Jerusalém, 13/10/2006 – O Qatar propôs à Palestina um plano de seis pontos para a paz com Israel, que implica aceitar a solução de “dois Estados” e a formação de um governo de unidade nacional com participação do partido laico Fatah e do movimento islâmico Hamas. A secretária de Estado norte-americana, Condoleezza Rice, visitou o presidente palestino, Mahmoud Abbas, e o primeiro-ministro israelense, Ehud Olmert, em uma tentativa de ressuscitar as conversações de paz. A imprensa informou sobre uma reunião entre Olmert e um “alto funcionário” do regime da Arábia Saudita com a intenção de renovar as negociações. Parece que a diplomacia pisou no acelerador no Oriente Médio.
Entretanto, os fatos indicam que o processo de paz está em coma profundo há vários anos e que todo o barulho dos últimos dias nada fez para reanimá-lo. Não é um momento muito propício para que israelenses e palestinos se sentem à mesa de negociação. Abbas, líder do Fatah, se envolveu em uma dura – e depois sangrenta – disputa de poder com o Hamas. O governo de Olmert luta pela sobrevivência depois da guerra no Líbano, considerada um fracasso pela sociedade israelense. O governo dos Estados Unidos se concentra na campanha para as eleições legislativas do dia 7 de novembro.
Quando Rice visitou Jerusalém e Ramalá, na semana passada, expressou sua preocupação pelas penúrias econômicas dos palestinos e uma vaga esperança de que “não vai demorar muito para Olmert e Abbas se reunirem. Depois de se encontrar com o presidente palestino, Rice disse à imprensa que os Estados Unidos “redobrarão seus esforços para melhorar as condições de vida do povo palestino”. Mas não explicou os passos específicos que Washington tomará nesse sentido. Quando se reuniu com Olmert, o diálogo se referiu menos à renovação das negociações com a Palestina do que ao temor de Israel diante das ambições nucleares do Irã.
Porém, Olmert está muito preocupado com problemas internos. Sua popularidade caiu depois da guerra no Líbano e seu principal aliado na coalizão de governo também está enfraquecido. Agora, busca mecanismos políticos para fortalecer seu gabinete. A aprovação da lei sobre o orçamento para 2007 parece ser a tarefa mais grave, pois um fracasso nesse sentido implica a convocação de eleições antecipadas. Com essa intenção, corteja o direitista Avigdor Lieberman, líder do partido Israel Beiteinu (Israel Nossa Casa), com grande apoio da comunidade russa. A incorporação de Lieberman ao gabinete representaria um novo freio ao processo de paz, pois em Israel Beiteinu defende a manutenção dos assentamentos judeus na Cisjordânia.
Depois do conflito com as milícias do Partido de Deus (Hezbollah), movimento libanês xiita e islâmico, Olmert teve de deixar de lado seu plano de retirada unilateral de boa parte da Cisjordânia, uma das promessas-chave ao eleitorado nas eleições de janeiro. Depois do fracasso da semana passada do diálogo entre Abbas e o primeiro-ministro Ismail Haniyeh, do Hamas, recrudesceram os combates entre os dois setores dominantes da política palestina, com dez mortos e dezenas de feridos. Com os palestinos em meio à violência interna, Rice não podia esperar nenhum resultado significativo para sua visita.
Durante semanas, Abbas e Haniyeh mantiveram negociações para formação do governo de unidade, que entre outras coisas objetiva convencer o Ocidente a levantar as sanções econômicas impostas à Autoridade Nacional Palestina, depois que o Hamas, que não reconhece o Estado de Israel, venceu as eleições de janeiro. Estas sanções, como a prisão de dezenas de legisladores do Hamas em julho após o seqüestro por milícias islâmicas seqüestraram um soldado israelense, tornaram impossível as tarefas do governo. Os protestos dos funcionários públicos palestinos que estão sem receber há meses são diários na Cisjordânia e em Gaza.
O impacto político das sanções também é evidente: uma pesquisa recente indica que o apoio popular do Hamas diminuiu desde as eleições de janeiro e existe um virtual empate nas preferências com o Fatah. Com os países ocidentais exigindo a criação de um governo de unidade que reconheça Israel, para levantar as sanções, o acordo entre Hamas e Fatah necessário para que isso ocorra se apresenta esquivo. O último esforço coube, na segunda-feira, ao chanceler do Qatar, xeque Hamad bin Jassim al-Thani. A proposta inclui a aceitação da solução de dois Estados como mecanismo para resolver o conflito, e isso implicaria o reconhecimento de Israel. Também na segunda-feira, Al-Thani disse que Fatah e Hamas ainda deveriam chegar a um acordo. E o reconhecimento de Israel continuava sendo o principal obstáculo.
Yasser Abed Rabbo, um colaborador próximo de Abbas, demonstrou pessimismo. O acordo não estava fechado exatamente nas “questões-chave”. A iniciativa do Qatar, segundo disse, era “o último esforço político” para conseguir um governo de unidade e que, fracassando, a única solução seria a convocação de eleições antecipadas. Na semana passada, Abbas ameaçou usar suas faculdades presidenciais para convocar eleições em caso de fracasso das negociações. Com os dirigentes palestinos e israelenses consumidos por problemas domésticos, os enviados que chegam à região com aspirações de dar vida às negociações de paz não parecem ter possibilidades de obter resultados. (IPS/Envolverde)

