizações não-governamentais realizaram uma enorme contribuição ao pressionar os governos para que adotassem um acordo sobre biodiversidade de caráter obrigatório. Agora, peço às ongs que redobrem seus esforços, porque o desafio é maior. Temos um grande acervo de documentos e decisões, e chegou a hora de implementá-los. Naturalmente, os governos têm um papel a cumprir, mas é responsabilidade de cada cidadão do mundo proteger a biodiversidade.

P- Muitas ongs são céticas sobre o papel das grandes empresas na proteção da biodiversidade e em sua influência sobre as decisões oficiais. Nesta conferência já houve várias manifestações contra a indústria da biotecnologia, que pretende testar sementes geneticamente modificadas para vendê-las a agricultores do Sul em desenvolvimento. O que o senhor pensa sobre isso? R- Não se pode impedir os empresários de fazerem negócios. Estão estabelecidos para isso. Fornecem mercadorias que você e eu compramos. Fazer negócios, tudo bem. Mas precisamos de negócios verdes. Se você, por exemplo, decide que não precisa mais usar sacos plásticos, não irá mais comprá-los. Nesse caso, pensa que o empresário continuará a produzi-los? Enquanto, como consumidores, continuarmos em busca de produtos prejudiciais ao meio ambiente, os empresários continuarão a fabricá-los. O empresariado que quero no longo prazo é o verde. Cada vez mais e mais consumidores estão dispostos a pagar mais caro por produtos que não afetam o meio ambiente. Se os empresários querem continuar no mercado, deverão adotar suas tendências. Mas ainda devemos comprometer o setor privado com a implementação deste Convênio, que, do contrário, não terá êxito.

P- As negociações sobre vários assuntos da conferência estão longe de terem acabado. O senhor está otimista sobre o resultado? R- Sou otimista sobre o futuro deste Convênio porque se trata de nossa vida. Estamos falando da vida de nossos filhos. Vim aqui em janeiro discutir os preparativos com os brasileiros. Disse-lhes que a conferência seria histórica, e estamos fazendo história no tocante à quantidade de participantes. Nunca uma conferência das partes do Convênio recebeu quatro mil delegados. Virão cem ministros. Na última conferência houve apenas 60. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o primeiro-ministro britânico, Tony Blair, assinaram há pouco uma declaração conjunta se comprometendo com a implementação e com os objetivos do Convênio, e tenho muitas esperanças de que a próxima Cúpula dos Oito em São Petersburgo, na Rússia, assuma a mensagem de Curitiba. (IPS/Envolverde)

Haider Rizvi

Haider Rizvi has written for IPS since 1993, filing news reports and analyses from South Asia, Washington, D.C. and New York. Based at United Nations headquarters, he specialises in international human rights issues and sustainable development as well as disarmament, women's rights, and indigenous peoples' rights. He is a two-time winner of the Project Censored Award.

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