Washington, 19/10/2006 – Se o primeiro-ministro iraquiano, Nuri Kamal al-Maliki, se sentia plenamente confiante na promessa do presidente dos Estados Unidos, George W. Bush, de que manteria seus soldados no Iraque indefinidamente, deveria pensar melhor. A ocupação fica cada vez mais difícil de ser mantida. Embora Bush continue firme em sua determinação de conservar as tropas, as circunstâncias políticas, sem mencionar a acelerada queda da situação no Iraque para uma guerra sectária generalizada, claramente conspiram contra seus planos. Há claros indícios de que o apoio à estratégia do presidente de “manter o curso” de seus planos sofre uma erosão.
Cada vez mais líderes do governante Partido Republicano, com o presidente do Comitê de Serviços Armados do Senado, John Warner, expressam preocupação pela situação no Iraque e colocam em dúvida a promessa do presidente de que esse país se converterá, de alguma forma, em um modelo de transformação democrática para o Oriente Médio. Além disso, o cada vez mais provável triunfo do opositor Partido Democrata nas próximas eleições legislativas norte-americanas no dia 7 de novembro, nas quais poderá recuperar o controle da Câmara de Representantes, e, talvez, também do Senado, coloca em xeque os planos de Bush.
A grande maioria dos democratas apóia a idéia de fixar o prazo de um ano para retirada das tropas. Essa postura lhes permitiu ganhar um crescente apoio popular, apesar de serem classificados de “fracos” na luta contra o terrorismo. Indícios semelhantes são vistos em Londres, o mais próximo aliado de Washington na “guerra mundial contra o terrorismo” e o maior contribuinte de tropas fora dos Estados Unidos na coalizão que ocupa o Iraque. O novo chefe do exercito da Grã-Bretanha, Richard Dannatt, em uma longa entrevista ao jornal Daily Mail, usou os mesmos argumentos apresentados no ano passado pelo mais destacado incentivador da idéia de retirada de tropas entre os democratas norte-americanos, o congressista John Murtha.
O governo britânico “deveria nos retirar do Iraque logo, porque nossa presença exacerba os problemas de segurança”, disse Dannatt na entrevista, acrescentando que o menos que se pode esperar agora desse país no Oriente Médio é que tenha uma democracia liberal tal qual prognosticou Bush. As declarações do militar, segundo uma coluna do ex-instrutor da Real Academia Militar Britânica e agora diretor do Centro para Análise de Política Exterior, Paul Moorcraft, refletem o pensamento de todo o “sistema militar britânico”. O fato de a coluna de Moorcraft ter sido publicada segunda-feira pelo The Washington Times, incondicional partidário das políticas de Bush, passa a impressão de que inclusive os republicanos mais conservadores chegaram a um ponto de quebra em relação à guerra no Iraque.
De fato, o jornal anunciava em sua primeira pagina desse dia um artigo que contrastava as avaliações otimistas do inicio deste ano feitas pelo Maximo comandante dos Estados Unidos no Iraque, George Casey, com suas mais recentes declarações, nas quais colocava em dúvida a capacidade das forças de segurança iraquianas para substituir as norte-americanas, a condição básica de Bush para iniciar uma retirada gradual. Casey havia previsto no início deste ano que os Estados Unidos poderiam reduzir o número de soldados no Iraque dos atuais 130 mil para, aproximadamente, 30 mil até dezembro. Entretanto, Washington aumentou seu contingente para mais de 1409 mil homens nos últimos meses, um nível que para o chefe do exercito, Peter Schoomaker, deveria ser mantido até 2010.
Esta estimativa provocou verdadeiro pânico entre os congressistas republicanos, conscientes de que a ocupação do Iraque é o maior obstáculo para sua vitória nas eleições de novembro. O aumento do número de efetivos se deveu, principalmente, ao agravamento da violência em Bagdá, onde as mortes mensais registradas pelo Ministério da Saúde do Iraque aumentaram de 1.400, no começo do verão boreal, para mais de 2.600 em setembro. Aumentando a presença de tropas na capital iraquiana, Washington espera conter a violência sectária, mas, isso parece muito distante.
“Os militares norte-americanos têm um programa de duas fases para a segurança em Bagdá”, explicou em entrevista na televisão, segunda-feira, o analista Juan Cole, especialista em Iraque da Universidade de Michigan. “Mas, a batalha por Bagdá já vem sendo travada desde agosto, e não houve nenhuma diminuição dos ataques, que, pelo contrário, aumentaram. Temos 50, 60, 70 sendo encontrados na capital todos os dias, com disparos atrás das orelhas”, disse Cole, que propôs uma “retirada paulatina”. Mas, a violência não está limitada a bagdá nem ao reduto rebelde sunita na província de Al Anbar, fronteiriça com a Jordânia.
No fim de semana, uma série de assassinatos em represália entre sunitas e xiitas deipo mais de cem mortos na cidade de Balad, 80 quilômetros ao norte da capital, em uma área cuja vigilância foi cedida às forças iraquianas pelos Estados Unidos no mês passado. Por outro lado, as baixas norte-americanas também aumentaram desde agosto, quando foram enviados mais soldados para pacificar Bagdá. O número de efetivos mortos aumentou de 63, em agosto, para 75 em setembro, e agora em outubro já chegou a 60. Este poderá ser o mês com mais baixas em quase dois anos, acrescentando argumentos a favor dos que pedem uma retirada urgente.
Tudo isto serviu para criar pânico entre os partidários da ocupação, inclusive, e especialmente, entre os neoconservadores que impulsionaram com entusiasmo a invasao em 2003. Em um artigo publicado está semana na Weekly Standard, o analista Reuel Marc Gerecht, do centro acadêmico conservador American Enterprise Institute, admitiu que “cresce um consenso em Washington”, em todos os setores políticos, sobre a necessidade de uma “rápida saída” do Iraque. (IPS/Envolverde)

