No Quénia, Ser Pequeno é Ficar Vulnerável

NAIROBI , 27 de agosto de 2013 – Com a segurança alimentar e os meios de subsistência dos agricultores em risco devido às alterações climáticas, o Quénia tem opções políticas divergentes. Uma dessas opções está dependente da utilização de novas tecnologias e da melhoria e expansão de fertilizantes e pesticidas, enquanto que a outra opção está virada para os conhecimentos locais e a biodiversidade natural do país.

Em jogo está a sobrevivência dos pequenos agricultores do país perante condições climáticas sem precedentes.

Segundo o Ministério da Agricultura, estima-se que cinco milhões dos cerca de oito milhões de agregados familiares no Quénia dependem directamente da agricultura para seu sustento. Mas os agricultores quenianos – particularmente os pequenos agricultores – enfrentam tempos difíceis devido às condições climáticas extremas.

Os dados relativos à última época vegetativa continuam a tendência preocupante recente segundo a qual as principais fontes de água do país produzem menos agora do que no passado.

“Muitos dos rios e riachos alimentados no Monte Quénia, Complexo Mau, Aberdares, Colinas Cherangani e Monte Elgon produzem agora menos água, ou então ficam completamente secos durante a estação seca,” afirmou à IPS Joshua Kosgei, um funcionário de extensão agrícola em Elburgon, na província do Vale do Rift.

O relatório nacional sobre o Quénia compilado pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO) relativo ao período 2012/2013 indica que a precipitação entre Outubro e Dezembro, ou estação das “pequenas chuvas”, esteve muito abaixo da média. Além disso, explica o relatório: “Uma série de períodos secos também causou uma fraca capacidade germinativa, aumentando as necessidades de replantação (até três vezes mais) e levando à murchidão e secagem das colheitas.”

De acordo com o Instituto de Investigação Agrícola do Quénia (KARI), mais de 10 milhões de um total de 40 milhões de pessoas no Quénia vivem em situação de insegurança alimentar, e a maioria destas pessoas sobrevive da ajuda alimentar.

O sector agrícola é responsável por cerca de 25 por cento do PIB deste país da África Oriental e por pelo menos 60 por cento das suas exportações. As estatísticas governamentais indicam ainda que a produção em pequena escala representa pelo menos 75 por cento da produção agrícola total e 70 por cento dos produtos agrícolas vendidos no mercado.

O chá, uma das principais exportações do país e que, segundo o Gabinete Nacional de Estatísticas do Quénia, está avaliado em 1.17 biliões de dólares, encontra-se entre as colheitas em maior risco. Os especialistas calculam que as alterações climáticas possam custar aos produtores de chá mais de 30 por cento das receitas de caixa.

“O chá é muito sensível às alterações climáticas,” afirmou Kiama Njoroge, um funcionário de extensão agrícola no centro do Quénia, à IPS. “Em resultado, 500.000 pequenos agricultores enfrentam incertezas quanto à sua subsistência.”

Joel Nduati, um pequeno agricultor do centro do Quénia, acrescentou: “A falta de informação em relação a intervenções que consigam fazer face às alterações climáticas são o nosso problema principal.”

Nduati disse à IPS que um outro problema que os agricultores tinham de enfrentar era a escassez de água. “Há demasiada água quando não precisamos dela e depois estações prolongadas com períodos de seca. Precisamos de uma variedade de culturas que resistam a estas mudanças.”

Contudo, de acordo com Kosgei, já foram desenvolvidas intervenções destinadas a combater as alterações climáticas. O que falta é uma maneira eficaz de comunicar essa informação aos agricultores.

“Por exemplo, a Fundação do Quénia para a Pesquisa do Chá desenvolveu 45 variedades de chá mas muitos agricultores ainda não as adoptaram porque não sabem que elas existem,” declarou Kosgei.

Acrescentou que o Instituto de Investigação Agrícola do Quénia desenvolveu cinco novas variedades de batatas e diversas variedades de couves. “Mas quantos agricultores sabem disto ou adoptaram estas novas variedades?”

A divulgação deste tipo de informação é dificultada pela escassez de funcionários de extensão agrícola. Segundo a Associação Internacional para a Agricultura e Desenvolvimento Rural, embora a FAO recomende que deve haver um funcionário de extensão agrícola para cada 400 agricultores, actualmente o Quénia apenas tem um funcionário de extensão agrícola para cada 1.500 agricultores.

De acordo com Njoroge, funcionário de extensão agrícola, os pequenos agricultores no Quénia só produzem um quinto daquilo que podiam produzir.

Mas nem todas as pessoas concordam com as afirmações de Kosgei.

“A solução é regressarmos aos conhecimentos locais que promovem um movimento de base agro-ecológico alargado, uma abordagem que aproxima estratégias agrícolas que não recorrem a químicos,” afirmou à IPS Gathuru Mburu, coordenador da Rede de Biodiversidade Africana.

“Os agricultores produzem de forma inadequada devido ao uso excessivo de químicos. A agro-ecologia usa estrume. Os restos das colheitas anteriores podem também ser utilizados como estrume,” explicou Mburu.

Njoroge concordou, afirmando que países como o Ruanda, a Etiópia e o Gana estão a alcançar progressos significativos no sentido de melhorar a segurança alimentar e os meios de vida devido à utilização dos conhecimentos locais.

Mas a opção agro-ecológica é vista por alguns como virar as próprias costas às novas tecnologias que têm enorme potencial.

“Criminalizar os químicos não é solução. Os agricultores têm de adoptar as inovações científicas,” disse à IPS John Kamangu, investigador de biodiversidade. “Precisamos de modificações genéticas que nos permitam produzir sementes resistentes a temperaturas mais elevadas e à precipitação mais intensa.”

Mas Mburu é contra a dependência das grandes multinacionais do sector agro-industrial para delinear as estratégias de combate às alterações climáticas, avisando que essa postura não tinha sido proveitosa em África.

“Os governos africanos estão a abdicar da sua responsabilidade financeira para com o sector agrícola, criando margem de manobra para que as multinacionais proporcionem financiamento ao mesmo tempo que exploram África,” lamentou.

“Estas são as companhias que desenvolvem e vendem químicos. As suas sementes têm tendência para precisar de muitos químicos para se desenvolver. Também crescem só em áreas específicas,” acrescentou Mburu.

Kosgei concordou, afirmando que estas multinacionais apenas se preocupam com as margens de lucro e não com a alimentação dos africanos.

Mburu está preocupado também com o facto de,que ao abrir caminho para as multinacionais, o governo adopte políticas que irão prejudicar os pequenos agricultores que ainda produzem pelo menos 70 por cento dos alimentos no país.

“As multinacionais estão por detrás de diversas políticas que criminalizam o sector informal, ou seja, os pequenos agricultores. Algumas das políticas que estã a ser consideradas são a lei das sementes e a lei contra a contrafacção,” explicou Mburu. “A lei contra a contrafacção está a exercer pressão a favor das sementes certificadas. Os quenianos que utilizam sementes locais (não certificadas) deixarã de poder utilizá-las quando esta lei entrar em vigor.”

Mburu declarou que estas sementes “nada têm a ver com as alterações climáticas. Estas sementes são controladas por seis companhias no mundo e representam um investimento de vários biliões de dólares. Não são apropriadas ao nosso ecossistema quando comparadas às sementes autóctones.”

 

Miriam Gathigah

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