Irã: Ajuda dos Estados Unidos a ativistas é contraproducente

Berkeley, EUA, 10/05/2006 – A ajuda que os Estados Unidos dão a organizações civis do Irã, com o objetivo de promover desde dentro uma "mudança de regime", somente desatará mais repressão por parte do governo Mahmoud Ahmadinejad às suas atividades. Assim disseram à IPS ativistas iranianos que pediram para não serem identificados. Washington luta contra o governo do Irã em duas frentes: enquanto seus diplomatas negociavam com os demais membros do Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas a adoção de sanções contra Teerã por causa de seu plano de desenvolvimento nuclear, a Casa Branca anunciava seu plano de destinar US$ 75 milhões à dissidência iraniana.

Esse dinheiro será usado para apoiar os grupos da sociedade civil locais, realizar transmissões de rádio e televisão para o Irã, "promover a democracia" e oferecer bolsas de estudo, entre outras coisas. Mas esta campanha colocou em guarda o governo iraniano. Há apenas uma semana, agentes da inteligência do Irã detiveram no aeroporto da capital Ramin Jahanbegloo, um destacado acadêmico. "Mantinha relações com estrangeiros", justificou o ministro de Inteligência, Moseni Ejeyee.

A agência de notícias Fars, estreitamente ligada às forças de segurança do país, informou depois que Jahanbegloo trabalhava para o governo dos Estados Unidos desde 2001, enquanto atuava como pesquisador na National Endowment for Democracy (Ned), uma fundação do Congresso norte-americano. A Ned havia sido encarregada de trabalhar de perto com organizações não-governamentais iranianas. A prisão de Jahanbegloo parece indicar o início de uma campanha de intimidação de Teerã contra grupos da sociedade civil, profissionais e intelectuais que têm ligações com o exterior.

O governo do presidente Ahmadinejad vê a sociedade civil como uma ferramenta que Washington pode usar para promover uma revolução violenta semelhante às que ocorreram na Geórgia, em 2003, e Ucrânia, em 2004. Portanto, as autoridades usam diferentes estratégias para controlar estes grupos, redobrando os controles sobre o dinheiro procedente do exterior e intimidando ativistas que promovem mudanças internas. Poucas semanas depois de o Departamento de Estado norte-americano anunciar que aumentaria seus esforços para promover a democracia no Irã, o Ministério do Interior deste país informou que preparava uma lista de grupos não-governamentais locais que trabalham por uma "mudança de regime".

Esses grupos "são apoiados por outros países e organizações internacionais", disse porta-voz do ministério. O conservador governo de Ahmadinejad, que assumiu em agosto passado, deixou de apoiar as organizações civis que recebiam financiamento oficial durante a administração do reformista Mohammad Khatami (1997-2005), que chegou a mais de US$ 1 milhão em 2003. O governo de Ahmadinejad, inclusive, pediu a muitos grupos que devolvessem seus escritórios, doados por municipalidades e outros organismos oficiais. Quando o presidente era prefeito de Teerã, rescindiu muitos dos contratos assumidos com organizações civis assinados, em sua maioria, durante o período de Khatami.

Nos últimos anos, vários influentes ativistas foram interrogados sobre suas atividades e ligações com o exterior. Muitos foram qualificados pelos conservadores de "ferramentas de estrangeiros", especialmente dos Estados Unidos, chamado de "Grande Satã" pelo mentor do presidente iraniano, o falecido líder espiritual da Revolução Islâmica, o aiatolá Khomeini. Paralelamente, os organismos governamentais iranianos aumentaram seu apoio a grupos religiosos ortodoxos. Mesmo durante os dois períodos de governo de Khatami, as legislações mais progressistas que regulavam as atividades das organizações civis foram transformadas em regulamentos restritivos por alguns membros dos serviços de inteligência entre os ministérios.

As leis iranianas estabelecem que os grupos da sociedade civil devem contar com autorizações dos ministérios de Inteligência, Interior e Assuntos Exteriores para poderem receber ajuda financeira estrangeira. Os grupos devem enviar toda a informação para esses ministérios e esperar três meses por uma resposta. Obviamente, é impossível receber fundos quando os três ministérios estão sob o controle dos conservadores. As autoridades iranianas também temem que a ajuda norte-americana seja canalizada através de organizações de caridade européias com escritórios em Teerã. Por isso, fundações alemãs, holandesas, dinamarquesas e suíças são alvo de controles cada vez mais rígidos. "Governos estrangeiros utilizam as organizações não-governamentais como cobertura para a espionagem na sociedade iraniana", disse o parlamentar conservador Saeed Abutalib.

Nos últimos anos, duas organizações européias fecharam seus escritórios no Irã após se negarem a obedecer as ordens do governo. Em 2004, o diretor para o Oriente Médio da Fundação Friedrich Ebert, Andréa Gerber, viajou a Teerã para se reunir com líderes conservadores e solicitar permissão para abrir um escritório nessa cidade, o que foi negado. "Há várias tendências no Irã. Durante minha permanência aqui me reuni com representantes da ultradireita e da ultra-esquerda. O papel do Islã neste país é muito importante. A complicada estrutura social nos obriga a proceder com cautela", disse Gerber naquela oportunidade.

Nos últimos meses, o Ministério do Interior e o Escritório do Procurador Geral do Islã convocaram vários representantes de grupos da sociedade civil para que dessem detalhes de suas atividades, recursos financeiros e, inclusive, de seus contatos com instituições estrangeiras. Agora, estão obrigados a enviar relatórios regulares sobre suas reuniões e ligações com estrangeiros. Algumas organizações cancelaram seus projetos para evitar a pressão governamental.

O jornalista iraniano Ahmad Zeidabadi escreveu no dissidente site Roozonline que "mesmo quando os Estados Unidos não forneciam nenhum tipo de ajuda aos grupos dissidentes e opositores, poderosos e influentes funcionários iranianos acusaram os reformistas de receberem "sacos de dinheiro" de Washington. "Ativistas políticos e jornalistas foram pressionados na prisão para confessar o uso que fizeram do dinheiro. Agora que os Estados Unidos falam abertamente em financiamento da dissidência iraniana, estes funcionários (de Teerã) poderão fazer acusações contra qualquer voz crítica ao governo de Ahmadinejad", alertou Zeidabadi. (IPS/Envolverde)

*Omid Memarian, jornalista e ativista social iraniano, é acadêmico visitante na Escola de Pós-Graduados em Jornalismo da Universidade da Califórnia.

Omid Memarian

Omid Memarian is well known for his news analysis and regular columns in English and Persian. Omid has been regularly writing for IPS since 2006. He is also a regular contributor to the Daily Beast and BBC Persian and regularly blogs for the Huffington Post. He has had op-ed pieces published in The New York Times, the Wall Street Journal, San Francisco Chronicle, Los Angeles Times, Institute for War and Piece Reporting and Opendemocracy.org. In 2005, he received Human Rights Watch’s highest honour, the Human Rights Defender Award, for his courageous work. Omid Memarian received his master’s degree from the University of California, Berkeley's Graduate School of Journalism in 2009 as a Rotary World Peace Fellow. He was awarded the Golden Pen Award at the National Press Festival in Iran in 2002.

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