Pobreza: Relatório do Banco Mundial reconhece fracasso

Washington, 11/12/2006 – O próprio escritório de auditoria do Banco Mundial confirmou o que muitos ativistas contra a pobreza insistem em afirmar há muito tempo: as políticas desse organismo multilateral não conseguiram reduzir o número de pobres nos países que recebem seus créditos. O Grupo Independente de Avaliação (IEG) disse que o Banco se concentrou muito no crescimento econômico dessas nações deixando que o desemprego e a pobreza se consolidassem ou agravassem. “O Banco Mundial ajudou muitos países a seguirem por um caminho de crescimento através de melhor administração econômica, mas, as estratégias de crescimento nem sempre são suficientes para melhorar as oportunidades de trabalho e as condições de vida dos pobres”, diz o IEG em seu estudo “Revisão anual da efetividade em desenvolvimento 2006: Conseguindo resultados”, divulgado semana passada.

O diretor-geral do IEG, Vinod Thomas, disse que “ainda há pela frente um longo caminho para se reduzir o número de pessoas que vivem na pobreza, bem como a magnitude de suas privações”. Um progresso “discernível depende de ações destinadas a sustentar o crescimento, bem como de melhorias na distribuição de renda e maiores oportunidades para os pobres. O desafio é ver mais números que refletem um beneficio para os pobres”, acrescentou. O documento diz que somente dois em cada cinco países que receberam empréstimos do Banco Mundial registraram um crescimento continuado de sua renda per capita entre 2000 e 2005, e apenas um em cada cinco desde 1995.

“Embora o informe não proponha uma mudança de curso por parte do Banco Mundial, implicitamente reconhece o fracasso da instituição, assim com do Fundo Monetário Internacional (OFMI) e de outros que emprestam e doam na contribuição para uma forma significativa de reduzir a pobreza no último quarto de século”, disse à IPS Doug Hellinger, do independente Grupo de Desenvolvimento para Políticas Alternativas. “A linguagem é manejada com muito cuidado para não atacar diretamente os fracassos das agora muito desacreditadas políticas de ajuste estrutural do Consenso de Washington, causadores de pobreza, bem como da liberalização, da privatização e de outras medidas de ajuste ainda exigidas nos empréstimos feitos por essas instituições”, acrescentou.

Hellinger destacou que o documento propõe que se procure “um melhor entendimento da economia dos países, particularmente da natureza do crescimento e seu projetado impacto na distribuição da renda, antes de conceder os empréstimos”. Entretanto, lamentou o fato de “não ser feita menção alguma à necessidade de incluir os pobres no ‘diálogo de políticas’ que o Banco utiliza para controlar as economias nacionais”. O informe é particularmente crítico do modelo de distribuição de renda que a instituição exige em seus projetos e empréstimos. Hellinger disse que a má distribuição amortizou o efeito da redução da pobreza que deveria ser gerada pelo crescimento econômico em vários países.

O analista também disse que as nações com maior crescimento tiveram melhor administração econômica, bem como melhores políticas de inclusão social. Em Madagascar, por exemplo, o Banco Mundial se concentrou em apoiar setores com um alto potencial de crescimento, o que lhe assegurava uma relativamente rápida devolução do dinheiro. Entretanto, estes setores tinham limitado impacto na redução da pobreza. Na Geórgia, a instituição investiu no setor de transporte petrolífero, o principal do crescimento econômico local, mas, gerador de pouquíssimos empregos.

Thomas disse a jornalistas que a forma de reconciliar a ênfase do Banco no crescimento econômico com a luta contra a pobreza é trabalhar nos dois assuntos ao mesmo tempo. Os ativistas contra a pobreza, que durante anos apontaram o “fracasso” do modelo econômico promovido pelo Banco Mundial e por sua instituição-irmã, o FMI, receberam os resultados do informe como uma defesa. Além disso, elogiaram o estudo por explicar como as economias dependentes das exportações e das privatizações não conseguem que o crescimento econômico beneficie toda a população.

“A Bolívia é um exemplo interessante. Esse país foi obrigado a privatizar seu gás natural e outros recursos em um processo que, na realidade, foi um presente para várias companhias de petróleo”, disse o ativista Sameer Dossani, da Rede 50 Anos são Suficientes. “Isso causou crescimento? Sim, mas, não beneficiou as pessoas, e a Bolívia continua sendo o país mais pobre da América do Sul”, acrescentou em mensagem de correio eletrônico. O informe do IEG recomenda que o Banco adote novas estratégias para promover a produtividade nas áreas pobres e uma mobilidade maior dos pobres para os setores de altos recursos.

O estudo assinala que a instituição deveria fazer “avaliações mais realistas” da econômica política e das reformas sobre governabilidade, e trabalhar para garantir um sincero apoio político aos governos locais. “Mas, o mais importante é que o Banco se responsabilize quando estabelecer condições em seus empréstimos vinculados com privatizações e outras medidas relacionadas que abrem as economias do Sul para as companhias do Norte, que buscam recursos e mão-de-obra barata”, disse Hellinger. Por sua vez, as autoridades do Banco receberam as críticas do IEG. “Aceitamos os pontos assinalados a respeito. Tentamos aprender com isto”, disse o diretor de Políticas Econômicas e Dívida do Banco Mundial, Vikram Nehru. (IPS/Envolverde)

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