Washington, 13/11/2006 – Os terremotos políticos que sacudiram a capital dos Estados Unidos na semana passada abrem oportunidades para resolver os problemas pendentes entre este país e o Irã. A chave para buscar uma solução é o Iraque. O opositor Partido Democrata obteve nas eleições legislativas de terça-feira passada a maioria nas duas casas do Congresso. Assim, a derrota do governante Partido Republicano levou à renúncia do secretário de Defesa, Donald Rumsfeld. Diante da iminente publicação do informe do Grupo de Estudo sobre o Iraque, um painel de especialistas dos dois partidos criado pelo Congresso, fica claro que os Estados Unidos não poderão avançar nesse país se não elevar o nível de sua relação com o Irã.
Isso também seria necessário para resolver a crise pelo desenvolvimento nuclear iraniano que coloca frente a frente Teerã e Washington e boa parte do Ocidente. A vitória eleitoral democrata e a substituição de Rumsfeld pelo ex-diretor da Agência Central de Inteligência (CIA), Robert Gates, na quarta-feira, modificaram o equilíbrio no governo entre a ala pragmática e a neoconservadora em matéria de política externa. Rumsfeld foi, desde o Pentágono, um estreito aliado do vice-presidente, Dich Cheney, em sua posição contrária a toda abertura diplomática em relação ao Irã.
Para o ex-secretário-geral do Departamento de Estado na gestão de Colin Powell (2001-2005), Lawrence Wilkerson, Cheney e Rumsfeld se certificaram de que Washington descartasse uma oferta de aproximação feita pelo Irã em maio de 2003. a iniciativa incluía abrir o programa nuclear iraniano à inspeção da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), deter as milícias do partido príó-iraniano libanês Hezbolá e cooperar contra a rede terrorista Al Qaeda e na segurança do Iraque. Rumsfeld também foi o principal promotor da utilização de Mujahedin-e Khalq, uma organização terrorista iraniana opositora aos clérigos governantes, para enfraquecer Teerã.
Porém, Gates pertence a uma escola diferente dentro do Partido Republicano quanto à sua concepção de política externa. O retrocesso republicano no Congresso e a chegada de Gates ao gabinete do presidente George W. Bush criaram uma oportunidade para mudar o rumo dos acontecimentos no Iraque e no Irã. Durante anos, o governo Bush manteve uma política maximalista baseada na rejeição a todo vínculo entre o programa nuclear iraniano e as muitas outras áreas onde há choques entre Estados Unidos e Irã.
Com essa postura, a Casa Branca se propôs obter as máximas concessões do Irã em todas as áreas sem lhe corresponder nem nunca dar nada em troca. Essa atitude ficou patente no Afeganistão, onde um enviado de Bush iniciou conversações com o Irã para coordenar esforços para eliminar o regime Talibã. Os motivos do presidente foram simplesmente táticos: aceitar a ajuda iraniana no Afeganistão sem oferecer nenhuma cooperação para produzir uma mudança de atitude para o regime islâmico. Por sua vez, os iranianos esperavam que o resultado de sua assistência tivesse implicações estratégicas para sentar as bases de uma relação renovada entre Teerã e Washington.
Uma vez que a ajuda do Irã no Afeganistão não foi mais necessária, o enfoque dos Estados Unidos para o Irã esfriou sensivelmente, em grande parte pela influência de Rumsfeld. Apenas poucas semanas depois da Conferência de Bonn em dezembro de 2001, onde a ajuda do Irã foi decisiva para conseguir um acordo entre os muitos senhores da guerra do Afeganistão, Bush incluiu o Irã entre os países integrantes do que ele chama de “eixo do mal”. A atitude conciliadora de Teerã não serviu para nada.
“O Irã cometeu um erro ao não vincular sua ajuda no Afeganistão com a ajuda norte-americana em outras áreas e simplesmente esperar que Washington lhe correspondesse”, disse à IPS o embaixador iraniano na Organização das Nações Unidas, Javad Zariv, que, representando seu país, conduziu as negociações com Washington relativas ao seu vizinho. A insistência do governo Bush em rejeitar todas as formas de ligação piorou uma situação já ruim.
Por um lado, a lição do Afeganistão para Teerã foi a de realizar um duro acordo com os Estados Unidos onde nenhuma ajuda foi oferecida de forma gratuita. O resultado foi que Washington ficou sozinho para lidar com a decadente situação no Iraque. Por outro lado, os esforços da Casa Branca para frear o programa nuclear iraniano o levaram a um beco sem saída. Jogou as relações bilaterais em um jogo no qual ninguém ganha, sem importar as intenções reais de Teerã. O governo Bush não admitiu matizes na tentativa de evitar que o setor nuclear do Irã avançasse.
Porém, Teerã é, no momento, o ganhador deste jogo em que o vencedor leva tudo. Washington nem mesmo pôde conseguir que o Conselho de Segurança da ONU aprovasse uma resolução para impor restrições de viagens a funcionários iranianos envolvidos no programa nuclear. Tudo indica que a única saída desse ponto morto é o que Bush, e Rumsfeld, se negaram a fazer: relacionar a cooperação iraniana no Iraque com a vontade norte-americana de encontrar um acordo em matéria nuclear, onde o enriquecimento de urânio seria considerado uma variável binária e não contínua.
A Casa Branca rejeitou essas ligações em sua busca de vitórias totais. Agora, é necessário criar vínculos para evitar uma derrota completa, tanto no Iraque quanto no Irã. O Grupo de Estudo sobre o Iraque, presidido pelo republicano ex-secretário de Estado James Baker, já preparou o caminho para tratar com o Irã. No início de outubro Baker se reuniu com o embaixador Zaif em sua residência novaiorquina. A entrevista de três horas foi considerada muito proveitosa pelas duas partes. Baker disse que o Irã consideraria ajudar os Estados Unidos no Iraque se “primeiro Washington mudasse sua atitude” em relação a Teerã, um eufemismo para a falta de disposição do governo bus em tratar com esse país desde um ponto de vista estratégico.
Os recentes terremotos políticos aumentaram a esperança de alguma mudança nesses países do Oriente Médio, apesar de o presidente Bush continuar tendo a última palavra. Nem um Congresso democrata nem um pragmático na cabeça do Pentágono tem chances de mudar a situação nessa reunião, a menos que o presidente reconheça a realidade do terreno: sem o Irã, os Estados Unidos não podem ganhar no Iraque, e sem vincular as negociações com a questão nuclear o regime islâmico estará fora de serviço. (IPS/Envolverde)
* Trita Parsi, especialista em política externa iraniana da Escola de Estudos Internacionais avançados da Universidade Johns Hopkins, é autor de “Treacherous Triangle – The Secret Dealings of Iran, Israel and the United States” (Triângulo de traição: as relações secretas de Irã, Israel e Estados Unidos), que será publicado em 2007 por Yale University Press.
(Envolverde/ IPS)

