Washington, 11/10/2006 – Em sua primeira reação ao teste nuclear da Coréia do Norte, os Estados Unidos anunciaram que buscará as sanções mais fortes possíveis contra Pyongyang no Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas, mas esclareceu que não considerava nenhuma ação militar, pelo menos no momento. Entretanto, analistas independentes afirmam que o teste atômico norte-coreano de segunda-feira fortalecerá a posição dos chamados falcões, a ala mais belicista de Washington, liderados pelo vice-presidente Dick Cheney, que se opunha fortemente a qualquer conversa bilateral e defendia a estratégia de aumentar a pressão para propiciar a queda do líder norte-coreano, Kim Jong-II.
“Cheney e seus partidários vêem a negociação com a Coréia do Norte como a pior idéia possível, porque qualquer discussão significativa com o regime, e, mais ainda, um acordo, ajudaria sua sobrevivência”, disse John Feffer, especialista em assuntos coreanos do centro acadêmico progressista norte-americano Foreign Policy in Focus. “Depois do teste atômico, eles podem argumentar que a Coréia do Norte chegou a um ponto sem volta e que a única opção ética é pressionar até a queda” do regime, acrescentou.
Entretanto, Feffer e outros analistas acreditam que esse enfoque é errado, sobretudo porque China e Coréia do Sul, apesar de dispostos a impor sanções mais fortes do que as que consideravam no passado, se oporiam a medidas que permitissem a queda de Kim Jong-II. “A pergunta é se, na verdade, o governo de George W. Bush vai querer persisitr em um enfoque que fracassou ou combinará as ações com a possibilidade de voltar à mesa de negociações”, disse Alan Romberg, do independente Centro Henry L. Stimson.
Apesar de antigas rejeições de Washington aos chamados da China e Coréia do Sul para retomar as negociações com Pyongyang, Romberg acredita que ainda é possível que isso ocorra. Mas disse que “o mais provável é que não haja progressos (nas negociações) até o fim da administração Bush”, e afirmou que a decisão da Coréia do Norte de realizar testes nucleares “foi baseada nesse cálculo”. O testa atômico de segunda-feira tinha sido anunciado publicamente pelo governo norte-coreano seis dias antes.
Entretanto, o anúncio não surpreendeu especialistas em política externa, como o ex-subsecretário de Estado Richard Armitage, que advertira que um teste nuclear sul-coreano seria provável se Washington continuasse rejeitando os apelos para participar de conversações diretas depois que Pyongyang realizou uma série de provas com mísseis no dia 4 de julho. O governo Bush não só desestimulou essa possibilidade como também começou a planejar uma série de sanções financeiras contra a Coréia do Norte em resposta a supostas atividades de lavagem e falsificação de dinheiro por parte desse país.
Pyongyang exigiu que Washington levantasse as sanções com condição para voltar às conversações das Seis Partes (China, Coréia do Norte, Coréia do Sul, Estados Unidos, Japão e Rússia), que em setembro de 2005 haviam chegado a um princípio de acordo para que o regime de Kim Jong-II abandonasse seu programa nuclear em troca de um pacote de garantias de segurança e ajuda econômica. Apesar dos insistentes pedidos da China e da Coréia do Sul, que apesar disso condenaram a atitude desafiadora norte-coreana, Washington se negou a levantar as sanções e a participar de negociações diretas. No último fim de semana, China, Coréia do Sul, Rússia e Japão uniram-se com os Estados Unidos para advertir Pyongyang sobre a realização de um teste atômico.
O Conselho de Segurança somou sua voz, na sexta-feira, expressando “profunda preocupação” com as ameaças de Pyongyang e assinalando que o teste nuclear “traria uma condenação universal”. Mas a Coréia do Norte parece ter calculado que não tinha nada a perder com o teste. “O objetivo final desse país é sobreviver, e um teste nuclear é sua última opção”, disse na semana passada ao jornal The Washington Post o analista sul-coreano Ahn Yinhay, da Universidade da Coréia, em Seul. “Devido à enorme pressão dos políticos de linha dura dos Estados Unidos, a Coréia do Norte deve pensar que não tem outra maneira de sair desse ponto morto. Eles acreditam que não têm nada a perder”, acrescentou. Ainda falta ver se Pyongyang se equivocou, como acreditam muitos especialistas norte-americanos.
Por outro lado, o governo Bush espera que a condenação internacional, em especial da China e da Rússia, considerados pelo embaixador dos Estados Unidos na ONU, John Bolton, os “protetores” da Coréia do Norte, bem como fortes sanções financeiras enfraqueçam o regime de Kim Jong-II. Um os objetivos mais ambiciosos de Washington é que o Conselho de Segurança adote uma resolução autorizando a revista em embarcações que entrem e saiam da Coréia do Norte diante da possibilidade de transportarem tecnologia nuclear. Bush qualificou os testes nucleares norte-coreanos de “ameaça à paz e à segurança internacionais”, frase normalmente reservada para invocar o capítulo VII da Carta da ONU que autoriza ao uso da força militar para apoiar as decisões do Conselho de Segurança.
“A transferência de armas ou material nuclear pela Coréia do Norte para Estados ou entidades não estatais será considerado uma grave ameaça aos Estados Unidos”, disse a Casa Branca em uma declaração, acrescentando que esse país já havia se convertido em um dos principais produtores de tecnologia bélica. “Faremos a Coréia do Norte responsável pelas conseqüências dessa ação”, advertiu Bush. (IPS/Envolverde)

