KAMPALA, 13 de junho de 2014 (IPS) – O silêncio é dourado, segundo se diz. Mas não para a ugandesa Constance Nansamba*, que pagou um preço elevado por manter silêncio quanto ao facto de ser seropositiva e estar grávida aos 18 anos.

Muitos adolescentes seropositivos têm dificuldade em divulgar a sua condição serológica aos parceiros sexuais. Crédito: Mercedes Sayagues/IPS
“Estava aterrorizada. Fugi da casa do meu irmão. Não conseguia seguir as directrizes do PMTCT [prevenção da transmissão mãe-para-filho], portanto o bebé é seropositivo,” contou à IPS.
“Existem poucas instalações de cuidados de saúde em regime ambulatório que sejam sensíveis a adolescentes, enquanto que as enfermarias de internamento pediátrico cuidam de crianças até aos 12 anos,” afirmou a Drª Sabrina Kitaka, especialista de saúde de adolescentes.
Nansamba sabia que tinha nascido com o vírus mas, com receio da rejeição, nada disse ao namorado. “Usávamos preservativo, e ele protestava sempre, por isso deixámos de o usar e eu fiquei grávida.” Embora ele não tivesse contraído VIH dela, acabaram por se separar.
Nansamba, que tem agora 20 anos, arranjou coragem para contar a sua história para ajudar os outros. É membro dos Jovens Seropositivos do Uganda (UYP), uma organização que oferece aconselhamento acerca do VIH, testes e recomendações sobre a adesão ao tratamento.
Ela contou à IPS que muitos adolescentes que nascem com o VIH não conhecem a sua condição quando começam a ter relações sexuais, ou então sabem mas não dizem nada aos seus parceiros.
Um inquérito efectuado pelo Centro de Saúde de Mildmay no Uganda envolvendo 200 adolescentes que estavam a receber tratamento anti-retrovírico constatou que 75 por cento não queriam divulgar o seu estatuto serológico aos seus parceiros sexuais e 30 por cento não queriam ter sexo protegido.
“Simplesmente não têm informação que os oriente quando negoceiam a divulgação, protecção a dois e utilização consistente de preservativos,” afirmou Nansamba. “Eu enfrentei o mesmo desafio porque não discutia questões de sexo com o meu irmão mais velho, que fazia as vezes de meu pai.”
Os pais de Nansamba morreram quando era bebé e ela foi criada pelo irmão.
O VIH entre os mais novos
O Uganda é um país jovem; cerca de 80 por cento dos seus 34 milhões de pessoas têm menos de 30 anos.
A seroprevalência a nível nacional ascende aos 7.2 por cento e, o que é mais preocupante, está a aumentar lentamente. Entre os jovens com idades compreendidas entre os 15 e os 24 anos, cinco por cento das mulheres e dois por cento dos homens são seropositivos, de acordo com o Estudo Indicador do VIH no Uganda de 2011.
O Relatório de Síntese sobre Crianças e a SIDA de 2013 do Fundo das Nações Unidas para a Infância calculou que o Uganda tem cerca de 110.000 adolescentes com idades compreendidas entre os 10 e os 19 anos a viver com VIH, dos quais 64.000 são raparigas e 48.000 são rapazes.
Emmanuel Elwanu tinha 14 anos quando soube que tinha nascido seropositivo. Com receio de ser objecto de discriminação, teve dificuldade em revelar a sua condição aos amigos que não eram seropositivos. “Tive de receber muito aconselhamento antes de conseguir divulgar,” contou à IPS.
Elwanu teve sorte: a escola tinha sessões de aconselhamento semanais sobre o VIH e ele aderiu à iniciativa VIH/SIDA Estender a Mão da Paróquia Mbuya.
“Muitos dos meus colegas seropositivos estão a passar por tempos bastante difíceis a nível dos seus relacionamentos,” explicou Elwanu, de 18 anos. “Penso sobre sexo mas não é a minha maior prioridade.”
Elwanu, cujos pais morreram quando ainda era criança, decidiu abster-se de ter relações sexuais até concluir os estudos.
Polly Nuwagaba, orientadora no Centro de Saúde e Informação para Adolescentes de Naguru em Kampala, disse à IPS que a maior parte dos adolescentes tem um problema com a divulgação.
“Parecem saudáveis, atraem parceiros seronegativos e têm desejos sexuais,” explicou. “Alguns contam-nos que ,quando divulgam o facto de serem seropositivos, aqueles a quem divulgam não acreditam, e acabam por ter relações sexuais sem protecção.”
Não há preservativos para os adolescentes
A Drª Sabrina Kitaka, especialista de saúde de adolescentes no Colégio de Saúde e Ciências na Universidade de Makerere em Kampala, ressalta as lacunas nos serviços de saúde para adolescentes.
“Existem poucas instalações de cuidados de saúde em regime ambulatório que sejam sensíveis aos adolescentes, enquanto que as as enfermarias de internamento pediátrico cuidam de crianças até aos 12 anos. O resultado é que os adolescentes são admitidos nas enfermarias para adultos,” explicou Kitaka.
Em 2013, a Organização Mundial de Saúde (OMS) avisou que o fracasso da não implementação de serviços eficazes de VIH destinados aos adolescentes tinha resultado num aumento de 50 por cento nas mortes relacionadas com a SIDA nos adolescentes em todo o mundo, por comparação com o declínio de 30 por cento destas mortes na população em geral entre 2005 e 2012.
A OMS pediu aos governos que revissem as suas leis e tornassem mais fácil aos adolescentes realizarem testes de VIH sem autorização dos pais.
Mas os profissionais de saúde do Uganda estão divididos quanto à questão de oferecer aos adolescentes serviços de planeamento familiar e preservativos.
O Dr. Stephen Watiti, um médico que vive com o VIH, explicou que as leis e as políticas que regulam os preservativos e os contraceptivos para os adolescentes no Uganda são pouco claras e interpretadas de forma pouco consistente. Isto dificulta a compreensão, por parte dos jovens e dos profissionais de saúde, das suas opções.
Oficialmente, só aqueles que têm 18 anos ou idade superior é que têm acesso aos serviços de planeamento familiar e distribuição de preservativos. Contudo, mais de metade das jovens com idades compreendidas entre os 18 e 24 anos têm relações sexuais antes dos 18 anos, de acordo com o Inquérito de Saúde e Demografia do Uganda relativo a 2011.
“Como clínicos, não podemos ir a escolas e promover preservativos ou contraceptivos. Mas quando nos deparamos com um jovem de 14 anos que é sexualmente activo, então não temos outra alternativa senão ensiná-los a usar os preservativos,” disse Watiti à IPS.
Na reunião do UYP no final de Janeiro que teve lugar em Kampala, a capital do Uganda, Nansamba disse ao público jovem: “Vocês sabem que não é fácil viver com VIH. Vão sempre sentir-se culpados quando dormirem com alguém. Mas ao mesmo tempo têm desejos sexuais que precisam de ser realizados.”
Actualmente decidiu “abster-se [de relações sexuais] porque não quero colocar ninguém em risco de contrair o VIH.”
Mas para muitos adolescentes seropositivos, a abstenção não é uma escolha fácil – assim como divulgar a sua condição ou praticar sexo seguro.
*Nome alterado para proteger a identidade da pessoa.

