Bangkoc, 23/01/2005 – No Natal de 2001, o vocalista da banda de rock U2, Bono, escreveu a canção "Walk on"(Continue caminhando) dedicada à dirigente da oposição democrática birmanesa Aung San Suu Kyi. "Poderia ter voado, um pássaro que canta em uma gaiola aberta que somente voará, somente voará pela liberdade", diz a letra. Três anos depois, Suu Kyi, prêmio Nobel da Paz, ainda é uma prisioneira na Birmânia e novamente passará o Natal em prisão domiciliar por ordem da junta militar. "Suu Kyi, com um ideal extremamente grande para qualquer prisão e um espírito extremamente forte para qualquer exército, muda nossa forma de pensar, como só podem fazer os verdadeiros heróis, disse Bono certa vez. "Ela precisa de apoio internacional firme e sem compromissos, tão inflexível e decidido como ela própria", acrescentou.
O forte espírito de Suu Kyi novamente será colocado à prova em 2005, já que a junta decidiu, no mês passado, estender por mais um ano sua reclusão. Na semana passada, o secretário-geral da Organização das Nações Unidas, Kofi Annan, disse estar "seriamente preocupado" pelo fato de a junta militar birmanesa ter imposto restrições ao trabalho do médico de Suu Kyi, bem como à sua segurança pessoal. A Secretaria Geral da ONU "lembra às autoridades de Myanmar (Birmânia) que tem a responsabilidade de garantir a segurança de Aun San Suu Kyi", afirmou Annan em um comunicado. O porta-voz do Departamento de Estado dos Estados Unidos, Richard Boucher, também expressou a preocupação de Washington pela situação da líder democrática.
As autoridades birmanesas reduziram de 13 para seis os membros da segurança pessoal de Suu Kyi em sua casa em Rangun, e de três para uma as visitas de seu médico particular, informou a opositora Liga Nacional pela Democracia (NLD). Suu Kyi foi submetida a uma cirurgia em setembro de 2003, segundo seu médico por problemas ginecológicos. A NLD disse que agora somente duas mulheres acompanham a líder política para ajudá-la nas tarefas de casa. As Forças Armadas que governam a Birmânia desde o golpe de estado de 1962 demonstram pouco respeito pelas liberdades políticas e civis e pelos direitos humanos. As dissensões e os proclamas de liberdade costumam chocar-se com a força bruta, em forma de cassetetes e balas.
Khin Nyunt foi designado primeiro-ministro no dia 25 de agosto de 2003, depois que um ataque cometido por sicários contra Suu Kyi causou indignação mundial. Pouco depois, o flamante chefe de governo lançou uma ofensiva de sedução dirigida aos seus vizinhos do sudeste asiático e à comunidade internacional para convencê-los do compromisso de Ramgun com uma reforma política. Mas, em outubro, o chefe da junta, Than Shwe, decidiu expulsá-lo do cargo para concentrar todo o poder, o que implicou um retrocesso no que pareciam tímidas reformas. Este é o terceiro período de prisão domiciliar que Suu Kyi suporta desde 1988, quando assumiu a liderança da luta pela democracia. Em 1991, a dirigente do NLD recebeu o prêmio Nobel da Paz por sua resistência não-violenta e sua defesa dos direitos humanos.
A NLD venceu as eleições de 1990, mas a junta negou-se a reconhecer o resultado. Suu Kyi é filha de Aung San, herói da luta pela independência do poder colonial britânico nos anos 40, assassinado em 1947. Debbie Stothard, da organização defensora dos direitos humanos Rede Alternativa da Associação de Nações do Sudeste Asiático pela Birmânia (ALTSEAN), está convencida de que a líder democrática não se renderá diante da pressão militar. "Suu Kyi já passou o pior com a morte de seu marido, Michael Aris. Esse foi o momento mais obscuro de sua vida, e ela o superou", disse à IPS. "Seus partidários sabem que cada vez que é libertada volta mais forte. Adquiriu uma resistência asombrosa e já a vimos por duas vezes", acrescentou.
Aris, um acadêmico britânico, morreu em março de 1999 vítima de câncer. As autoridades birmanesas não permitiram que visitasse sua mulher em Rangun em seus últimos dias de vida. Sabendo que se viajasse para a Grã-Bretanha não a deixariam retornar, Suu Kyi decidiu ficar sem ver o marido. No dia em que Aris faleceu, Suu Kyi recebeu em Rangun a visita de amigos e partidários, incluindo diplomatas de alto nível da Europa e dos Estados Unidos. O prognóstico para 2005 sobre a Birmânia é obscuro, segundo a ALTSEAN. Depois de um enfrentamento entre partidários de Suu Kyi e fiéis à junta, na localidade de Depayin, em maio de 2003, o governo realiza uma campanha para acabar com todos os grupos democráticos.
Até fevereiro último, cerca de 262 pessoas foram detidas, assassinadas ou estão desaparecidas, segundo grupos defensores dos direitos humanos. "Entre os detidos há muitos líderes da NLD. Depois de maio do ano passado, o Conselho de Estado para a Paz e o Desenvolvimento (nome oficial da junta) fechou a maioria dos escritórios da Liga em todo o país", diz um relatório da ALTSEAN. "Para a Birmânia, 2005 será um ano de grande incerteza, no qual os mais radicais do governo serão insensíveis à pressão externa. Devemos esperar que mais dirigentes da NLD sejam detidos", alertou Stothard. (IPS/Envolverde)

