Irã: Rachaduras no poder islâmico

Berkeley, 12/05/2006 – Durante as próximas semanas as principais potências mundiais buscarão chegar a um consenso sobre qual atitude adotar para responder às ambições nucleares do Irã. As opções vão desde o compromisso até as sanções econômicas e, inclusive, a uma ação militar unilateral. Devido à fragmentação da conservadora elite governante desse país, as ações das principais potências afetarão em grande parte o resultado da atual luta pelo poder dentro do país e, por suas conseqüências, o destino do programa nuclear iraniano.

A unidade da elite que governa a República Islâmica finalmente se rompeu por causa da crescente pressão internacional sobre o Irã para que suspenda seu programa de enriquecimento de urânio, pelo aumento da demanda interna por melhores condições de vida do povo e pela derrota do movimento reformista. A comunidade internacional precisa ter em conta estas diferenças entre facções internas do setor governante quando tratam com o Irã. Cada curso de ação apresenta uma série de vantagens e desvantagens, conforme se leve em conta, ou não, essas divergências.

Nos dias anteriores ao atual governo de Ahmadinejad, os conservadores consideraram mais fácil se unirem na oposição a um "inimigo comum", o movimento reformista de Khatami, que começou em 1997 e durou até 2005. Com os reformistas fora de cena, entretanto, as lutas entre as facções conservadoras afloraram. As diferenças entre os conservadores se exacerbaram devido à ausência de um líder carismático e unificador do calibre do aiatolá Khomeini. O atual líder supremo, aiatolá Khamenei, tem um vínculo muito frágil com o poder e lhe falta legitimidade, tanto popular quanto religiosa.

Longe de ser um bloco monolítico, o campo conservador está, em geral, dividido quanto à futura direção do país e sobre como enfrentar suas crescentes crises. Cada facção tem sua própria base social e sua porção de poder na superinstitucionalizada estrutura política da República Islâmica. Os conservadores de linha dura, representados pelo presidente Ahmadinejad, têm laços íntimos com poderosos segmentos dos serviços de segurança iranianos e do aparelho repressivo. Têm uma base de apoio no comando da Guarda Revolucionária e nas fiéis forças Basij, entre elas a milícia da República Islâmica, com um milhão de voluntários. Em anos recentes, através da utilização de políticas populistas, também se acertaram para conseguir o apoio de uma ampla parte dos iranianos que vivem abaixo da linha de pobreza, que agora compreende cerca de 40% da população.

Os pragmáticos, liderados pelo ex-presidente Hashemi Rafsanjani, têm uma base social nos estratos capitalistas modernos do Irã, bem com em segmentos da classe média. Os menos ideológicos de todas os grupos conservadores, os pragmáticos, forçam constantemente a favor da implementação do modelo chinês no Irã, de modo a favorecer um forte crescimento econômico e a remoção de rígidas restrições sociais acompanhadas pela limitada liberalização do cenário político. Os conservadores tradicionalistas estão ligados ao setor comercial. O principal grupo que representa seus interesses é a Sociedade da Coalizão Islâmica, cujos dirigentes são grandes comerciantes que passaram a dominar posições econômicas-chave na República Islâmica.

A fragmentação do campo conservador oferece a comunidade internacional a oportunidade de influir na futura trajetória dos acontecimentos políticos no Irã. Optar pela solução militar criaria um ambiente de segurança que tornaria mais propício o domínio de Ahmadinejad e da linha dura. Nesse caso, os duros aproveitariam a chance para suprimir os resíduos da sociedade civil e anular reformas. Por outro lado, impor sanções ao Irã prejudicaria definitivamente o lutador setor privado e a minúscula classe média. Também enfraqueceria a posição dos pragmáticos em relação aos duros e aos tradicionalistas, que controlam a vasta rede de mercados negros do Irã. Conseguir um compromisso com Teerã, por outro lado, poderia melhorar a posição dos pragmáticos diante das outras facções. Por muitos anos os pragmáticos fizeram chamados a favor de uma normalização das relações do Irã com o resto da comunidade internacional, incluindo os Estados Unidos.

Uma normalização de relações entre os dois países também poderia levar a melhorias na condição da economia. Os investimentos norte-americanos poderiam estimular o desenvolvimento do setor privado no Irã e de sua classe média. Este processo, a longo prazo, consolidaria a posição dos menos apegados à ideologia e mais pragmáticos elementos dentro dos conservadores e poderia facilitar uma transição pacífica e sustentada até a democracia. O resultado final das diferenças entre as facções do campo conservador e a conseqüente orientação política será, em grande parte, determinado pela reação da comunidade internacional, particularmente dos Estados Unidos, ao programa nuclear do Irã. (IPS/Envolverde)

(*) Dariush Zaheri é professor de Política Econômica Internacional e de Estudos sobre a Paz na Universidade da Califórnia, em Berkeleyu. Ali Assareh é analista de política econômica do Oriente Médio nessa mesma universidade.

Ali Assareh

Ali Assareh is a student instructor and analyst specialising in the political economy of the Middle East at UC Berkeley.

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