Maputo, 06/04/2006 – Enfermeiros de Moçambique realizarão e supervisionarão tratamentos anti-retrovirais, tarefas normalmente realizadas por médicos, devido à escassez de trabalhadores sanitários e sua má distribuição neste país da África austral. A novidade chama a atenção pública devido à comemoração nesta sexta-feira do Dia Mundial da Saúde. O lema este ano é "Trabalhar juntos pela saúde". Em Moçambique há dois médicos para cada cem mil pessoas, segundo o Informe de Desenvolvimento Humano 2005 elaborado pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento. Nos Estados Unidos existem 549 médicos para cada cem mil habitantes. Além disso, a maioria dos médicos está radicada em Maputo, embora apenas cerca de 10% dos 18,2 milhões de moçambicanos vivam na capital. Mesmo nos melhores tempos, a baixa proporção de médicos em relação ao número de pacientes e a má distribuição do pessoal sanitário significariam um grande desafio para a saúde. Mas se a isso se acrescentar o fator aids (síndrome de deficiência imunológica adquirida) a situação se torna mais problemática. Dados oficiais indicam uma prevalência do HIV (vírus da deficiência imunológica humana, causador da aids) de 16,2% entre os moçambicanos entre 15 e 59 anos. Trata-se de um dos registros mais altos do mundo. Atualmente, há cerca de 1,5 milhão de pessoas vivendo com HIV e aids neste país.
Para enfrentar esta situação, Moçambique permitiu que enfermeiros administrem e controlem o tratamento anti-retroviral necessário para a sobrevivência dos pacientes com aids. "Não temos médicos em cada distrito, e os que estão ali também precisam de apoio extra nos tratamentos anti-retrovirais", disse à IPS Marinho Dgedge, porta-voz do Ministério da Saúde. Estima-se que cerca de 200 mil moçambicanos precisam desses medicamentos. Em janeiro, 20.375 pessoas recebiam esses remédios do governo, que é apoiado nessa tarefa por várias organizações não-governamentais.
A maioria dos 40 centros onde são aplicadas as terapias fica nas capitais provinciais ou concentrados na zona meridional deste país vasto e escassamente povoado. A maioria dos que residem nas áreas rurais, sobretudo no norte, não tem acesso a esses medicamentos. "A capacitação dos enfermeiros é chave para a descentralização", destacou Dgedge. Estes profissionais recebem apenas dois anos de formação clínica em Moçambique, muito menos do que os médicos.
Mas o diretor da Iniciativa para o HIV/aids da Fundação Clinton em Moçambique, George Jagoe, disse que "não podemos olhar dogmaticamente os modelos norte-americano e europeu quando realizamos tratamentos na África, porque não existe o luxo de ter tantos médicos nem as mesmas condições. A epidemia de HIV/aids está dizendo 'estou por todo lado?, assim, o tratamento tem de ser integrado aos serviços rurais de saúde", acrescentou. A fundação, com sede na cidade norte-americana de Little Rock, foi criada pelo ex-presidente Bill Clinton (1993-2001) para promover o desenvolvimento internacional em várias áreas, incluindo a saúde. Ela teve um papel-chave na redução do custo da medicação para a aids nos países pobres.
A primeira turma de funcionários da saúde capacitados para tratamentos anti-retrovirais este ano consistiu de 25 estudantes, que representaram as 11 províncias de Moçambique. Custódio Francisco Bambo estava entre eles. Embora já houvesse trabalhado por três meses com médicos experientes no trato de pacientes com aids em Maputo, o curso teórico-prático de duas semanas "consolidou o que havia aprendido", disse à IPS. Suas consultas com novos pacientes que iniciam a terapia duram, em média, de 20 a 30 minutos. O paciente, no começo, recebe o material a cada duas semanas, e, depois, mensalmente.
"Para conseguir a observância do tratamento é importante ter tempo para aprender tudo sobre o paciente: suas responsabilidades no lar, sua dieta, sua renda, o apoio da família e o quanto precisam viajar para obter os remédios", explicou Bambo. Em certas ocasiões, entretanto, os pacientes podem fracassar em sua tentativa. Bambo contou que quando começou seu trabalho um jovem de 25 anos foi levado por seu irmão desde sua aldeia na província de Gaza até Maputo para receber tratamento. Seu parâmetro CD4 era menor que 25. Este valor indica o nível de células imunes em uma pessoa com HIV. Quando o registro é inferior a 200, deve-se iniciar a terapia anti-retroviral.
O jovem começou a receber a medicação, mas voltou para sua aldeia dentro das primeiras duas semanas de tratamento. "Ficou doente, e como estava muito fraco para voltar a Maputo, recorreu a um curandeiro. Deveríamos ter averiguado com que poderia ficar em Maputo durante essas primeiras etapas do tratamento. O homem morreu", disse Bambo. Outro desafio, acrescentou, foi estar mentalmente ágil para fazer um acompanhamento dos progressos de cada paciente. Também enfatizou a importância de vincular a terapia com cuidados sanitários de mães e filhos e com o tratamento contra tuberculose e malária.
Consultado se estaria preparado para trabalhar uma zona rural, Bambo disse não ter objeções, já que havia colaborado durante mais de um ano em um hospital de um distrito isolado na província de Niassa. Mas expressou preocupação pela falta de infra-estrutura. Nesse hospital só havia eletricidade entre 16 e 21 horas. Não tinha médico e a ambulância estava fora de serviço a maior parte do tempo, porque o hospital fica a 400 quilômetros de uma oficina que vende baterias. "Entretanto, o problema mais difícil é o sentimento de estar isolado dos últimos desenvolvimentos e matéria de cuidados com a saúde. Isto seria um desafio para o tratamento do HIV e da aids", disse Bambo. (IPS/Envolverde)

