Iraque: Baquba, novo foco de enfrentamentos

Baquba, Iraque, 11/10/2006 – A cidade de Baquba, 50 quilômetros a nordeste de Bagdá, se transformou em foco de violência no Iraque, com choques diários entre xiitas e sunitas, atentados habituais contra civis e a presença ativa das forças norte-americanas. A violência desatada nesta localidade agora se propaga para outras áreas da província de Diyala. “As novas ondas do terrorismo agora formam uma modalidade de ação que previmos há muito tempo”, disse à IPS um líder político da cidade. “O povo iraquiano se queixa diante de todos, mas, naturalmente, ninguém fará nada a respeito. Sabemos que está encarregado e quem é responsável, e até quem teria de ser contido: o governo dos Estados Unidos”, afirmou.

O dirigente local, entrevistado em sua casa em Baquba, disse que a situação na zona se está se tornando severamente problemática por causa da violência. “O pior é a participação direta das forças nacionais de segurança em atos criminosos e o repentino desaparecimento de cena do exército dos Estados Unidos tão logo esses assassinos apareceram”, afirmou. A província sofreu muitas mortes e centenas de prisões, acrescentou. O partido sunita Al-Tawafuq pediu investigação da violência em Baquba e a libertação imediata dos civis presos. “Estamos certos de que as prisões foram feitas com base na pertinência religiosa e que os detidos são agricultores inocentes capturados em seus próprios terrenos”, disse o grupo em uma declaração.

Um coronel do exército disse à imprensa em Diyala, na semana passada, que soldados norte-americanos prenderam dez militares iraquianos suspeitos de terem assassinado rivais religiosos. Não houve nenhuma declaração oficial dos Estados Unidos. O parlamentar iraquiano Muhammad al-Dayni disse à rede de televisão Al-Jazeera, do Qatar, que o brigadeiro Al-Kaabi, chefe da quinta divisão encarregada da segurança nessa província, havia prometido a prisão de 400 civis. Centenas de casas foram saqueadas, acrescentou Al-Dayni, que acusou os partidos no governo de promover essas ações. O legislador se referiu, especificamente, aos seus pares pertencentes à majoritária comunidade xiita.

Agora as lutas se intensificaram, mas por muito tempo Baquba foi uma cidade de feroz resistência à ocupação. Freqüentemente, as organizações insurgentes frustraram tentativas das tropas estrangeiras ocupantes e das forças regulares de segurança do Iraque para controlar a cidade. Moradores disseram à IPS que um brigadeiro-general da polícia iraquiana utilizou alto-falantes para anunciar-lhes severas advertências. “Estávamos acostumados a ouvir o governo nos chamar de terroristas, saddamistas e zarqawisistas, mas este homem acrescentou novas palavras ao vocabulário, como bastardos e expressões desse tipo”, disse à IPS Abu Omar, estudante de Direito da Universidade de Diyala. “Não nos surpreende porque sabemos que ele se limita a repetir o que dizem seus amos da zona verde”, acrescentou.

Mazin al-Zaidy, morador em Baquba, disse à IPS que a situação na província de Diyala pode ser a pior do Iraque, porque na área convivem numerosas comunidades étnicas e religiosas. “As forças multinacionais e as milícias se concentram em limpá-la de árabes sunitas antes de implementar qualquer plano de federalismo”, assegurou. Al-Zaidy disse que “há curdos, xiitas e sunitas”, uma realidade que as autoridades “querem alterar em benefício das duas primeiras comunidades”. Ele se referia aos povoados de Mendily, Jalowlaa e seus respectivos arredores, marcados como curdas no mapa do Curdistão. A influencia de cada grupo muda freqüentemente.

“A cada dia, quando me levanto, não sei quem controla minha cidade”, disse um xeque religioso de Baquba que pediu para ser identificado como xeque Ahmed. “Um dia são os norte-americanos, no outro uma milícia, no seguinte um grupo da resistência”. A província de Diyala obtém pouca atenção da imprensa “por causa do medo dos jornalistas de entrarem nela”, disse Al-Zaidy. A nova violência rompeu as velhas tradições, disse. “Os habitantes da província não compreendem como estas potências poderiam convertê-la em uma cidade sectária a partir de 1,4 mil maravilhosos anos de paz comunitária e casamentos inter-étnicos”. Enquanto isso, o exército dos Estados Unidos anunciou que os ataques com explosivos em Bagdá chegaram a um recorde. A quantidade de soldados norte-americanos mortos chega dos três mil. As vítimas iraquianas somam centenas de milhares. (IPS/Envolverde)

Ali al-Fadhily

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