Política: Rumsfeld sustentado por alfinetes

Washington, 19/04/2006 – Apesar dos esforços da Casa Branca para acabar com a controvérsia, a batalha pela permanência do secretário de Defesa dos Estados Unidos, Donald Rumsfeld, não dá sinais de apaziguamento. O resultado desta luta, que ainda não pode ser previsto com clareza, poderia determinar a trajetória da política do governo em áreas fundamentais – como o vínculo com o Iraque, Irã e, inclusive, com a China – nos dois anos e meio que restam de presidência para George W. Bush. Os pedidos de renúncia, feitos publicamente a Rumsfeld por seis generais da reserva, em uma onda sem precedentes na história dos Estados Unidos, têm como argumentos básicos sua falta de competência, seu estilo de comando inadequado e a estratégia que aplicou para invadir e ocupar o Iraque.

Sua eventual saída paralisaria até o fim do período a coalizão de neoconservadores e nacionalistas belicistas que dominaram a política externa desde o início da presidência de Bush, em 2001. É por isso que os falcões de fora do governo, entre eles os editorialistas do neoconservador The Wall Street Journal, procuram convencer o presidente de que é ele quem está na mira dos que conduzem a campanha contra Rumsfeld. "Na sexta-feira, o senhor Bush disse que tinha toda a confiança" em Rumsfeld, observou o jornal. "Suspeitamos que o presidente compreenda que a maioria dos que pedem a cabeça do senhor Rumsfeld, na realidade, pedem a sua".

Aliado com seu amigo pessoal e antigo mentor, o vice-presidente Dick Cheney, o secretário teve uma grande influência sobre a política externa dos Estados Unidos nos últimos cinco anos, a partir de seu escritório no Pentágono, sede do Departamento de Defesa. De fato, cinco horas depois do ataque de 11 de setembro de 2001, foi Rumsfeld o primeiro a sugerir que os Estados Unidos deveriam responder atacando, além da rede terrorista Al Quaeda, o Iraque. Segundo as notas tomadas por um colaborador, a proposta era realizar uma operação "maciça" contra "coisas relacionadas e não" com os atentados.

Da mesma forma que Cheney, Rumsfeld mostrou sua inclinação por atacar Síria, Irã e China, e se esforçou para ampliar a níveis inéditos o papel do Pentágono em ações encobertas às custas da Agência Central de Inteligência (CIA). Também conseguiu elevar a ajuda militar aos países aliados dos Estados Unidos na "guerra contra o terror" declarada por Bush, o que aumentou a influência do Departamento de Defesa na política externa e reduziu a do Departamento de Estado. As pesquisas sobre aprovação a Bush entre os norte-americanos marcam uma queda considerável, enquanto crescem os questionamentos à gestão de Rumsfeld nas Forças Armadas e no Congresso.

Portanto, qualquer sucessor, no caso de sua saída, deverá ter uma inclinação menos belicista do que Rumsfeld e vínculos menos fortes com Cheney, pois o secretário de Estado deve ser confirmado pelo Senado. Isso privaria o vice-presidente de influência na política externa e de seu principal aliado ideológico. De fato, a maioria dos candidatos a suceder Rumsfeld é considerada "realista", o que em política externa significa uma visão mais tradicionalista, ligada à gestão do ex-presidente George Bush (1989-1993), pai do atual mandatário. Entre eles figuram o embaixador na Alemanha, Dan Coates; o presidente do Comitê de Serviços Armados do Senado, John Waerner, e o ex-subsecretário de Estado, Richard Armitage, que na semana passada propôs o estabelecimento de um diálogo direto com o Irã.

Apesar de serem conservadores, os realistas se mostram mais inclinados a contentar os militares em atividade e os funcionários de carreira do Departamento de Estado. A única exceção da lista é o senador Joseph Lieberman, do opositor Partido Democrata e ex-candidato à vice-presidência, que tem uma posição pró-Israel e que tende ao enfrentamento com o Irã. A atual rodada de ataques contra Rumsfeld começou no mês passado, quando o general da reserva do exército Paul Eaton, encarregado de treinar as novas forças armadas iraquianas no primeiro ano de ocupação norte-americana, criticou seu ex-chefe.

Em uma coluna publicada pelo The New York Times, Eaton qualificou o secretário de Defesa de "estratégica, operacional e taticamente incompetente". Eaton foi seguido, na semana passada, pelo general da reserva da Marinha de Guerra, Gregory Newbold, principal oficial operacional do Estado Maior Conjunto das Forças Armadas norte-americanas antes da invasão do Iraque. Newbold criticou a si mesmo por não questionar a operação militar e apontou a falta de experiência na frente de batalha da maioria dos falcões do governo de Bush.

Outros generais da reserva, entre eles John Batiste (que atuou no Iraque e colaborou com o ex-subsecretário de Defesa, Paul Wolfowitz), Charles Swannock Jr. (comandante da 82ª Divisão Aerotransportada no Iraque) e John Riggs também fizeram suas próprias críticas. Os pioneiros foram dois generais da reserva: o ex-chefe do Comando Central, Anthony Zinni, e o ex-comandante da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), Wesley Clark, que pediram a saída de Rumsfeld há dois anos. O ex-secretário de Estado Colin Powell, outro general da reserva que, como chefe do Estado Maior Conjunto conduziu a Guerra do Golfo em 1991, também acusou o Pentágono de cometer "alguns erros sérios" no Iraque, mas não pediu a renúncia de Rumsfeld.

Diante das críticas, Bush afirmou, na sexta-feira, que Rumsfeld pode contar com seu "total apoio e profundo apreço". Ao mesmo tempo, o Pentágono enviava um memorando a um grupo de militares da reserva e analistas civis que costumam participar de programas de televisão contendo instruções para defender o poderoso funcionário. Entre os generais da reserva que o defenderam figuram o ex-chefe do Comando Central, Tommy Franks e o ex-presidente do Estado Maior Conjunto, Richard Myers. Porém, o pouco entusiasmo dos simpatizantes de Rumsfeld ilustra a falta de credibilidade e de autoridade do secretário de Defesa.

Em seu noticiário, o The Wall Street Journal informou, esta semana, que Rumsfeld exerce um controle cada vez mais fraco sobre a política militar, e que altos funcionários do Pentágono se mostravam inclinados a ignorar ou, inclusive, contradizer as preferências políticas de seu chefe. Também não demonstram entusiasmo os defensores de Rumsfeld no Congresso. "A decisão de manter, ou não, o secretário Rumsfeld depende do presidente", disse no final de semana o senador John Warner, que sempre se mostrou um legislador leal ao governo. (IPS/Envolverde)

Jim Lobe

Jim Lobe joined IPS in 1979 and opened its Washington, D.C. bureau in 1980, serving as bureau chief for most of the years since. He founded his popular blog dedicated to United Stated foreign policy in 2007. Jim is best known for his coverage of U.S. foreign policy for IPS, particularly the neo–conservative influence in the former George W. Bush administration. He has also written for Foreign Policy In Focus, AlterNet, The American Prospect and Tompaine.com, among numerous other outlets; has been featured in on-air interviews for various television news stations around the world, including Al Jazeera English; and was featured in BBC and ABC television documentaries about motivations for the U.S. invasion of Iraq. Jim has also lectured on U.S. foreign policy, neo-conservative ideology, the Bush administration and foreign policy and the U.S. mainstream media at various colleges and universities around the United States and world. A proud native of Seattle, Washington, Jim received a B.A. degree with highest honours in history at Williams College and a J.D. degree from the University of California at Berkeley’s Boalt Hall School of Law.

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