Bagdá, 25/01/2005 – Os preparativos para as eleições no Iraque no próximo dia 30 representaram mais caos e divisão do que unidade e esperança entre a população. O primeiro-ministro interino, Iyad Allawi, designado pelos Estados Unidos, reconheceu que será impossível garantir plenamente a segurança durante as eleições, apesar das rígidas medidas aplicadas até agora. O governo anunciou que entre os dias 29, 30 e 31 próximos estarão fechadas todas as fronteiras, suspensos os serviços de telefonia móvel e por satélite, proibidas viagens entre 18 províncias e estará limitado o uso do automóvel.
A vigilância nas urnas será rigorosa. Os planos do governo consistem em fazer três cordões de segurança ao redor de cada um dos nove mil centros de votação. Entretanto, o governo se prepara para uma jornada sangrenta. O Ministério da Saúde anunciou que vai preparar mais camas, remédios e funcionários para esse dia em todos os hospitais. Os soldados dos EUA farão patrulhamento extra para responder imediatamente a eventuais atentados. Oito candidatos foram assassinados e muitos outros receberam constantes ameaças de morte nas últimas semanas.
A campanha se limitou à distribuição de "santinhos" e colocação de cartazes, muitos dos quais destruídos por manifestantes no mesmo dia. Além disso, o próprio processo eleitoral é confuso para a população. Das eleições participam 83 coalizões de partidos com um total de 7.785 candidatos, na maioria desconhecidos. Catorze milhões de iraquianos aptos a votar elegerão os 275 membros da Assembléia Nacional e das câmaras municipais.
O novo parlamento designará o governo que vai substituir o atual, presidido por Allawi. Também poderão votar 1,2 milhão de iraquianos exilados em 14 países. As cédulas têm nomes gerais e semelhantes entre si, como "A lista da segurança e da estabilidade", "A lista da segurança e justiças" e "A lista do Iraque", o que contribui para confundir os eleitores. Poucas contêm fotos dos candidatos. Allawi integra a lista com o lema "Por um Iraque forte, seguro próspero, democrático e unificado".
Na maioria das folhas de votação não se faz nenhuma referência à ocupação norte-americana do Iraque. "Façamos com que as urnas sejam nossa resposta aos atentados e à insegurança", reza um dos cartazes de campanha. Em outro, se promete a restauração do serviço elétrico. Os slogans dos partidos curdos se concentram em pedir o controle da cidade de Kirkuk e obter postos-chave no próximo governo iraquiano.
Por outro lado, dirigentes do ramo muçulmano xiita, à qual pertencem seis em cada 10 iraquianos e que foram marginalizados pelos governos anteriores, incluindo o de Saddam Hussein, postulam um sistema federal e, em alguns casos, um governo teocrático semelhante ao do Irã. No entanto, a Associação de Eruditos Muçulmanos, do ramo sunita, conclama a um boicote das eleições em protesto pela destruição da cidade de Faluja pelas forças dos EUA.
Prevê-se que cerca de 90% dos sunitas não irão votar. Por outro lado, os xiitas obedecerão ao seu líder espiritual, o aiatolá Alí Al Sistani, que promulgou uma "fatwa" (decreto religioso) incentivando a participação nas eleições. "Irei votar porque Sistani nos disse que isso ajudará o país e eu estou pronto para fazer qualquer coisa por meu país", afirmou Abdel Hassan, um sapateiro do distrito de Karrada, em Bagdá.
Mas outros iraquianos parecem estar firmemente contra as eleições. "Como podemos votar quando não conhecemos nenhum dos candidatos? E como poderão ajudar um país ocupado por invasores?", se perguntou Ghassan, um xiita. Além disso, o medo da violência é suficiente para dissuadir muitos interessados em votar. "Não sabemos quando virá a próxima bala e por isso ficamos em casa a maior parte do tempo. Eu votaria se soubesse que há segurança, mas estas eleições são muito confusas e já estão causando muitos problemas", disse Abdulá Hamid, de 35 anos, vendedor de frutas em Bagdá. Entretanto, outros acreditam que votar é uma forma de contribuir para melhorar a situação. "Votarei em Allawi por acreditar que pode ajudar o Iraque. Creio que é o que pode trazer segurança", disse Suthir Hamiz, cujo marido trabalha em um acampamento militar norte-americano. Porém, Hamoudi Aziz, um taxista, sustentou que os preparativos das eleições pioraram as coisas. "Não estou a salvo nem mesmo em minha casa. Como esperam que vá votar para esse parlamento louco", afirmou. (IPS/Envolverde)

